Folha censura relato sobre assédio sexual de ator contra figurinista da Globo

por Sulamita Esteliam

A Folha de São Paulo se acha no direito de exercer o livre arbítrio da censura. Artigos ou matérias que não condizem com seus interesses vão direto para o editor-chefe, a lixeira. Sempre foi assim, embora pague de progressista, e consiga ludibriar incautos, ainda hoje.

Isso mesmo, liberdade de imprensa e liberdade de expressão não são para qualquer um. Muito menos quando, direta ou indiretamente, fere interesses corporativos, no caso, dos barões da mídia venal.

O que torna a atitude ainda mais tacanha, é quando retira do ar matérias publicadas, sem a menor explicação. Na minha terra isso tem nome.

Pois bem. Hoje pela manhã recebi, via zap-zap de grupo feminista que partilho, o acesso a matéria posta no blogue Agora é que São Elas, ancorado no sítio do jornal Folha de São Paulo/Uol, publicou na manhã desta sexta, 31 de março.

Trata do relato de uma figurista da TV Globo, Susllem Meneguzzi Tonani ou Su Tomani, sobre assédio de que foi alvo por parte do ator veterano, o mineiro José Mayer. Sim, aquele mesmo, que tem como marca o papel de garanhão. Pelo visto, interpreta a si mesmo.

Li e compartilhei no Twitter, mas quando tentei reabrir o link para copia-lo e transcrever no A Tal Mineira, havia desaparecido no ar. Insisti, fui no setor de blogues da Folha, nada. Usei a busca, nada. Entrei na página do Agora é que São Elas, nada. Renovei a busca, igualmente zero.

Voltei ao zap e printei a mensagem, onde aparece o espelho da postagem na Folha, no alto.

Aí usei o “fale conosco” para perguntar às editoras do blogue de origem o que aconteceu. Aguardo a resposta até agora. Nadica.

Resta-me publicar e, se for o caso, agregar a improvável reposta mais tarde.

É assim que age o machismo e o poder arbitrário: protege os seus a qualquer preço, ainda que seja o abuso sexual. A leitura do texto mostra que o ato de Mayer foi além do assédio sexual e moral, ele tocou  a moça contra a vontade dela e a constrangeu na frente de outras pessoas, e isso é uma forma de estupro caracterizado em lei.

Portanto, ao protegê-lo, a Folha não apenas se associa a cultura do estupro, mas a um crime.

Su corre o risco de ser massacrada pela dita opinião pública, que reproduz a crueldade da sociedade machista e misógina. Afinal trata-se de um ator famoso e respeitado em seu meio.

Não está sozinha, porém. Há milhões que se importam e milhares para gritar. Estamos juntas.

Transcrevo o texto que foi em tempo copiado e postado na página do coletivo A PartidA no FB:


Eu, Susllem Meneguzzi Tonani, fui assediada por José Mayer Drumond. Tenho 28 anos, sou uma mulher branca, bonita, alta. Há cinco anos vim morar no Rio de Janeiro, em busca do meu sonho: ser figurinista.

Qual mulher nunca levou uma cantada? Qual mulher nunca foi oprimida a rotular a violência do assédio como “brincadeira”? A primeira “brincadeira” de José Mayer Drumond comigo foi há 8 meses. Ele era protagonista da primeira novela em que eu trabalhava como figurinista assistente. E essa história de violência se iniciou com o simples: “como você é bonita”. Trabalhando de segunda à sábado, lidar com José Mayer era rotineiro. E com ele vinham seus “elogios”. Do “como você se veste bem”, logo eu estava ouvindo: “como a sua cintura é fina”, “fico olhando a sua bundinha e imaginando seu peitinho”, “você nunca vai dar para mim?”.

Quantas vezes tivemos e teremos que nos sentir despidas pelo olhar de um homem, e ainda assim – ou por isso mesmo – sentir medo de gritar e parecer loucas? Quantas vezes teremos que ouvir, inclusive de outras mulheres: “ai que exagero! Foi só uma piada”. Quantas vezes vamos deixar passar, constrangidas e enojadas, essas ações machistas, elitistas, sexistas e maldosas?

Foram meses envergonhada, sem graça, de sorrisos encabulados. Disse a ele, com palavras exatas e claras, que não queria, que ele não podia me tocar, que se ele me encostasse a mão eu iria ao RH. Foram meses saindo de perto. Uma vez lhe disse: “você é mais velho que o meu pai. Você tem uma filha da minha idade. Você gostaria que alguém tratasse assim a sua filha?”

A opressão é aquela que nos engana e naturaliza o absurdo. Transforma tudo em aceitável, em tolerável, em normal. A vaidade é aquela que faz o outro crer na falta de limite, no estrelato, no poder e na impunidade. Quantas vezes teremos que pedir para não sermos sexualizadas em nosso local de trabalho? Até quando teremos que ir às ruas, ao departamento de RH ou à ouvidoria pedir respeito?

Em fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa, na presença de outras duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália. Sim, ele colocou a mão na minha buceta e ainda disse que esse era seu desejo antigo. Elas? Elas, que poderiam estar eu meu lugar, não ficaram constrangidas. Chegaram até a rir de sua “piada”. Eu? Eu me vi só, desprotegida, encurralada, ridicularizada, inferiorizada, invisível. Senti desespero, nojo, arrependimento de estar ali. Não havia cumplicidade, sororidade.

Mas segui na engrenagem, no mecanismo subserviente.

