Justiça a Jean Wyllys X aberração ambulante

por Sulamita Esteliam

Vez por outra, o reduto parlamentar, que trabalha de costas para o povo que o elegeu, produz boas novas. E esta quarta foi um desses dias: a Comissão de Ética, por ampla maioria, decidiu não suspender o mandato do deputado Jean Wyllys, do Psol-RJ por quebra de decoro.

Wyllys cuspiu no colega Bolsonaro (PSC-RJ), reagindo a ofensas homofóbicas cumulativas. A gota dágua, sem intenção de trocadilho, deu-se no momento subsequente ao voto contrário do deputado psolista ao acatamento do processo de impeachment contra a presidenta Dilma, o fatídico 17 de abril de 2016.  O agressor, óbvio, votou sim.

Em postagem no Facebook, Jean celebrou a vitória, agradecendo à ampla rede de apoios que se formou em torno dele. Mas lembrou que, em nenhum momento, Jair Bolsonaro, contumaz transgressor das regras de convivência parlamentar ou pública, sofreu qualquer tipo de reprimenda de seus pares.

Transcrevo uma parte:

“O deputado fascista que me xingou dezenas de vezes no plenário e nas comissões, usando palavrões irreproduzíveis, inclusive, no microfone, nunca recebeu, sequer, uma advertência. Não foi punido por me insultar (nem mesmo quando me chamou de “cu ambulante” numa reunião transmitida ao vivo pela Tv Câmara!), como não foi punido quando disse que não estupraria minha querida amiga Maria do Rosário apenas porque, de acordo com ele, “é feia”, ou quando homenageou um torturador na tribuna (e se referiu a ele como “o terror de Dilma Rousseff”), ou quando insultou ao vivo uma jornalista nos corredores da Câmara, chamando-a de “imbecil”, ou quando agrediu fisicamente o senador Randolfe Rodrigues, ou quando falou que gostaria de assassinar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ou qualquer uma das outras vezes em que usou, no Congresso e nos veículos de comunicação, expressões misóginas, homofóbicas, racistas, xenófobas e discursos de ódio de todo tipo.”

Ao contrário, e aqui digo Euzinha, segue à larga o Bolsonaro, vomitando seu preconceito, destilando seu ódio, provocando e ofendendo a quem ousa divergir de seus métodos e linguajar inqualificáveis. Indiferente ao asco que provocam seus despropósitos.

Não obstante, há quem se disponha a ouvi-lo, e até a segui-lo. Hoje mesmo, enquanto descansava em meu quarto no fim da tarde, ouvi um vizinho comentar com outro na garagem do prédio em que co-habitamos, que “é o Bolsonaro quem vai acabar com Lula e com tudo isso…”.

Veja só aonde fui amarrar minha égua…

Tive que tomar um chá para conter náusea que me acometeu incontinenti. Acontece, cada vez com mais frequência: meu corpo reage às energias atravessadas. E não adianta tentar fugir.

Sim, há quem se disponha a ouvi-lo, a ponto de convidá-lo a palestrar, a rir de suas sandices e barbaridades, e até a aplaudi-lo. É o que fizeram os presentes ao Clube Hebraica, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, na noite da última segunda-feira.

E certamente o vizinho, que às seis da matina grita sob a minha janela, cotidianamente, segue o mote.

O presidente do clube, Luiz Mairovitch, convidou o deputado – registre-se, o mais votado pelo Rio de Janeiro.

Lá dentro, o clube judaico brincava de flertar com o fascismo – a exemplo do que, alhures, Israel projeta nas relações com o povo palestino, bem lembra o colega Leandro Fortes, também no FB.

Lá fora “judeus democráticos repudiavam a presença do ex-capitão do exército: #NãoEmNossoNome”.

Extraio do coletivo Jornalistas Livres/FB, trechos pinçados da aberração. Mas, antes, uma salutar advertência: leitura prejudicial a estômagos frágeis e a nervos sensíveis.

“Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio uma mulher.”

“O pessoal aí embaixo (jovens de movimentos juvenis, torturados da ditadura militar, ativistas dos direitos humanos), eu chamo de cérebro de ovo cozido. Não adianta botar a galinha, que não vai sair pinto nenhum. Não sai nada daquele pessoal.”

“Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Nem pra procriador ele serve mais”.

“Alguém já viu um japonês pedindo esmola por aí? Não, porque é uma raça que tem vergonha na cara. Não é igual a essa raça que tá aí embaixo, ou como uma minoria que tá ruminando aqui do lado.”

“Pedi prum assessor meu dar um pulo ali no bar, comprar um sanduíche de mortadela que eu vou jogar pela janela.”

“Se eu chegar lá não vai ter dinheiro pra ONG. Esses vagabundos vão ter que trabalhar. Pode ter certeza que se eu chegar lá (Presidência), no que depender de mim, todo mundo terá uma arma de fogo em casa, não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola.”

“Tínhamos na presidência um energúmeno que são sabia contar até 10 porque não tinha um dedo”
“Se um idiota num debate comigo falar sobre misoginia, homofobia, racismo, baitolismo, eu não vou responder sobre isso”

“Eu não tenho nada a ver com homossexual. Se bigodudo quer dormir com careca, vai ser feliz.”

Cabe processo. E a Frente Quilombola do Rio Grande do Sul já se movimentou. Mas ainda temos Ministério Público no exercício da função de proteger a cidadania?

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Postagem revista e atualizada dia 06.04.2017, às 12:12 horas: correção do dia da (des)palestra de Bolsonaro na Hebraica, parágrafo nono; inclusão de link sobre representação ao MPF-RS, no último parágrafo, às 23:45 horas.


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