Reflexões sobre violência profissional, por que se é mulher…

por Sulamita Esteliam

Fui levada pela Artigo 19 a refletir sobre violência na minha vida profissional de jornalista e comunicadora. Violência pelo fato de eu ser mulher. Confesso que nunca havia parado para pensar a respeito. E olha que me considero feminista.

Sempre julguei que as agressões de que fui alvo estavam ligadas, essencialmente, à minha postura política e ética, à circunstância de estar dirigente sindical, e às próprias vicissitudes da profissão. E como sou meio carne de pescoço, sempre julguei não deixar brechas para determinadas atitudes.

Talvez não esteja mais tão convicta, assim…

A ONG está fazendo uma pesquisa sobre o assunto, e aproveitou a oportunidade do Encontro de Comunicadoras em Olinda, que debateu violência e liberdade de expressão, para entrevistar as participantes – aqui no blogue.

O grau de violações da liberdade de expressão é alto, em particular no Nordeste. A Artigo 19 tem um levantamento preciso das ocorrências no período 2012-2015, e agora se dedica a detalhar a incidência com recorte de gênero, incluindo recuo no tempo.

Euzinha apenas passei no local do encontro um pedacinho da tarde do segundo dia… Fui abraçar as amigas Célia Rodrigues e Denise Viola,  companheiras da Rede Mulher e Mídia e da Rede Mulheres em Comunicação.

E, claro, conhecer novas colegas que fazem comunicação comunitária, inclusiva Nordeste e Brasil afora. Acabei re-conhecendo Rose Castilhos, jornalista de Porto Alegre, integrante do Ilê Mulher. O mundo é pequeno.

Cheguei bem a tempo de participar da dinâmica em torno do significado de Rede.

Vibração. Compromisso. Solidariedade. Energia. Ancestralidade. Empoderamento. Respeito. Coletividade. Interatividade. Amor. Conectividade. Sororidade. Conhecimento. Perseverança. Sucesso. Poder. Sustentablidade.

Força. Compromisso. Paciência. Sintonia. Compromisso. Foco. Responsabilidade. Compromisso. Ousadia. Equilíbrio…

Entrelaçamento. Teia. Pés no chão.

(Sou o ponto fora do enquadramento – quero crer, só na foto, pois cliquei – ao lado de Bruna, a belenense-olindense Bruna, de turbante branco. Denise é a ruiva de preto; Célia está de lilás e Rose é a loira de camiseta branca e óculos na foto do alto à direita.)

Aceitei o convite para o almoço. No Recanto dos Pescadores, tinha peixe no cardápio. Irrecusável.

Honrou-me deferência de Lígia Apel, coordenadora da Rede de Mulheres da Amarc Brasil, em ouvir-me na pesquisa. Não contava com isso.

Acabei destampando o baú, um tanto atabalhoadamente. Desconfio que terão dificuldades em enquadrar minha “entrevista” nos rigores científicos.

Entretanto, depois de encerrada a entrevista, Euzinha novamente comigo mesma, a memória transbordou.

Tais episódios, naturalmente, vão integrar o livro que escrevo, muito devagar: sobre os bastidores do Jornalismo e do mundo sindical, e que tem o título provisório de O Avesso do Avesso.

É mais um à procura de editora.

A vida de blogueira, trabalho voluntário que chega a seis anos no próximo 11 de setembro, me exige tempo e dedicação e não me rende um centavo.

Todavia, sou obrigada a admitir, é o melhor dos mundos nesses 37 anos de profissão, completados neste julho, e não só pela independência que o cerca.

Experimentei de tudo na minha longa trajetória como repórter, subeditora e editora, ou mesmo assessora de imprensa e/ou comunicação.

Não, não há diferença entre setor privado, público ou sindical. Jornal, revista ou televisão – minha experiência em rádio, a que é significativa, foi voluntária e prazerosa.

Também, e eu diria muito menos, não difere de quem parte a agressão; homens formam a maioria, mas mulheres não escapam ao papel.

Jogos de poder, tenha ele a dimensão que tiver. Medo da sombra. Insegurança.

Cantadas baratas ou sutis. Até perseguições machistas fruto de obsessões supostamente amorosas, frustradas; ou a título de “cuidado”.

Piadinhas públicas de políticos e/ou empresários contrariados por matérias que expunham seus escorregões éticos ou verbais.

Assédio moral de colegas, chefes e chefetes, até mesmo de dirigentes sindicais – alguns de saia.

Ironias de coleguinhas mascus sobre a conveniência de dedicar-me a temas menos espinhosos do que política ou economia.

Políticos, supostamente gentis, a sugerir que você seria “mais encantadora se se comportasse feito uma gueixa”.

Desqualificação pública por parte de delegados inconformados com o enfoque da reportagem.

Numa coletiva, em 1985, no Centro de Triagem em Belo Horizonte, a “autoridade” classificou como “tolice de inexperiente” eu ter “dado voz” aos encarcerados. Os detentos matavam companheiros de cela em protesto contra a superlotação carcerária.

Muitos deles condenados que deveriam estar numa penitenciária, não em delegacia. Apontaram maus tratos e acusaram a polícia, civil, de estimular a matança: “Qual vai ser o presunto do dia…?”, gritavam nos corredores, imundos, da carceragem.

Foram 10 estrangulamentos em três meses. Matavam sempre na madrugada de domingo. Escolhiam o meu plantão. Envolvi-me a tal ponto de sonhar com a vítima seguinte, e acertava.

O nível de estresse levou à primeira de ene crises de lupus (eritematoso discoide) –  ou possibilitou o diagnóstico -, doença que me acompanharia por 15 anos.

A cobertura da “ciranda da morte” ou “sorteio da morte”, como ficou conhecida, rendeu 10 capas no  jornal O Globo, que havia comprado meu passe recentemente.

Uma das consequências foi eu ter minha casa invadida quatro vezes, sempre aos domingo. Chegava do fim de semana como minhas crianças e encontrava nosso lar de ponta-cabeça; sem que praticamente nada fosse levado.

Pura intimidação.

Cessou quando eu invadi a sala do delegado da Furtos e Roubos e perguntei se eu teria que botar a boca no trombone e dar nome aos bois para acabar com a palhaçada.

Eu era atrevida demais para os padrões da época – e para uma mulher.

A mente é um labirinto assombrado pelo medo de não encontrar saída. Mas ela existe.

É respirar fundo e seguir em frente, com os olhos abertos, e, como na canção de Walter Franco, “a espinha ereta e o coração tranquilo”.

Por falar em violência, liberdade de expressão e mulher, vale ler a entrevista de Anna Muylaert à cartunista Laerte na Rede Brasil Atual. Fala sobre machismo e o desafio de ser  cineasta mulher.

Fecho com o vídeo produzido pelo coletivo Mídia Ninja em parceria com a banda NU. Capturei no Facebook da presidenta legítima Dilma Rousseff.

De mulheres e resistência ao machismo, à misoginia e ao golpe se trata:


3 comentários sobre “Reflexões sobre violência profissional, por que se é mulher…

  1. Nossa!!!
    Temos todas nossas histórias!!
    Algumas histórias tão tocantes quanto a tua, companheira Sulamita, me arremeteu um pouco da minha também…
    De mãos dadas – ainda que virtualmente – seremos mais fortes e menos “idiotas”!
    Bravo!
    A Tal Mineira é show!!!

  2. Mil beijos amiga querida!!! Gratidão e muita luz!!!!

    Célia Frente de Mulheres do Cariri Rede de Mulheres em Comunicação Rede Mulher e Mídia Rede Mulheres Amarc/Brasil 88 – 99635 1560 (tim)

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