‘Educar para transformar’, lições de Paulo Freire

Painel retrata o educador Paulo Freire - Centro de Estudos em Pesquisa Tecnológica da Secretaria Municipal de Educação de Campinas-SP - Imagem capturada na Carta Educação, da Editora Confiança
Painel retrata o educador Paulo Freire – Centro de Estudos em Pesquisa Tecnológica da Secretaria Municipal de Educação de Campinas-SP – Imagem capturada na Carta Educação, da Editora Confiança
Por Sulamita Esteliam

Topei com o texto do Gogó no Blog do Miro, em minha navegada para fugir do assunto cotidiano e, cada dia mais, rasteiro da política. Só para variar.

Na verdade, não resisto a Paulo Freire, embora só tenha lido um livro dele, que transformei durante muitos anos em leitura de cabeceira.

Pois é do Mestre da Pedagoria do Oprimido que trata o texto; portanto, de educação.

Em tempos de mesquinharia, opressão e retrocesso, e da proposta da baboseira de nome “escola sem partido”, é imprescindível lembrar-se das lições de generosidade que levam a aprender a pensar, a partir da própria realidade.

“Educar para transformar”, conforme o lema do Instituto Paulo Freire, criado por ele, em abril de 1991,  para disseminar a educação humanizadora e transformadora – seu legado.

Gogó é, na verdade, Roberto Malvezzi, músico, filósofo e teólogo. Integra a CPP – Comissão Pastoral da Terra do São Francisco.

O texto que reproduzo Altamiro Borges transcreveu da Adital, mas foi publicado, originalmente no sitio do autor na rede. Tem muita coisa interessante por lá. Vale conferir.

 

Paulo Freire, “fome e sede”.

Roberto Malvezzi

Nem no túmulo Paulo Freire deixará seus inimigos em paz. Eles o veem pela janela, pelas palavras, no vento, no sol, nos sonhos e pesadelos, inclusive o governo aí posto.

Não é sem razão. A leitura de mundo que ele tanto defendia é radicalmente diferente do letramento. Ler a sociedade brasileira, sua construção histórica, o papel das classes, de cada etnia, o significado da cor no Brasil, traz efetivamente desconforto para muitas pessoas, inclusive para cada um de nós.

Quando voltou do exílio, ele veio várias vezes aqui para a região de Juazeiro, a convite de D. José Rodrigues, até hoje considerado o “bispo dos excluídos”, ou “o profeta do Semiárido”. Passava semanas conosco, numa boa roda de conversa, como se fosse mesmo numa roda de bar. Não havia praticamente hora para acabar e ninguém queria sair dali. Um dia, cansado, ele disse: “agora vou sair. Quero ver também os passarinhos e as plantas”.

Hoje me sinto na obrigação de dar um testemunho pessoal.

Quando cheguei ao sertão – vínhamos em grupo -, janeiro de 1979, a paróquia de Campo Alegre de Lourdes nos colocava nas comunidades para “formar comunidades, fazer educação política e alfabetizar as crianças”. Então, na comunidade do Pajeú, durante uns 20 dias, eu tentava ensinar as crianças a ler pelas palavras geradoras “fome e sede”. Era a realidade do sertão daquele tempo. Hoje melhorou pelo menos 80%.

Passaram-se quase 40 anos daqueles dias. Então, abastecendo o carro num posto de gasolina de Casa Nova, uma mulher desceu de uma vã e veio diretamente na minha direção. Ela disse: “você é o Gogó”. Respondi: “sim”. Ela continuou: “você me reconhece? ” Eu respondi que lembrava dela, mas não me recordava de onde. Então ela disse: “você me alfabetizou quando eu era criança lá no Pajeú. Eu sou uma das gêmeas”.

Então, me recordei dela criança instantaneamente. Univitelinas, ela e a irmã estavam todos os dias nas aulas.

Confesso que a surpresa foi total. Eu não acreditava que aqueles poucos dias eram suficientes para iniciar alguém nas primeiras letras. Mas, não era só o que ela queria dizer, e concluiu: “estou fazendo faculdade em Petrolina e tudo começou com aquelas primeiras letras”.

O Brasil e o mundo devem muito a Paulo Freire, talvez acima de qualquer imaginação. O Papa Francisco disse à viúva dele que já leu “Pedagogia do Oprimido”. Paulo Freire será sempre um fantasma a assombrar aqueles que querem perpetuar sociedades opressivas. Aprender a ler o mundo é sempre um perigo.

O que o governo Temer quer fazer com a pessoa de Paulo Freire é do tamanho da própria insignificância.


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