Belchior vive, todo poeta é eterno

“Mas, se depois de cantar, você ainda quiser me atirar/mate-me logo, à tarde, às três/ porque à noite eu tenho compromisso e não posso faltar/por causa de vocês…”

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, ou simplesmente Belchior

 

Todas as vezes que me lembro daquela noite, sinto um arrepio percorrer o corpo, da cabeça aos pés. Belchior a caminho de ser o ídolo em que se tornou,  em sua autenticidade rústica, indomável, sua poesia cáustica, a palo seco, seus versos afiados, feito faca, cortando a carne da acomodação.

Sorry, Baby!

Não me lembro a data exatamente, mas sei que eu  era jovem, e creio que o ano era 1978. Um show do Projeto Pixinguinha, no Teatro Francisco Nunes, no Parque Municipal, em Belo Horizonte, e estava frio.

Um dos meus primos, dos mais chegados – dentre as duas dezenas de homens, só do lado materno, que minhas tias pariram – se dispôs a me levar. Queria muito ver Belchior cantar ao vivo, e não podia contar com o marido, à essa altura quase ex, para essas coisas. Minha irmã caçula foi junto, com o namorado, acho que noivo.

Belchior já era Belchior. Depois do estouro de Alucinação, em 1976, seu primeiro e fabuloso álbum, Retrato 3×4 do Brasil dos anos 70. Tempos de ditadura e opressão.No presente a mente e o corpo não são diferentes.  Apesar de tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

O rapaz montou na cauda do cometa da explosão de Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, na voz de Elis Regina em Falso Brilhante, e seu Coração Selvagem, e toda essa pressa de viver, marcava o caminho não errado de Todos os Sentidos, o terceiro LP, depois de Mote e Glosa, quase em brancas nuvens.

Parêntesis necessário: deu-se algo parecido com Elis e Milton Nascimento, que embora nascido no Rio de Janeiro, é talvez o mineiro mais reconhecido no planeta musical. E Belchior e Milton sempre se reverenciavam.

Mas é de Belchior de quem tratamos, e ele havia vencido o festival universitário da TV Tupi, sete anos antes, com Na Hora do Almoço, que foi o primeiro compacto.

Então, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, sobralense de uma família de 24 irmãos, ‘todos destinados a ser doutor, como todo cearense”, tornou-se, simplesmente Belchior.

 

A  poesia rascante daquele rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior, dizia a que veio. E a voz forte e anasalada, a cabeleira negra em desalinho, o bigode indomável, aquele sorriso tímido e franco, o corpo atarracado naquela calça branca e justa…

O pequeno teatro se acabava em gritos e sussurros a cada vez que a mão esquerda do cantor ajeitava as madeixas, e se fazia acompanhar de um jogo certeiro de cabeça e de corpo, aparentemente desconfortável, desajustado sobre o par de pernas… e que levava a plateia ao delírio.

À medida em que o show avançava, o ar ia ficando eletrizado, as mulheres iam escorregando nas cadeiras, e os homens olhavam as companheiras tomadas por aquela onda de, de… sensualidade; querendo não entender o que se passava.

E assim foi, até que sobreveio o grande final, sonoro, um pipocar de gemidos.

Não sabia Euzinha que o destino, se é que há destino, me guardava um prêmio tempos depois.

Fui morar em Fortaleza, em meados dos anos noventa do século passado, acompanhando o maridão, movido a trabalho. Era oportunidade única de morar no Nordeste, e não a perdi.

Naquele tempo, meados dos anos 90 do século passado, Belchior vivia entre São Paulo e a capital do seu estado.

Era figurinha fácil nos eventos culturais da cidade, também no Sindicato dos Jornalistas que, à época, promovia a Sexta com Arte. O projeto buscava revelar novos talentos, e alguns artistas de renome compareciam, davam uma força e uma canja, quase sempre.

Belchior e Ednardo eram frequentes, e tudo virava cantoria.

Posso dizer, então, que cantei com Belchior.

Foi assim que o conheci, e assim passamos a nos reconhecer por onde a noite ou o dia provinciano nos levasse a cruzar presença.

A última vez que o vi, no entanto, eu havia me mudado para o Recife. Foi em 1999, nos bastidores da TV Ceará, à espera da vez de entrar no no estúdio para entrevista ao vivo no jornal local.

Ele estava na cidade em turnê promocional de seu CD Autorretrato, e essa reles escriba ali estava para o lançamento do primeiro livro, a convite da Bienal do Ceará – Estação Ferrugem, Vozes 1998,  único editado.

