Literatura brasileira chega a Moçambique, nas asas de Madu Costa


por Sulamita Esteliam
‘Choveu naquele dia.
Na hora da saída das urnas do cemitério público. Na hora da chegada ao cemitério familiar. E, na hora do enterro.
Todos se alegraram pois aquele era um sinal de alegria manifestado pelos espíritos.’
             Madu Costa, escritora e contadora de histórias

Madu Costa é das pessoas mais divertidas, e das mais centradas e talentosas que conheço. E nos conhecemos já se vão 40 anos. Mulher de sete instrumentos, todos manejados com particular estilo e destreza. A ironia é uma especialidade.

Escreve, dança, canta, costura, cozinha, inventa e encanta. Adora uma festa, e o palco é para ela um espaço natural. Todavia, saia de perto quando fica brava.

E olha que não é fácil se destacar numa família que é a própria constelação. O brilho é característica que permeia as múltiplas gerações dos Ferreira da Costa. A linhagem do núcleo do qual brotou Madu já está na quarta geração. Ela própria é mãe e avó, zelosa e divertida.

A expressão comunicar-se encontra em Madu uma completa tradução, embora, profissionalmente, tenha escolhido a Pedagogia e a Literatura como meios de “compartilhar saberes e sabores”, principalmente com e entre crianças e adolescentes.

Escritora publicada aqui e no exterior, é contadora de histórias, palestrante na área de literatura, da arte em contação de histórias e africanidades.

Professora aposentada, com larga experiência em sala de aula. Pedagoga pela UFMG, pós-graduada em Arte Educação pela PUC Minas, e mergulho na cultura  da terra-mãe, África, de onde “foram sequestrados” seus ancestrais.

Nasceu Maria do Carmo Ferreira da Costa, na capital das Gerais, a primeira das cinco filhas e dois filhos de Judith Ferreira e Eugênio Caetano da Costa. Ele, ferroviário e ativista político; ela, enfermeira, mãe extremosa, e dona de uma coração sem tamanho. Todos de Belo Horizonte. 

Madu acaba de desembarcar da África. Passou o mês de maio e os primeiros dias de junho em Moçambique, na capital Maputo, onde lançou dois livros editados, em português de lá, por editora nativa. Flanou pelas províncias do entorno, em viagem ancestral. 

Não é a primeira vez que se faz presente aqui no blogue. Mas é sobre suas experiências nessa última viagem que conversamos na entrevista a seguir, feita via zap-zap terça e quarta-feiras desta semana.

A Tal Mineira: Você praticamente acaba de chegar de uma viagem a Maputo, em Moçambique. Fale da sua boa experiência lá em terras d’África.
Madu Costa: Essa foi a quarta vez que fui a Moçambique. Fui lançar dois livros produzidos lá pela Alcance Editores. Participei de vários saraus. Apresentei meu livro brasileiro mais recente: Outra Vez Mariana.
Visitei três escolas de educação básica e firmei parceria com duas delas para desenvolver projeto de intercâmbio cultural e literário entre BH e Maputo, capital de Moçambique. Vamos nos corresponder por cartas, emails, Whatzapp; enfim, vamos trocar saberes e sabores.

A Tal Mineira: Que delícia!                                                                                                                                 Madu Costa: Além disso, visitei amigos, fiz novas amizades. Conheci outros lugares.                     Participei de uma cerimonia chamada “De volta pra casa”. Traslado da ossada dos pais da escritora moçambicana, Fátima Langa. A ossada foi levada para o cemitério familiar em outra província: Gaza.

A Tal Mineira: Os livros editados lá têm versão por aqui, e também são infantojuvenis?
Madu Costa: Os livros são editados em português de Moçambique. Não tem ainda edição brasileira, mas poderá ter. São infantojuvenis. Um chama-se Os Cabelos de Maila e Outros Contos e o outro chama-se Mais Uma Batalha.

A Tal Mineira: Você trabalha a temática étnica e escreve principalmente para meninas, também nesses livros?
Madu Costa: Não. São histórias com temáticas diversificadas. As ilustrações revelam personagens negras, mas nem todos os contos destacam meninas.
Os Cabelos de Maila, sim, mas Era Outra Vez, Outra Vez conta a história de três irmãos yorubás que resolvem viver aventuras. Três adolescentes meninos.
A história O Nariz do Seu Nadin é uma metáfora sobre as influências estrangeiras na vida do povo moçambicano.
É bom cada um saber onde põe o seu nariz.
No livro Mais Uma Batalha, os personagens Zua e Mwedzi trabalham no combate à malária. Este livro faz parte de uma coleção de oito fascículos.

A Tal Mineira: O que a motiva escrever para crianças e adolescentes, e onde você busca inspiração para suas histórias?
Madu Costa: A motivação é construir leitores cada vez mais jovens. E a inspiração é o próprio universo infantil.
Sou professora, e durante 40 anos convivi com crianças de várias idades e condições sócioeconômicas.
Meus filhos, sobrinhas e netos também me inspiram sempre. Eu mesma, trago minha criança interior bem animada. O que ajuda no diálogo e na percepção desse universo.

A Tal Mineira: As viagens frequentes a Moçambique estão ligadas somente à atividade literária? Nasceu da curiosidade ou da necessidade de encontro com suas raízes?
Madu Costa: Nasceu da necessidade do encontro com minhas raízes. E abriu portas para a produção literária internacional.

