Belchior 7.0, a palo seco, num texto do livro-homenagem com escritores cearenses

por Sulamita Esteliam

Desculpe-me, mas deu xabu o arranjo que tentei para manter o blogue atualizado. Aproveito para dizer que estou de volta; bem devagarinho, que é para não estragar a obra que me colocou de molho esta semana. Quando estiver no ponto, mostro.

Como hoje é sábado, compartilho o belo texto da jornalista e escritora, Ana Karla Dubiela, minha amiga-irmã cearense, que me honra. Integra o livro-homenagem ao poeta-compositor Belchior, que celebra 70 anos de vida e talento.
Para Belchior com Amor reúne textos de 14 escritores do Ceará, a partir da 0bra do artista em suas experiências de vida. É organizado pelo escritor e letrista, Ricardo Kelmer, que também é um dos autores, ao lado de Xico Sá, Ethel de Paula, dentre outros.
O livro é editado pela Miragem, tem 96 páginas e foi lançado na noite da sexta, 07, no Theatro José de Alencar (foto abaixo), com show Belchior Sete Zero, com os músicos Erickson Mendes, Jorge Guedes e Lúcio Ricardo.
Pode ser adquirido pela internet ao preço de R$ 19 o exemplar – clique aqui e garanta o seu.
Vamos ao texto de Ana Karla, que escolheu A Palo Seco:
escritores-cearenses-e-belchior_divulgacao
Alguns dos escritores e escritoras no lançamento no TJA, em Fortaleza. Ana Karla é a quarta, a contar da esquerda, logo após Ethel de Paula – Foto capturada no FB

Um golpe de faca só lâmina

por Ana Karla Dubiela 

No campus da UFSC, um grupo magro de estudantes divide o último baseado à espera do show. Um frio cortante gela a espinha e a grama orvalhada refrigera a bunda. Mais de uma hora de atraso, por problemas técnicos. Goela seca, grana curta. Uma “vaquinha” garante o garrafão de vinho doce que compramos ali mesmo no bairro Pantanal, na casa de uma camponesa de rosto de maçã, que sempre vem nos atender arrastando os chinelos, a qualquer hora da noite. Nunca decorei seu nome esquisito, mas guardo até hoje seus traços europeus e o orgulho com que nos dava para provar dezenas de vinhos, armazenados por gradação de cor, na antiga Frigidaire vermelha. Bebíamos tudo e quando finalmente nos decidíamos pelo mais barato, já estávamos devidamente alegres.

Em lua de mel naquela ilha deslumbrante, aos 19 anos, fiquei surpresa ao saber que o grande ídolo da rapazeada de Floripa, em 1984, era o conterrâneo Belchior. Era dele o show daquele sábado, praticamente a única opção da cidade que dormitava sempre cedo. Com os LPs debaixo do braço para pedir autógrafo, lanternas no bolso (e sonhos que roubamos de outros mais velhos, que se desesperavam), voltamos a tempo de ouvir o boa noite ao microfone. “Tenho 25 anos de sonho e de sangue e de América do Sul”, gritávamos em coro e êxtase, a palo seco.  Não havia alienado ou militante, quer defendesse a tese de um golpe que desembocou em ditadura ou, ao contrário, apostasse em uma revolução, que não encontrasse abrigo naquele canto. “Só a lâmina da voz, sem a arma do braço”, como no verso de João Cabral.

O show durou bem mais que as duas horas previstas e os blusões de couro não estavam mais segurando o frio. Ficamos todos por ali depois dos autógrafos, numa roda de violão, repetindo as mesmas canções, exaustivamente. “Por força deste destino, um tango argentino me vai bem melhor que um blue”. Sem que restasse uma gota de vinho, a madrugada encompridou-se, e caímos por ali mesmo, abraçados, servindo de cobertor uns aos outros, sentindo o hálito quente e perfumado das uvas. Não havia medo. Não havia solidão. Até que um sol todo acabrunhado nos devolveu a realidade morna e fomos expulsos pelos seguranças, geralmente cúmplices, do campus. Dois anos depois, retornamos ao Ceará e às velas do Mucuripe, para que eu concluísse com a minha turma, na minha terra, o curso de jornalismo interrompido.

A ditadura já definhava. Os anos mais duros nos pegaram de calças curtas, ainda tão inocentes, em brumas. Ouvíamos falar sem parar em censura, golpe, revolução, tortura, exílio, militares, perseguições, prisões. Mas tudo era cena de um filme em que éramos apenas figurantes. Quando fomos testemunhas do desespero que virou moda em 76, éramos adolescentes – e, com algumas exceções, os nossos desesperos eram outros. Pouco mais tarde, universitários, andávamos meio descontentes, é verdade, sem entender muito bem porque o ar era mais denso, os silêncios mais gritantes, as conversas cifradas. Ou porque aquele tio querido havia sumido há tempos. Vez ou outra a polícia, com seus gases, arrancava à força nossas lágrimas. Um professor mais afoito deu tiros pra cima e vociferou chorando, defendendo o campus da UFC e todos nós. Uma ou outra manifestação, uma ou outra arbitrariedade. Mas quem gritava desesperadamente, em bom português, eram nossos pais. Eles, sim, de olhos abertos, sentiram arder na pele a ditadura por longos vinte anos, enquanto nós, quase sempre, sonhávamos. A democracia engatinhava e o gosto da ressaca persistiria por anos e anos em nossas bocas, dando um certo torpor.