Dono de simplicidade absurda, Belchior era pura simpatia e, nas circunstâncias em que nos encontramos, alegre como um rio, um bicho, um bando de pardais, como aliás canta em uma de suas músicas que mais gosto – Galos, noites e quintais.

Trocamos figurinhas, ganhei abraços e xêros. E mais uma história para contar.

Já me referi a essa dádiva aqui no A Tal Mineira, em postagem sobre o livreto-homenagem coletiva aos 70 anos do artista Para Belchior com Amor, que reúne textos de 14 escritores cearenses, dentre eles, Xico Sá, inspirados na obra de Belchior.

Comprei vários exemplares para presentear pessoas queridas, inclusive minhãs irmãs e irmão, no fim do ano passado, o ano em que eu morri, mas este ano eu não morro.

A irmã que estava comigo no show dos anos 70, e que há dois anos foi atropelada, e está privada da fala e ainda dependente de terceiros para tudo, inclusive se locomover, mas não do entendimento nem da capacidade de se comunicar, cada dia melhor, ganhou o livro. Li para ela todas as crônicas e que tais, e cantei todas as músicas-referências, e ela ficou vivamente emocionada.

Foi uma catarse maravilhosa. E quando ela puder retomar sua vida por inteiro, vai encontrar o tributo a Belchior na estante da sua sala.

Hoje posso dizer, no pretérito, o que me ocorreu, quando minha amiga-irmã Ana Karla Dubiela, uma das autoras, me falou do livro: ainda bem que foi em vida. Embora sua gente dele se tenha despedido com honras e cantoria.

Outras celebrações há, que permanecem. O bloco Volta Belchior, cria do meu querido Santa Tereza, na minha Macondo de origem, no momento em que escrevo, faz a segunda festa para celebrar o poeta e o músico, que são eternos.

Hora de cantar para subir, mas nem tanto.

Busquei  no Youtube um vídeo que pudesse ser simbólico do que Belchior representa. Encontrei um  da TV Cultura, com Belchior convidado do MPB Especial, programa do Fernando Faro, inventor do cult na TV, em 1974.

Belchior em preto e branco, sem meias palavras, gregoriano e pecaminoso, humilde e intrépido. Uma pálida ideia do frisson que esse rapaz podia causar, e causou:

 

 

É perceptível a base de cultura de onde brotou o artista Belchior – muito além de um rapaz latino-americano, e não à toa sua obra é objeto de estudos acadêmicos.

É possível tentar entender sua perspectiva de arte e de vida. Torna compreensível seu estranhamento, sua recusa em adaptar-se.

Se quiser me amar, me abrace e me beije bem devagar, que é para eu ter tempo de me apaixonar, tempo para ligar o rádio do carro, tempo para a turma do outro bairro saber que te amo!

Escreve o jornalista Carlos Guimarães, da Rádio Guaíba, de Porto Alegre, RS, o melhor do que li nessa comoção pós-encantamento:

“Quando Elis gravou para o espetáculo “Falso Brilhante” as faixas “Como Nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida”, Belchior lançava “Alucinação”, uma crônica do cotidiano que serviria para, ao menos, apresentar um retrato fiel do verdadeiro Brasil dos anos 1970. Belchior não tinha a sutileza de Chico, o misticismo de Gil ou o egocentrismo de Caetano. Bigodudo, nordestino e com um timbre de voz que fugia dos maneirismos recorrentes no período, era uma espécie de bardo, um cantor do cotidiano, um cronista da selva de pedra. Fugia da aridez do Nordeste, entregando-se à personagem do retirante apaixonado, confuso e impactado com a metrópole. Lançava-se como um genuíno opositor do modelo hegemônico de então, porém pouco levado a sério, já que narcisos sempre acharão feio o que não é espelho.”

Belchior não cabia nesse mundo, muito menos nesse Brasil presente, de anomalias. De novo, não.

Resistiu o quando pôde.

Não obstante a falta que nos faz – nós que amamos o seu coração selvagem – e a expectativa, e a saudade em que nos deixou ainda em vida,  as notícias póstumas nos dizem que Belchior viveu bem, e feliz. E continuou produzindo em seu retiro voluntário e errante.

Até que o Pai ou a Mãe o chamou: é hora de encantar-se.

Tesouros e segredos à espera de revelação.

 

 

Fotos reproduzidas das redes.

 

 


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