Ou o Brasil se levanta, ou seremos todos devorados pela horda

por Sulamita Esteliam

Espero que você, brasileiro ou brasileira, tenha tido um excelente feriadão da Inconfidência. Euzinha, cá, tive um fim de semana prolongado de muita atividade doméstica, e recheado de emoções familiares e pessoais.

Uma explosão de sentimentos que me deixaram meio que anestesiada ou em estado decantação. Não gosto de me expor em palavras em meio ao processo de compostagem. Torno-me presa fácil do desvirtuamento dos sentidos.

Falemos do panorama geral da nação, pois.

Em tempos de conjurações mil contra o Estado democrático de direito, ninguém há de se lembrar o porquê do 21 de abril, causa do feriadão, para além da decapitação Tiradentes.

O alferes-dentista, tropeiro e minerador, de fato, para além de suas convicções e ação políticas, tornou-se boi de piranha de uma conjuração pequeno-burguesa, que se pretendia separatista, embora  buscasse a a república e a liberdade. Só ele pagou o pato com a vida. Tornou-se mito.

A propósito, está em cartaz o filme Joaquim, do pernambucano Marcelo Gomes, roteiro e direção. Candidato ao Urso de Ouro, no Festival de Berlim 2017, estreia da semana passada.

Pretende buscar o cerne da transformação do homem no herói, desconstruir a história oficial e humanizar a figura de Tiradentes, segundo o próprio autor, e a leitura de alguns críticos.

Se consegue, só posso palpitar depois que assistir, o que pretendo fazer junto com o maridão ainda esta semana. Depois falo sobre nossas impressões por aqui.

No entanto,  a Inconfidência Mineira, é bom que se diga, forjou-se contra os impostos escorchantes da Coroa. Não exatamente por “patriotistmo”, até porque pátria não havia naquele fim de século 18.

Desde sempre, interesses pecuniários movem o descontentamento, o patriotismo de ocasião e, por conseguinte, as traições, as chacinas, os justiçamentos.

A tal derrama impactava sobretudo as Minas Gerais, de onde se extraía ouro e diamantes em profusão não suficiente para o tamanho da gula dos invasores – e também o sangue dos escravos, dos índios e da raia miúda.

E, cá pra nós, quem gosta de pagar imposto, independentemente de se saber o fim que se lhe é dado? Embora não se administre uma casa, quanto mais um país, sem receita, quem pode ou sabe, em sua maioria, sonega.

A indignação pelo destino ou o mau uso, no mais das vezes, é pura fachada, convenhamos. Tipo o sujo falando do mal lavado.

Naqueles tempos, sabia-se que era para cevar os vícios de um império pouco afeito a repartir o pão, muito antes pelo contrário.

A gente vê que pouco ou nada mudou. E o pouquinho que se evoluiu incomodou os predadores, por isso o golpe permanente, que avança celeremente em marcha-ré.

Voltemos aos tempos de agora.

Entramos numa semana que pode ser decisiva para o que nos resta de direitos coletivos – para além do poder do vil metal – e de brio. A ver o que será da greve geral na sexta-feira, 28.

A Câmara dos Deputados pode votar até quinta o projeto que acaba de rasgar a CLT. A menos que o STF conceda liminar em mandato de segurança do PSol contra a manobra regimental do presidente da Casa para aprovar o regime de urgência. Derrubado na véspera, foi recolocado em pauta e aprovado menos de 24 horas depois.

Definitivamente, Cunha fez escola no parlamento. Assim como Joaquim Silvério dos Reis tem herdeiros em todos os poderes, e através dos tempos.

E refaço aqui a pergunta que postei no Twitter no meio da tarde, por que só o Psol? Por que não o PT, o PCdoB, a Rede não questionaram a patranha na Justiça? Será que ainda temos partidos e ainda temos Justiça?

E por que diabos  a esquerda não se junta nem em horas de tamanha penúria!?

Ato e vigília em São Paulo por Rafael Braga , na noite desta segunda – Foto: Jorge Ferreira/M[idia Ninja
O que dizer da condenação de um rapaz  a 11 anos de prisão por porte de “pinho sol” nas manifestações de junho de 2013? Pois foi o crime de Rafael Braga, jovem negro, ex-catador de latas, preso desde então, e condenado unicamente pelo depoimento dos policiais que o prenderam – fora da manifestação.

Providenciaram um porte de drogas para o moço. Testemunhas garantem que ele estava limpo, mas foram desconsideradas.

O instituto da delação, entronizado pela Lava Jato – que poderia ser preciosa para o futuro do país, se se ativesse aos princípios legais – premia o crime e o arbítrio de uma só mão. Mas contamina as decisões de uma Justiça historicamente pautada em três pês – pobre, preto e prostituta.

O X-9 delata a mãe para livrar-se do castigo ou reduzi-lo a níveis suportáveis. E o que ele fala tem o poder da verdade, embora de criminoso se trate.

O instituto da investigação passa a prescindir de provas, quando convém, ao revés da lei. Ora, a lei!

Enquanto as atenções se voltam para o show de escárnio, a desfaçatez avança sobre os direitos civis, sociais, trabalhistas e previdenciários. No pior Congresso Nacional de todos os tempos, tudo consegue ficar pior do que sempre foi.

E o que dizer das riquezas e do patrimônio do Brasil, colocados na bacia das almas pelas diversas instâncias do Executivo?

É terra arrasada, pois que a camarilha tem pressa, atolada que está, na lambança, até o pescoço.

Na verdade, a barbárie está solta, nos podres poderes, na cidade e no campo. É como se a horda que viceja no limbo adquira força e estímulo para espalhar o terror.

Se vale tudo para eles, por que não para mim?

O que dizer do extermínio de nove trabalhadores em Mato Grosso, na divisa com o Amazonas: dois mortos a faca, e sete a tiros de espingarda calibre 12. Homens encapuzados fizeram o serviço, segundo sobreviventes, jagunços a mando de fazendeiros da região, supõe-se.

Deu-se no dia 19, dois dias depois do aniversário de 21 anos de outro massacre, o de Eldorado de Carajás, quando 19 sem-terras foram mortos pela PM.

Enquanto se espera as investigações, as entidades de defesa dos direitos dos trabalhadores do campo como CPT – Comissão Pastoral da Terra, ligada à CNBB, contam 20 assassinatos no campo brasileiro só este ano.  Ano passado foram 61 homicídios, 22% a mais que em 2015, e o maior número de mortos em conflitos agrários desde 2003.

Sem falar nos indígenas, alvos fáceis da ganância do capitalismo rural “com sangue nos olhos”, como bem define Leonardo Sakamoto, colega blogueiro e jornalista, que também é cientista político.

E o sangue da gente trabalhadora aduba a terra que devia lhe prover o sustento e a dignidade.

Há que se admitir: está cada vez mais difícil mudar o rumo da prosa.

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Postagem revista e atualizada às 10:07 horase depois às 20:48: correção no parágrafo 9 – século 18, não 16, como no original; palavras repetidas e erros de concordância em diferentes parágrafos; acréscimo de frase no parágrafo 24. Minhas desculpas.


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