O bem e o mal como acidentes de percurso

por Sulamita Esteliam

Vou tentar mudar de assunto, pois não estou a fim de falar sobre o teatro do absurdo, elevado ao cubo, que envolve todas as nossas instituições. E que se reflete na farsa encenada no TSE, no que seria o julgamento da ação “só para encher o saco” do PT, em curso. Se gritar socorro, não fica uma para lhe dar guarida.

Triste. trágico e revoltante.

Mas hoje vi nas redes sociais a reprodução de uma fala da escritora Isabel Allende, 75 anos, que admiro e cujos livros coleciono. Está na linha do tempo de uma amiga jornalista pernambucana, querida, Laudenice Oliveira, que gostaria de compartilhar, antes de seguir adiante.

Observa a chilena:

“Trump é um acidente e não vai durar muito. Pode causar muito estrago, mas não vai destruir o mundo que construímos nos últimos cem anos. Existem movimentos, sob a superfície, de gente jovem que está mudando as coisas. Vivi o suficiente para saber que tudo é um pêndulo e nada é eterno. Vivemos um inverno de governos, de refugiados, de terrorismo, de medo, mas o verão invencível também está aí, e no final ganhará a tendência de mais solidariedade, mais democracia, mas liberdade, mais educação. As migrações não param com os muros nem leis , mas resolvendo situações terríveis nos lugares de origem”.

Minha amiga, crítica e cética pela própria natureza, confessou: “Queria ter essa certeza”.

E Euzinha, cá, irremediável otimista, comentei: “Esperança alimenta e acalma”.

Quem acompanha A Tal Mineira sabe que aqui se pratica a máxima de que as palavras têm poder, e não apenas o de comunicar.

Palavras são vibrações energéticas.

Palavras são bumerangues.

Mas minha amiga tem razão. Se a gente se restringir ao umbigo do mundo, somos levados a concluir que Isabel não conhece o Brasil.

Aqui, as manipulações políticas e os abusos de classe da casa-grande nos levam a tragédias, e nos obrigam, para nos mantermos de pé, a um recomeçar permanente.

Euzinha mesma, tenho apenas 63 anos, e já vi a roda girar tantas vezes, que perdi a conta. E talvez seja isso que nos restrinja à definição de “brasileiro, profissão esperança”.

Há a nítida sensação de que voltamos décadas no tempo, em todo o Brasil. Em Pernambuco e neste Recife, que habito e amo, não é diferente.

Lembro-me que pernambucanos com que convivíamos nos tempos de Fortaleza, nos desaconselharam a nos mudarmos para cá,  há 20 anos. Assim como nordestinos com quem convivemos em Brasília, três anos antes, classificaram como “loucura” nossa migração para o Ceará.

Mas a gente sempre disse que violência existe em toda grande cidade. E o Recife não é diferente. Assim como a capital cearense não era terra de ninguém.

Nessas duas décadas e quase meia que estamos por aqui, vimos a região florescer como nunca dantes. Aliás, como sempre mereceu sua gente forte. arrojada, cheia de pertencimento e dona de humor inigualável.

O que é preciso entender é o que está por trás desta insegurança que tanto assusta a classe média, mesmo aquela que não vestiu a camisa amarela da CBF para gritar “fora, Dilma”,  e espinafrar  Lula e toda a raça de “petralhas”.

Pois deram com os burros nágua. Nos olhos dos outros é refresco.

Safadeza e práticas ilícitas não podem ser naturalizadas, assim como apontar o dedo, não raro, tem volta.

Da mesma forma, não se pode achar que é normal retirar o direito à sobrevivência e à dignidade das pessoas, muito menos para encher as burras dos de sempre.

Onde falta o pão, todo mundo grita e ninguém tem razão, é o dito popular.

Hoje, no Facebook, outra moça de esquerda, querida bibliotecária, que bem pode ser minha filha, abriu o estado de espírito que acompanha as pessoas da terra. O pernambucano, o recifense, sobretudo, está assustado com a multiplicação dos índices de violência.

Ao desabafo da amiga seguiram-se dezenas de comentários no mesmo diapasão:

“Bom dia para você, que não tem estrutura emocional para os dias conturbados de Hellcife. Anteontem arrastão no BRT pelópidas, Idoso estuprado… Hoje assalto a estação BRT da BR 101, do Extra…
Ai vc vem assustada pq tem que descer após assalto (e com medo para não ser a próxima vítima) e eis que um assalto seguido de espancamento. Vários homens batem, quebram capacete na cabeça do “ladrão”, chutam, xingam… E eu… Bem… Eu tô uma merda. Pq carros param, fotografam e filmam o espancamento. Ahh, mas segundo o nosso excelentíssimo (des) governador, o povo pernambucano vive uma histeria coletiva.
O estado tá tranquilo e favorável.”