A Tal Mineira: Seus ancestrais vieram de Moçambique?
Madu Costa: Não tenho confirmação científica, mas escolhi Moçambique como porto de partida dos meus que foram sequestrados. As características físicas sugerem, e o amor que tenho pelo moçambicano me faz eleger.

A Tal Mineira: Pode-se dizer que você se sente em casa naquele torrão d’África…
Madu Costa: Totalmente em casa. Fiz muitos amigos, e hoje sou disputada por um e outro quando vou hospedar-me lá. Nem da primeira vez fiquei em hotel.                                                                                     Circulo a pé. Ando de Xapa/vans clandestinas que fazem o transporte público. Ando de Xhopela/lambretas com cobertura que também faz o “táxi”.

A Tal Mineira: Que maravilha! Você diria que é também um encontro de culturas, além da proximidade do idioma e outras afinidades?
Madu Costa: Sim. É o encontro de culturas. Africana, indiana, chinesa, portuguesa, brasileira, árabe, entre outras.
É importante dizer que minhas vivências em Moçambique têm me ensinado mais e mais sobre a importância da luta antirracial.

A Tal Mineira: Falemos de seus projetos. O que temos à vista para o Brasil e para Moçambique?                                                                                                   Madu Costa: Iniciei, como já disse, uma conversa sobre o projeto intercâmbio entre turmas de alunos de duas escolas públicas moçambicanas com alunos de uma turma da escola estadual na qual faço trabalho voluntário.   Para o ano que vem, pretendo ficar um tempo maior em Moçambique, trabalhando com ludopedagogia, formação de professores.                                                              Aqui no Brasil, estou preparando a publicação de poemas com temática africana, baseada nos nomes e características dos 54 países do continente.                                                                                                   Trabalho ainda com formação de professores e contação de histórias para crianças.

A Tal Mineira: Fale um pouco mais da cerimônia “De volta pra casa”. Por que você foi convidada a participar de algo tão singular e íntimo?
Madu Costa: Eu me tornei amiga-irmã da escritora Fátima Langa. Ela é moçambicana da província de Gaza. Filha de ex-combatente. Ela também foi combatente na luta pela independência de Moçambique.
A família dela é tradicional.
Por isso, eles preservam essa tradição de enterrar seus mortos em cemitério particular. O pai morreu ainda no período da guerra e não pode ser enterrado no cemitério particular. A mãe morreu há nove anos e quis ser enterrada perto do pai, mas sabia que quando desse seriam levados de volta pra casa.
Os 10 irmãos planejaram tudo para esse ano. No dia que completava os 25 anos da morte do pai.
Ela, Fátima, me convidou em 2015. Eu juntei o lançamento dos livros com a data da cerimônia e consegui vivenciar algo indescritível.

A Tal Mineira: Imagino…
Madu Costa: A cerimônia durou uma semana. No dia 15 de maio, os restos mortais foram exumados, colocados em duas urnas e levados para o sítio da família onde está o cemitério.
Choveu naquele dia. Na hora da saída das urnas do cemitério público. Na hora da chegada ao cemitério familiar. E, na hora do enterro.
Todos se alegraram, pois aquele era um sinal de alegria manifestado pelos espíritos.
Mulheres, com suas capulanas enroladas na cintura, cantaram durante toda a cerimônia. Terminou com uma grande festa para 600 pessoas. Bifê de primeira.

Fátima Landa, amiga-irmã de Madu a hospedou em Moçambique. Encontro de despedida.

A Tal Mineira: Nossa, deve ter sido lindo, mesmo! E emocionante. Agora, diga, não foi ela, Fátima, quem a hospedou, né?
Madu Costa: Sim. Ela hospedou-me  nessa viagem de agora.

A Tal Mineira: Deus às vezes exagera em suas definições, não?
Madu Costa: Deus cuida da gente. Ele simplifica. Ele abre portas. Nós entramos ou não. Deus é exagerado.

A Tal Mineira: Desculpe-me, mas preciso esclarecer – até para que quem nos lê entenda: é ela a estrela encantada, no sentido roseano, de que você me falou por telefone?
Madu Costa: É isso mesmo. Fátima Landa, a encantada. Escritora, jornalista, membro do Frelino – Frente de Libertação Moçambicana.
Morreu dia 24, dia do seu aniversário, pouco mais de uma semana depois de eu desembarcar no Brasil. Você pode imaginar como isso me doeu… As cerimônias de sepultamento dela só se darão amanhã (nesta quarta-feira, 28). às 10 horas na Igreja da Pulana e às 15 horas no Cemitério de Lhanguene, em Maputo. Cemitério público.

A Tal Mineira: Estrela guardada no coração de seus queridos. Impressionante.
Madu Costa: É maravilhosamente impressionante.


SERVIÇO

Para adquirir os livros de Madu Costa, entrar em contato com:

.   nandyalalivros.com.br para os livros Caixa de Surpresa e Lápis de Cor.

.  www.mazzaediçoes.com.br   para os títulos Meninas Negras, Koumba e o Tambor Diambê, Cadarços Desamarrados, Zumbi dos Palmares em Cordel, Embolando Palavras.

Para contratar palestras, contação de histórias, contato  com a autora:

maducosta@bol.com.br, whatzapp 31-987234350.


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