Daquele tempo, a trilha sonora ainda reverbera na consciência política. Durante tanto tempo de jornalismo, lendo e escrevendo, inclusive sobre os tempos de chumbo, tomei partido e me indispus com muitos. Até bem pouco tempo, tinha uma noção teórica do que realmente significava poder conversar, postar e compartilhar aquilo que conhecia somente por ouvir falar. A prática corriqueira (e legal) era a de empunhar o grito e a bandeira, encarnada ou bicolor, pelas ruas da cidade, escrever o que bem quisesse, criticar quem bem entendesse. Meu pai veria isso tudo sorrindo, tristemente, com uma certa inveja de ser jovem nesse tempo em que falar mal do governo ou da oposição era tão natural quanto respirar. O que não poderia ser dito no jornal ou na TV, dizia-se no blog, na praça, no instagran, no face, no telegrama internético (twitter), no whatsapp, em todo canto.

Em 2013, retornei à Universidade de Santa Catarina para dar uma palestra. Meia dúzia de gatos pingados ouviam. Disseram os organizadores que boa parte dos alunos foi ao tributo a Vinícius de Moraes, na noite anterior, e não acordou. Lembrei-me imediatamente do vinho e da senhora arrastando o par de chinelos para nos servir, há 32 anos. Sorri, satisfeita. Desconfio que não haja mais vinhos caseiros por essas bandas, o nível de vida melhorou muito. Não há mais tantos casacos surrados. Creio, porém, que beber com os amigos ouvindo Vinícius continua sendo mais interessante que ir a uma palestra sobre literatura às oito da manhã. Uma menina de grossas lentes míopes e pernas de palito tenta desmentir meus pensamentos: queria tirar dúvidas, anotar informações, prolongar a conversa. Uma sósia da CDF que fui e que hoje recebe a alcunha de nerd.

Não sei direito desde quando tive a certeza de conviver com o incômodo de consumir notícia falsa, parcialmente falsa, distorcida e manipuladora. Não sei a partir de quando comecei a ter muita vergonha de ser jornalista e de ser confundida com esse tipo de imprensa. Não sei a data em que deixei de ser o coadjuvante sonhador da canção e passei a ser aquela que grita desesperadamente em português. Mas todos nós guardaremos na memória o dia 31 de agosto de 2016 – o dia em que o golpe de uma faca só lâmina cortou a garganta de uma nação inteira e virou manchete na imprensa internacional.

Passada a sessão de tortura cujo fim nós todos já sabíamos de antemão, fui ouvir pela enézima vez a gravação da conversa entre o empresário Sérgio Machado e o ministro do Planejamento Romero Jucá, divulgada em maio. Ali, está claro que o impedimento da presidente do Brasil, Dilma Rousseff, resultaria em um pacto para estancar a operação Lava Jato. Ou seja, tudo como dantes no quartel de abrantes, especialmente a corrupção e os corruptos. Do bombardeio de informações à direita e à esquerda, embaixo e em cima do muro, esta, especialmente, me fez separar o joio do trigo – se é que se pode falar em tirar algum proveito do falso angu que desandou.  A imagem que emerge é a de um esgoto de estreita tubulação que veio acumulando matéria-prima durante décadas, até que o mau cheiro e a lama invadiram as ruas, as calçadas, as casas, derrubaram viadutos, tomaram conta de tudo, do norte ao sul do país.

O que falo aqui é uma tentativa de não sentir a frieza da faca a entrar macio no pescoço. Fujo da burrice, do cinismo, da raiva que senti por ter ajudado a eleger aquelas pessoas que votavam e falavam em nome, unicamente, de um deus fictício (bem diferente daquele em que acredito) e de suas próprias crias robustas. Ressurreição da TFP e de todas as forças retrógradas que havíamos deixado pra trás (havíamos mesmo?). Na estaca zero, começamos a dar ré em alta velocidade.

As posições se inverteram. Hoje, em 2016,  sou eu quem pergunta àquele rapaz latino, contestador, por onde ele anda. Por aqui, ensaiamos esse grito perplexo, indignado, desesperado, pela garantia de direitos usurpados (ou em vias de), pela livre expressão, pelo respeito ao voto, por um Congresso minimamente respeitável. Precisamos que se una a nós o canto a palo seco de Belchior, assim como a súplica do poeta João. Porque nosso canto, torto feito faca, “que não é um cante a esmo, exige ser cantado com todo o ser aberto; é um cante que exige o ser-se ao meio-dia, que é quando a sombra foge e não medra a magia”. Do alto de seus 70 anos de sonho e de sangue, volta Belchior. Ainda que nosso desejo de desaparecer seja forte, há um vinho, na temperatura exata, esperando por nós.

 


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