Brasil, uma orquestra desafinada ladeira abaixo

por Sulamita Esteliam

O Dia do Frevo é comemorado nesta data. E os tempos fervem, a exigir malabarismo de capoeira para manter o passo. A capoeira, como se sabe, é a origem da dança que decorre da música, ambas nascidas do povo.

Difícil trazer a alegria para onde impera a treva.

Difícil harmonizar o som cristalino dos metais em meio à lambança, ao escárnio e à náusea.

O tom de mofa imperial desafina os blocos.

A efervescência da bestialidade, do medo, da exceção como regra, da miséria como mister, não rimam com a humanidade, muito menos febril.

Frevo, de ferver, frever, frevar, rebuliçar, agitar, sacudir.

Quando se há de?

O desplante, a desfaçatez, a manipulação regem a orquestra, desafinada, chamada Brasil. Ladeira abaixo.

No coração da gente - Foto: Ricardo Stuckert
No coração da gente – Foto: Ricardo Stuckert

E logo nesta quinta-feira, 09 de fevereiro do ano de 2017, completa-se o sétimo dia do encantamento de Marisa Letícia, a primeira dama do Brasil, a única que veio do povo.

Uma missa, que ganha o nome de Esperança, foi celebrada à noite na Igreja Matriz de São Bernardo do Campo. lotada. E um ato ecumênico aconteceu no centro do Rio de Janeiro, em homenagem a Marisa Letícia.

Lá no Rio, está tarde, um estudante secundarista, de 18 anos, que protestava contra a privatização da companhia de água, teve o intestino perfurado por uma “bala de borracha” disparada pelas forças de segurança.

Lá em o Brasil, descendo a ladeira….

Talvez, à guisa de celebração da morte, o senhor juiz tenha mantido a data para o início da oitiva das testemunhas de defesa de Luiz Inácio Lula da Silva, nos processos que correm na República de Curitiba contra o ex-presidente. Eivados de convicção e desprovidos de consistência, e do elementar: provas.

Decisão a bem da celeridade, segundo a metodologia de quem condena antes de julgar.

Assim, dentre as testemunhas convocadas para depor na central inquisitória, mantém o nome da e Marisa Letícia Lula da Silva, sob pena de condução coercitiva.

Tragam a estrela e, se necessário, arrestem o guardião das chaves do céu.

Tem boquinha, não…

E o viúvo, que vem a ser o ex-presidente Lula, aquele ex-retirante-operário que ousou governar o Brasil, retirar milhões da fome e desfilar pelo mundo a colecionar títulos doutor honoris causa, que se lasque com seu luto.

Se não sabe o seu lugar, o inquisidor aponta.

Ao contrário, é de reverência o tratamento dado a outro ex-presidente, o Fernando Henrique, mais conhecido como Farol da Alexandria. Arrolado por Lula em sua defesa, foi saudado com benemerência pelo senhor juiz, afinal trata-se de um “doutor”, à sua imagem e semelhança.

Há controvérsias.

Isso mesmo, Lula incluiu FHC dentre suas testemunhas de defesa. Acusam-no de receber vantagens indevidas para manter seu acervo de presentes recebidos de chefes de Estado de todo o mundo, no exercício da Presidência da República.

FHC tem o mesmo problema, e relatou-o ao senhor juiz.

Afinal, o príncipe dos sociólogos  também esteve oito anos presidente, e deixou o Planalto com conteiners e conteiners de mimos, obras de arte e documentos que tem obrigação de preservar, sem recursos para fazê-lo.

A lei que impõe o ônus, não provê o bônus. A saída é buscar doadores, financiadores.

Lula fez o que FHC fez, e todos presidentes fazem: criar um instituto que funcione como memorial, e buscar armazenamento adequado externo para o material.

Há a hipótese de desfazer dos objetos de arte, vendáveis depois de certo tempo, desde que, oferecidos, não interesse à União.

É claro que os senhores agentes públicos, do agente da PF ao juiz de primeira instância, passando pelo ínclito Ministério Público Federal, sabem como funcionam os ritos.

Mas, digamos, optam por fazerem-se de égua, no palavreado devidamente popular.

Só que o que em Fernando Henrique é mérito, em Lula é pecado capital.

Na verdade, tentam desclassificar Lula na sua condição de ex-mandatário do País. Querem destruir o mito, tratando-o como aquilo que acham que é: um pobre que se lambuza quando vê melado.

Apesar da súcia que os aplaude e dos inocentes úteis que ouvem o galo cantar, não sabem onde nem por que, mas replicam a toada, até agora, deram com os burros nágua.

Vale, a propósito, a leitura do que escreve o colega Fernando Brito no Tijolaço, com primor.


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