Belchior, agora setentão, homenageado por Xico Sá e Tom Zé

por Sulamita Esteliam

Como hoje é sexta, e a maioria busca algum contato com a vida, para além das preocupações cotidianas – cada vez maiores e perversas – vou dar um tempo. Ou quase.

Pego carona no El País, acatando sugestão involuntária da coleguinha, prima-sobrinha, Ana Malaco, no Facebook. Compartilho a provocativa crônica do colega Xico Sá, um cearense com um pé no Recife e outro no mundo, famoso pela própria natureza do seu talento.

Homenageia Belchior, que emplacou 70 anos no último dia 26, sem deixar de falar do que é preciso, ao seu estilo.

Sim, Xico Sá é um dos 14 que integram o livro Para Belchior com Amor, a que já me referi em postagens anteriores aqui no blogue.

Ao texto:

O novo sempre vem, caro Belchior

A grande alucinação é resistir às medidas enfiadas goela abaixo, como a reforma do ensino médio da qual tratou Ana Júlia
llustração do designer Marcos Paulo Drumond. INSTAGRAM @MPDRUMOND
llustração do designer Marcos Paulo Drumond. INSTAGRAM @MPDRUMOND
Xico Sá

O novo sempre vem, como na canção de Belchior, 70, o aniversariante da semana, por mais que você ame o passado e não veja, por mais que vote em ninguém e esteja desiludido à esquerda e à direita, por mais que você surfe na crista da onda conservadora que varre o Brasil inteiro…

O novo sempre vem, como veio, depois da ressaca do golpismo, na voz da menina Ana Júlia, passando um pito histórico nos nobres parlamentares em Curitiba, repare que fala pedagógica sobre a ocupação das escolas… O futuro é mulher e virá com as meninas. O futuro está na classe da Ana Júlia, não na escola para formar princesas.

Por mais que sufoquem os estudantes, como na imagem deprimente dos meninos com algemas, por mais que os Mendoncinhas da vida demonizem o livre pensamento e implantem a didática do dedo-duro nos colégios… O novo sempre vem, o poeta Ademir Assunção me dá o mote e o mantra, vejo aqui na sua página, que começa por Araraquara, passa por Londrina e margeia toda São Paulo.

O novo não está na pouca idade dos jovens do MBL, o tal Movimento Brasil Livre, que agora servem de milícia informal contra as escolas ocupadas; o nome disso é fascismo, algo tão envelhecido quanto a grappa do Mussolini, vade retro, sarava, pé-de-pato da Fiesp, mangalô três vezes.

Desculpa o desabafo, meu caro Belchior, é que esse noticiário, o atraso em moto-continuo, se é que isso é possível, deixa a gente meio maluco, preferia falar de amenidades, filosofia, um comentário a respeito de John, a felicidade como uma arma quente e tantas outras citações e delírios na ponte Sobral/Liverpool das afinidades eletivas.

Mas eu não estou interessado, em nenhuma teoria… Amar e mudar as coisas, me interessa mais. Como faz essa rapaziada das ocupações, mais de mil escolas no Brasil inteiro, apesar do sufoco da polícia, do gás pimenta, lacrimogêneo, cassetetes e tantos outros efeitos morais.

A grande alucinação, meu caro cearense do mundo, é suportar o dia a dia, resistir às medidas enfiadas goela abaixo, como a reforma do ensino médio da qual tratou a menina Ana Júlia… Vale o baque e o corpo a corpo com as ditas coisas reais, vale quanto pesa a consciência na mochila.

Vale a luta e vale o beijo na ocupação do desejo, a revolução dos hormônios toda pela frente, sim, amigo Antônio Carlos Belchior, amor já é outra viagem, bem sabemos como a vida nos violenta, na curva à direita e na curva à esquerda, um beijo de parabéns, velho forasteiro de si mesmo, que a terra nos seja leve e até a próxima, mas não esqueça, coração, este lado para cima, cuidado, é frágil.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de “Se um cão vadio aos pés de uma mulher-abismo” (editora Fina Flor), entre outros livros. Na televisão, é comentarista dos programas “Papo de Segunda” (GNT) e “Redação Sportv”.

Fecho com o homenageado.

Outro vídeo, lindo, é de 2006. Canta num programa de TV um dos seus grandes sucessos: Tudo Outra Vez. É uma das poucas aparições dele em público na última década.

Lembro-me dele assim, só que vestindo um blazer azul anil sobre camisa clara. Foi nos estúdios da TV Ceará, creio, em 1999, quando fui a Fortaleza lançar meu livro. A casa, de onde fui repórter-apresentadora, me honrou com uma entrevista ao vivo no jornal local.

Simples, amável, carinhoso, uma simpatia.

Já nos conhecíamos das Sextas com Arte no Sindicato dos Jornalistas do Ceará, nos tempos em que morei e labutei na cidade. Belchior, Ednardo e outros artistas da terra do Sol, sempre estavam por lá, e davam uma canja.

A última aparição pública de Belchior parece ter sido em 2009, num apresentação com Tom Zé, de saudosa memória, em março. O baiano o descobriu na plateia do show, em Brasília, e o convidou ao palco. Uma preciosidade, que capturei no Youtube:


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