Há poucos dias, num sábado, uma senhora que recolhe latas na praia me alertou quando eu me preparava para voltar para casa: “Vai pela Navegantes? Cuidado que tá tendo assalto com arma. Eles ficam escondidos e pegam as pessoas desprevenidas…”

Esta semana, estava em casa quando ouvi alguém gritar, repetidamente, “pega…!” na rua, voz de mulher. Em seguida, um coro de vozes pipocando em eco até o quarteirão seguinte e mais adiante: “pega o ladrão, pega o ladrão, pega o ladrão…!”

O jogral é uma prática solidária da terra, usado como alerta de segurança. Porteiros e passantes se tornam megafones, e não é incomum pegarem e reterem o infeliz, e não é à base de carinho, enquanto aguardam a chegada da policia. Nos morros, as mulheres usam apito para denunciar violência doméstica.

Após minha caminhada tardia, no fim da manhã esta quinta, parei para alongar num ponto da praia, mais próximo ao supermercado por onde deveria passar antes de voltar para casa.

Escolhi um local vago de cadeiras e banhistas, como de hábito. E fiquei a menos de cinco metros de quatro garotos que haviam estacionado suas bicicletas, duas, e se esparramavam na areia, um deles com um vira-latas no colo.

Tenho ouvido de tuberculosa, costumo dizer; em mineirês, significa que escuto longe e mais do que a maioria. E sou portadora, também, de atenção difusa; consigo me concentrar em mais de uma atividade ou conversa ao mesmo tempo.

O tempo é inexorável, e essa capacidade vem reduzindo, devo admitir; mas não aceleradamente, me consolo.

Pratico alongamento do tipo oriental, Lian Gong (lê-se lian kun). Exige certa concentração e algum equilíbrio físico, esforço que aumenta na areia. Chamo de ginástica de preguiçoso, mas funciona para mim, me relaxa, e me mantém disposta, sem grande esforço.

Bem, enquanto fazia meus exercícios, não pude deixar de ouvir o papo dos garotos. Contavam vantagens uns para os outros. Falavam de suas aventuras por Boa Viagem. A voz de um deles, o que mostrava mais valentia, ainda está em transição.

Cada qual descrevia com mais riqueza de detalhes como exercem a “pressão” sobre “os bói” desse pedaço do Recife, que atende pelo mesmo nome do território livre da praia a partir da qual se desenvolveu, que encanta turistas, e que a classe média nativa tem a ilusão de que lhe pertence, embora o renegue.

– Disse pro bói, não tem refresco meu irmão, joga a chave. Tu qué morrê, desgraçado?

– E por que tu não brincou de “amarrar o ovo”. É doideira geral…!

– O cara tentou falar grosso, que era do exército e o escambau. E eu pra ele: cadê a farda, meu irmão?Tu qué morrê, joga a chave…

– Pois eu sempre boto a proposta: vamos brincá de amarrar o ovo? Eu amarro o teu, tu amarra o meu… E aí, pô, pô, pô, o cara grita de dor…

E assim foi, por mais da metade do tempo em que me exercitei. Até que eles resolveram tomar banho de mar, e levaram o vira-latas junto, porque afinal cachorro também é gente.

Deixei a praia pensando se a conversa dos rapagotes seria “pra botar terror na véia” ou uma viagem típica de quem fuma “maconha estragada”, no linguajar daqui, ou trabalha na cola, ou na pedra…

Sou muito ignorante nesses departamentos.

Ou, quem sabe, prefira crer que o acaso vai nos proteger, enquanto a gente andar distraída… como naquela canção dos Titãs, a banda paulista que um dia deixou-se envolver pelo oportunismo e gritou em verso FDP… lamentável e precipitadamente, deveriam agora reconhecer.

Ou ainda, talvez, como Isabel Allende, acreditar no ciclo natural da existência, ou seria no bem ou no mal como acidentes de percurso.

Certo é, que temos que seguir em frente.

PS: Dei uma “goolgada” para ver se encontrava alguma descrição da “brincadeira” de “amarrar o ovo”, conforme um dos personagens dessa crônica. Acabei encontrando algo tão sério quanto,  embora também seja usada como “brincar de desafio”. Leva o nome de “brincadeira do saco”. Agrego o linque para que pais e mães e adultos responsáveis não se distraiam: o jogo é ou foi praticado por quatro em cada dez jovens brasileiros, leva ao desmaio, e pode causar danos irreversíveis. Há registros de morte, inclusive.

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Postagem revista e atualizada à 00:04 do dia 09.06.2017: correção de erros de digitação aqui e acolá… Inclusão do PS.


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