Nos próximos dias, fui trabalhar rezando para não encontra-lo. Tentando driblar sua presença para poder seguir. O trabalho dos meus sonhos tinha virado um pesadelo. E para me segurar eu imaginava que, depois da mão na buceta, nada de pior poderia acontecer. Aquilo já era de longe a coisa mais distante da sanidade que eu tinha vivido.

Até que nos vimos, ele e eu, num set de filmagem com 30 pessoas. Ele no centro, sob os refletores, no cenário, câmeras apontadas para si, prestes a dizer seu texto de protagonista. Neste momento, sem medo, ameaçou me tocar novamente se eu continuasse a não falar com ele. E eu não silenciei.

“VACA”, ele gritou. Para quem quisesse ouvir. Não teve medo. E por que teria, mesmo?

José Mayer, ator da Rede Globo, é acusado de assédio.

Chega. Acusei o santo, o milagre e a igreja. Procurei quem me colocou ali. Fui ao RH. Liguei para a ouvidoria. Fui ao departamento que cuida dos atores. Acessei todas as pessoas, todas as instâncias, contei sobre o assédio moral e sexual que há meses eu vinha sofrendo. Contei que tudo escalou e eu não conseguia encontrar mais motivos, forças para estar ali. A empresa reconheceu a gravidade do acontecimento e prometeu tomar as medidas necessárias. Me pergunto: quais serão as medidas? Que lei fará justiça e irá reger a punição? Que me protegerá e como?

Sinto no peito uma culpa imensa por não ter tomado medidas sérias e árduas antes, sinto um arrependimento violento por ter me calado, me odeio por todas às vezes em que, constrangida, lidei com o assédio com um sorriso amarelo. E, principalmente, me sinto oprimida por não ter gritado só porque estava em meu local de trabalho. Dá medo, sabia? Porque a gente acha que o ator renomado, 30 e tantos papéis, garanhão da ficção com contrato assinado, vai seguir impassível, porque assim lhe permitem, produto de ouro, prata da casa. E eu, engrenagem, mulher, paga por obra, sou quem leva a fama de oportunista. E se acharem que eu dei mole? Será que vão me contratar outra vez?

Tenho de repetir o mantra: a culpa não foi minha. A culpa nunca é da vítiva. E me sentiria eternamente culpada se não falasse. Precisamos falar. Precisamos mudar a engrenagem.

Não quero mais ser encurralada, não quero mais me sentir inferior, não quero me sentir mais bicho e muito menos uma “vaca”. Não quero ser invisível se não estiver atendendo aos desejos de um homem.

Falo em meu nome e acuso o nome dele para que fique claro, que não haja dúvidas. Para que não seja mais fofoca. Que entendam que é abusivo, é antigo, não é brincadeira, é coronelismo, é machismo, é errado. É crime. Entendam que não irei me calar e me afastar por medo. Digo isso a ele e a todos e todas que, como ele, homem ou mulher, pensem diferente. Que entendam que não passarão. E o que o meu assédio não vai ser embrulho de peixe. Vai é embrulhar o estômago de todos vocês por muito, muito tempo.

* Su Tonani é figurinista

Link da matéria, que agora leva a lugar algum: http://agoraequesaoelas.blogfolha.uol.com.br/…/jose-mayer-…/

PS: O link voltou a funcionar, segundo O Globo, edição digital de 04.04.2017, “após algumas horas”. A Folha teria dado a seguinte explicação, ainda de acordo com o jornal dos Marinhos, os patrões de Mayer:

‘Após repercussão, o texto acabou sendo tirado do ar pela “Folha de S. Paulo”, “dada a gravidade do depoimento”, segundo o jornal. Horas depois, o relato voltaria ao ar. “Após o devido trabalho de apuração e investigação do jornal e o esforço da redação de escuta do ‘outro lado’, as palavras de Su estão de volta a este espaço”, justificou o jornal, que publicou a primeira versão de Mayer para os fatos.’

Vou poupar-me, e a você que me honra com o acesso, de comentar o arranjo, por hora: 20:44 horas do dia 04.04.2017. Deixo para a próxima postagem a respeito. Confira mais adiante.

#JoséMayerAssediador#AssédioNão

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Postagem atualizada às 13:06 horas: editação da foto no alto da página à esquerda e ao pé do texto, com as informações subjacentes.


2 comentários sobre “Folha censura relato sobre assédio sexual de ator contra figurinista da Globo

  1. Minha ex-namorada é atriz de teatro e, quando era ainda uma adolescente da idade de sua filha, foi aos estúdios da globo procurar trabalho como figurinista, junto com uma amiga. Apesar de o que eu estar relatando agora não passar de um “hearsay”, sei que muitas pessoas vão saber que faz sentido. Ela disse que no camarin onde os figurinistas se trocam ela teve que despir-se “naturalmente” em frente a todos os presentes, encorajada com frases como “aqui é assim”. Novatas bonitas, lá, são analisadas como antigamente se faziam com as princesas e beldades raptadas de povos inimigos. Por quê não é uma surpresa que em um estúdio de televisão onde predomina a gravação diária e interminável de centenas de milhares de “beijos técnicos” de língua haja uma atmosfera constante impregnada de libido, e até mesmo lascívia?
    Basta lembrarmos as “banheiras do Gugu”, por exemplo, com aquela música tribal caricata, ou os revólveres de água disparados em camisetas transparentes, e outras “ingênuas” atrações de domingo para a nossa saudável família brasileira…

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