Câmara chama o povo para a briga

por Sulamita Esteliam

Se não for por amor, vai pela dor.

Esta frase, muitíssimo referida entre os umbandistas – comunidade da qual já fiz parte, e que respeito muito – me veio a memória hoje em distintas situações, mas que acabam tendo similaridades. Senão, vejamos.

Quando li, no sítio de Carta Capital, matéria indicando o crescimento do número de sindicalizados no País, a despeito do aumento do desemprego.

E quando vi, em profusão, o compartilhamento de falas de religiosos de todos os quadrantes, arcebispos e bispos em sua maioria, convocando o povo a aderir à greve geral, convocada pelas centrais sindicais.

Dá-se no dia 28 de abril, deste ano de 2017 do nascimento de Jesus de Nazaré – que tornou-se Cristo, porque foi crucificado.

A CUT, relembre-se, pediu e obteve apoio público da CNBB – Confederação Nacional dos Bispos do Brasil. A posição oficial deve sair da 55ª Assembleia Geral em curso, em Aparecida, de onde vários bispos têm se manifestado.

E foi repercutida pela Rádio Vaticano, que entrevista o presidente da entidade, Dom Leonardo Steiner.

O volume da adesão ao movimento paredista, nesta sexta-feira próxima, nos coloca diante de interessante medida: quem tem maior poder de persuadir e mobilizar a base, o rebanho, a massa trabalhadora: os sindicatos ou a (s) Igreja (s), a consciência-cidadã ou o DDD – desespero ante a degola de direitos?

A fé move montanhas.

É em meio à tempestade que se busca âncora, não obstante. Vale para todas as dores, credos e necessidades.

A escolha do tipo de tábua de salvação e em quais águas ou porto lançá-las é de livre arbítrio.

Há quem prefira as panelas, por exemplo, e não porque saiba e goste de cozinhar; como Euzinha que ora batuco teclinhas, ora esquento a barriga no fogão, ora a esfrio na máquina de lavar, ora sacudo o esqueleto numa bela faxina – por prazer e necessidade. Apesar de ser feminista.

E quem batucou panelas contra o PT e Dilma, agora as, e se, recolhe ao silêncio. Vergonha, ou covardia, ou orgulho ferido, tanto faz.

Provavelmente, vigore a máxima “aos amigos tudo”, até meu último sacrifício; aos inimigos nem a lei.

Mesmo os donos da verdade vacilam, porém. Não é fácil dar o braço a torcer.

Nem os apedrejadores de rameiras do Novo Testamento foram capazes de responder com convicção ao desafio do Nazareno: “Atire a primeira pedra quem jamais pecou”.

Pois, pronto, como se diz nordesticamente: agora têm a desculpa perfeita para aderir à campanha por nenhum direito a menos, e até mesmo ao Fora, Temer!, o incentivo religioso. Amém.

E a Igreja, de qualquer natureza, é muito bem-vinda.

Pois que o tempo urge, a chaleira chia e a situação é grave. Eis o porquê da greve geral. Aliás, boa maneira de celebrar  os 100 anos da primeira acontecida no Brasil, em 1917, deflagrada em São Paulo pelos sindicatos anarquistas e que acabou ganhando outras províncias ao sul e a sudeste.

O humorista e ativista Bemvindo Sequeira usa seu canal no Youtube para bem-dissertar a respeito. Confira:

 

 

Volto à pesquisa do IBGE, ora divulgada e à qual me refiro no início deste texto. Reflete o ano de 2015, em comparação a 2014. Todavia, é bem sintomática.

O crescimento de sindicalizados no período é da ordem de 11,4%, o que significa 1,9 milhões a mais de filiados, enquanto o número de vagas decai em 3,7 milhões. É o maior ascenso na sindicalização desde 2004, segundo ano do governo Lula.

O espantoso é o percentual de trabalhadores sem sindicalização, 80,9% dos entrevistados. Pior, trabalhadores que não têm ideia de qual seria o sindicato que os representa, 23,6%.

Talvez achem que prescindam do sindicato. Até porque, o reajuste que as campanhas salariais conquistam – na maioria das às vezes à base de greves sofridas, prolongadas – alcançam todos.

É comum ouvir pregação contra o imposto sindical – à beira de desaparecer no desmonte dos direitos trabalhistas em processo de votação na Câmara.

Todavia, esta velha escriba, que sempre foi sindicalizada – desde o primeiro emprego com carteira assinada, aos 15 anos de idade -, já foi sindicalista e trabalhou década e meia para o movimento sindical, jamais viu alguém abrir mão do reajuste salarial.

Por isso, os eleitos pelos trabalhadores para representá-los nos poderes afins – e até os não eleitos – acham que podem fazer o que bem entendem com os seus direitos. Inclusive, acabar com eles, a serviço da ganância do capital (quadro).

À hora em que escrevo, o texto principal do projeto foi aprovado no plenário da Câmara, que acaba de soterrar a CLT – Consolidação das Leis do Trabalho. O placar é 296 votos a 177.  Faltam os destaques, três, que seriam votados em seguida.

Os partidos de oposição – PT,PDT, PCdoB, PSol e Rede – se posicionam contra o projeto que leva o nº 6787/16. Da base governista, PSB, SD e PMB também orientaram contra a votação. O PHS liberou a bancada.

Por acordo de lideranças, a votação foi nominal. Veja como votou cada deputado

Foto capturada no @Jornalistas Livres

O texto altera 100 artigos da CLT, mais da metade redigidos por empresas ou lobistas patronais. O acordo coletivo prevalece sobre a lei em 15 pontos diferentes, por exemplo: jornada de trabalho, banco de horas anual, intervalo de alimentação mínimo de meia hora, teletrabalho, regime de sobreaviso e trabalho intermitente.

Acaba a obrigatoriedade de o  trabalhador ser assistido pelo sindicato na hora de rescindir o contrato trabalhista. A contribuição sindical obrigatória é extinta.

O Senado está com a palavra, ou com a guilhotina.

Terra arrasada. Foi assim com a terceirização, está sendo assim com o desmonte dos direitos trabalhistas, e querem que assim seja feito com os direitos previdenciários.

Resumo da ópera, feito por um juiz trabalhista, reproduzido pelo Conversa Afiada: “Acabou o direito do trabalho”.

Não à toa, o Tribunal do Trabalho da 3ª Região, pela primeira vez na história, oficialmente, decidiu não funcionar na sexta-feira, 28, cancelando o expediente na sexta, 28 “em virtude da paralisação nacional amplamente divulgada pela imprensa”.

É o caso de perguntar: e você, vai ficar aí parado?

 


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