É preciso muito mais para espantar as trevas

por Sulamita Esteliam

Não se sabe em que momento alguém resolveu puxar a caminhada rumo à Conde da Boa Vista. A ideia, me explicaram, é que o ato, desta vez, não saísse da Praça do Derby. Perto de mil pessoas acompanharam o cortejo. Muita gente ficou para trás.

Quem seguiu, atravessou a Agamenon sem qualquer segurança. Não havia policiamento para reter o trânsito, e um motociclista chegou a jogar o veículo para cima dos manifestantes que faziam a barreira para o povo passar. Sorte que ninguém se machucou.

E assim foi até a entrada do Recife Antigo, onde domingo é dia de lazer, e o trânsito é restrito à algumas ruas de fluxo. A cada sinal um estresse. Cerca de 3,3 km de percurso.

A manifestação foi chamada pelo movimento Povo Sem Medo. A Frente Brasil Popular, que inclui os sindicatos e partidos à esquerda, tudo indica, não agregou empenho. Quem lá esteve, esteve por conta própria.

É o caso desta velha escriba. Junto com meu companheiro, Júlio, e o casal de amigos Leninha e Hercílio, que se abalaram de Porto de Galinhas, onde vivem, para defender a democracia e gritar #ForaTemer.

Penso cá com meus botões se o povo não está preocupadocom os destinos do País, com seus próprios destinos, se tanto faz como tanto fez… Ou trocaria a modorrenta tarde de domingo, provavelmente, em frente à TV, por um bom exercício de cidadania.

É tipo o meme que circula pela rede: “Cortar-lhes-ei os direitos trabalhistas. Postergar-lhes-ei a aposentadoria”, diz Temer na TV, a exibir a mesóclise. E o casal do sofá comenta: “Nossa! Como é bom ter um presidente que fala bem o português”.

A PM e os guardas municipais da CTTU, responsável pelo trânsito, só chegaram junto quando a manifestação já cruzara a Dom Bosco, entrando na Conde da Boa Vista.

Os soldados desembarcaram com as mãos nas armas, força do hábito – que entretanto não é nada agradável para quem está diante deles.

Depois, passaram a seguir a caminhada, lentamente, entre o tráfego que nos perseguia e nós manifestantes. Dos cruzamentos continuaram cuidando os voluntários.

Em dado momento, uma turba de adolescentes, na faixa dos 14 a 17 anos, desembarcou do ônibus Alto Santa Isabel e, da calçada oposta, continuou o que vinha fazendo já de dentro da condução: provocar os manifestantes, aos gritos de “fora, Dilma”, “fora, PT” e xingamentos de toda sorte.

Meninos e meninas.

Muito provavelmente, disseram a mãe e/ou que iam dar um rolê no shopping, ou no Antigo. Passeiozinho inocente. Voltavam para casa quando viram os vermelhinhos, e decidiram trelar (aprontar no pernambuquês).

A polícia ficou à margem. A garotada ganhou confiança, cruzou a avenida e se misturou à passeata. Os manifestantes entoaram o coro “vai estudar, vai estudar…”.

Alguém chegou junto de um dos carro da PM e alertou para os “infiltrados, provocadores”e possíveis consequências.  O carro emparelhou com a galera, que se mandou para a calçada, mas manteve a provocação por mais três ou quatro quadras.

Prova de que a turma de cá é da paz.

Agredir, nesses tempos, é parte da diversão. Xingavam e riam, como se estivessem voltando do campo de futebol. Um deles aprumou o dedo médio para a câmera, outro gritou “filma eu…”, alguns e algumas procuravam esconder o rosto.

Houve um que fez questão de deixar claro: “Não sou ignorante, tia…”

Comecei a filmar quando atravessaram avenida. Outras pessoas também o faziam, mas a velhota aqui incomodou.

Abstenho-me de compartilhar o vídeo, que envolve menores de idade, e não disponho de requisitos técnicos para preservar as identidades.

Publico algumas fotos da galera, com tarja e/ou à distância.

 

Antes de chegar à Rua da Aurora, a meninada se eclipsou. E a passeata seguiu adiante. Cruzou a Ponte Duarte Coelho, rumo à Pracinha do Diário. Deixou mais gente pelo caminho, mas foi adiante, atravessou a Ponte Maurício de Nassau e ganhou o Recife Antigo.

Gente determinada. Heróis e heroínas da democracia.

Na Pracinha do Diário, parei para conversar com algumas pessoas, que conheço dos movimentos sociais. Todos preocupados com a baixa frequência do ato no Recife.

– Se fosse uma sexta-feira, estava explicado, é dia de trabalho… Mas num domingão? – questionou uma delas.

– Domingo é dia de praia… dá uma preguiça danada, chegar em casa e sair de novo… – brincou outra.

– Em Belo Horizonte, sua terra, deu muita gente. Ouvi que foram 10 mil pessoas – falou a primeira se dirigindo a mim.

– Pois é. Talvez porque lá o povo esteja mais mobilizado por conta das atividades dos últimos tempos, como a Feira da Reforma Agrária, que envolve artista da terra e de fora – arrisquei.

– Não consigo entender, como aqui uma terra de tradição de luta, com tanto artista, por que não juna todo mundo? Será possível que esse povo não vê a importância desse momento? – questionou a mesma interlocutora.

– Em São Paulo também foram milhares, coisa de 60 mil no Largo do Batata. Mas lá é o berço da Frente Povo Sem Medo, que sempre arrasta muita gente – devolvi. E aqui, certamente, a Frente Brasil Popular está guardando fôlego para o dia 05.

– Mas na sexta mesmo é que é bom, tem muita gente na rua, e o povo chega junto, depois vira festa…- ajuntou outra.

Ninguém falou dos lançamentos de candidaturas municipais – em Olinda, Jaboatão e Cabo, por exemplo. Além do fato de que algumas campanhas a vereadores já estão a pleno vapor. E todo evento é oportunidade para coletar esperança de votos.

Mas e o povo!?

É bom não esquecer, por outro lado, que o golpe – que vinha sendo urdido às claras, para quem sabe ler  e ver – foi deflagrado num domingo; o fatídico 17 de abril, que há de nos envergonhar para sempre.

Tudo que os golpistas querem é que joguemos a toalha, que aceitemos o fato como consumado.

Há indignação e fibra por toda parte. Mas, cá pra nós, é preciso muito mais.

 

O sítio Ópera Mundi tem um panorama do que foram as manifestações #Fora Temer no restante do Brasil. Clique para ver.

Sim, para não dizer que fecho os olhos para o outro lado, apesar da “desconvocação”  tática do MBL, houve manifestações fora Dilma em São Paulo, Rio e BH, mas o nível de adesão não mereceu cobertura ao vivo do PIG aliado.

Estaria todo mundo cansado, ou o nível de frustração com o desgoverno secou a motivação?

Aqui no Recife, o Vem pra Rua juntou “algumas centenas” segundo o insuspeito Blog de Jamildo.

Dia 05 tem mais #ForaTemer em todo Brasil.

Tomara que as frentes, os movimentos todos, o povo organizado e o povo silencioso se juntem para bloquear o golpe e retomar a Democracia, o Estado de Direito. O Congresso só funciona sob pressão.

Confira mais algumas fotos do domingo 31 no Recife.

 

 


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