A direita avança, mas nem tudo é treva

por Sulamita Esteliam

urna-conselhoÉ, minha gente, o general De Gaulle, certamente, ficaria perplexo se por aqui baixasse neste quadrante de século, ainda que em espírito: o Brasil endireitou de vez, mas por vias tortas, a provar aquele sentido que ele considera que este não é um País sério.

A direita passou sobre nós feito carroça desembestada. Ou, quiçá, estamos provar uma certa esquizofrenia que toma conta da Nação, em tempos de golpes de Estado?  Ou é mais um saculejo a indicar que é preciso repensar o modo de fazer política?

Por que, certamente, não se trata de moralização, tampouco de inovação. Os resultados preliminares e mesmo os definitivos, onde e no que cabem, apontam para mudança dos anéis.

Fato é que os eleitores não ouviram o grito de alerta das esquerdas, ou de parte delas.

Ou então, me diga: como explicar 75% dos votos à releição do filhote neto do ACM demo em Salvador?

E o que explica que a mesma São Paulo que renega a civilidade, impressa ao seu desvario pelo mandato de Fernando Haddad, para entregá-la ao discernimento de um janota explorador de cães, torne Eduardo Suplicy (PT) o vereador mais votado?

Sim, aqui, debite-se à desconstrução do Partido dos Trabalhadores pelo conjunto da obra, que inclui a criminalização seletiva e o golpe de Estado travestido de impeachment, que é permanente.

Mas e os 301.446 votos de Suplicy, quase o triplo do segundo colocado, devem ser atribuídos ao sobrenome quatrocentão?

E como se explica que o filho Carlos do Bolsonaro seja o vereador mais bem votado do Rio de Janeiro e que o outro filho, o Flávio tenha obtido 14% dos votos para o Executivo?

O mesmo Rio que colocou o PSol no segundo turno para disputar com o pastor Crivela, dissolvendo no ar os votos da brava Jandira Feghalli (PCdoB), faz sentido? Sim, talvez na cidade que celebrizou o “voto cacareco” faça sentido.

Mas e que Belo Horizonte, a cidade-teste, tenha caído na manobra canhestra do 1º Neto, e ressuscitado o prestigio de um Aécio Neves (PSDB), depois de todos os desmandos no governo do Estado, e todos os desvios conhecidos, inclusive os de mau perdedor e golpista?

Pois não está o playboy do Leblon redivivo nos dois litigantes no segundo turno pelo comando da capital? O tucano João Leite e o neófito Kalil (PHS) são, na verdade, farinha do mesmo saco que aduba a horta do neto de Tancredo Neves.

A mesma Beagá fez uma mulher negra, feminista, jovem e periférica, vereadora mais votada, dentre 41 eleitos/as: Áurea Carolina, do PSol, e isso é para celebrar. O partido conquistou outra cadeira, com Cida Falabella. Ambas integram o movimento Muitxs pelo mandato que queremos, que uniu mulheres, eleitoras e coletivos para discutir o projeto de cidade e cidadania.

Vê-se, portanto, que há mais do que sobreviventes a manter acesas algumas luzes em meio as trevas.  E o caminho talvez seja uma retomada do processo de construção do espaço e do ser político.

Da ninha Macondo de origem para a Macondo de escolha.

E aqui no Recife, queiram ou não queiram os juízes, o PT está no segundo turno, com João Paulo.

Uma disputa que promete ser dura, contra o candidato a reeleição Geraldo Júlio (PSB), mas que trouxe emoções já na apuração desta a etapa. A lembrar a primeira vez, em 2000, quando tudo parecia perdido já com 60% dos votos apurados.

Estávamos no Marco Zero, de bandeiras em punho, acompanhando a apuração, todos muito nervosos com a larga vantagem de Roberto Magalhães (, então PFL, hoje DEM). Lembro-me que, à época, disse para o meu grupo que as urnas do morro iriam virar o jogo.

Não deu outra. Suponho – pois não tive acesso à apuração setorizada – que também desta vez, 16 anos depois.

Agora, como antes, é arregaçar as mangas e ir à luta, que o tempo urge. O segundo turno é no domingo, 30, véspera do Dia do Saci e das Bruxas – e 31 é o aniversário de João Paulo, o de fato.

João é um homem do povo, e fez na capital pernambucana dois mandatos populares e participativos, na essência das palavras. E agora tem a chance de renovar a experiência.

Isso já seria motivo bastante para comemorar. Assista ao vídeo com a celebração e a coletiva de imprensa que se seguiu:

 

E, aqui, faço rápido parêntesis para agregar outro: a reeleição de Marcus Alexandre em Rio Branco, no Acre, com 54% dos votos.

Volto ao Recife. Na Câmara Municipal, o PT conquistou apenas duas vagas, sendo uma delas da combativa Marília Arraes, que migrou recentemente para o partido, egressa do PSB do primo Eduardo Campos. Foi a sexta mais votada.

Não votei nela, mas sua postura de coragem, tanto no apoio solitário à reeleição de Dilma, como na mudança de legenda por discordar da condução partidária, a credencia a novo mandato.

O colega jornalista, blogueiro e ativista pela democracia na comunicação, Ivan Moraes, conquistou uma cadeira na vereança pelo PSol. É o primeiro vereador da legenda, e é vitória importante para a esquerda e para a causa.

No Recife como no Rio de Janeiro, o PSol teve uma postura decente contra o golpe e pela democracia, essencial pontuar. O partido conta com um deputado estadual, Edilson Silva, que, alijado dos debates televisivos, amealhou tão somente cerca de 2% dos votos para prefeito.

Para a Câmara, a campeã de votos, a exemplo de Beagá, também é uma mulher, só que de espectro oposto: a missionária Michele Collins (PP). A denominação não a classifica; ela é fundamentalista.

Aliás, dos cinco edis mais votados, os três primeiros são da bancada evangélica. Além da citada, a Irmã Aimée (PSB) e o empresário Fred Ferreira (PSC).

Vale o registro de que este último é cunhado dos deputados-pastores da Assembleia de Deus, o estadual André Ferreira (PSC) e federal Anderson Ferreira (PR), congregações e partidos que dominam. Detalhe: Anderson está no segundo turno da disputa pela prefeitura de Jaboatão dos Guararapes.

Ao que tudo indica, “em nome de Jesus” é o combustível da máquina de fazer votos aos milhares.

Segundo as más línguas, retrato em 3 x 4 do toma lá, dá cá de apoios com o partido ocupante do Palácio Campo das Princesas. A colheita eleitoral parece dar sentido ao que se diz.

É assim que a banda toca na política real.

Fizeram barba e bigode, mas no meio do caminho tem um João Paulo.

Por enquanto, fico por aqui.

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PS: E que me perdoem os “especialistas”: 2016 não tem conexão com 2018, pois não há casamento de eleições municipais com eleições gerais; é só compilar resultados anteriores de um e outro pleito.

O tal do mapa eleitoral é muito bom para gerar infográficos e para alimentar paixões ou desejos nada secretos. Fogo que arde enquanto dura, mas que se apaga na rotina brava do cotidiano.

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PS 2: Vou me ausentar do blogue por uma semana para recuperar-me de uma pequena cirurgia corretiva a que me submeterei na tarde desta segunda.

Pedi à minha caçula, Bárbara Esteliam, que cuidasse da atualização do A Tal Mineira nesses dias. E ela topou, para minha alegria e tranquilidade.

Vocês estão em boas mãos.

Até mais.

 

 


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