O Brasil da ganância e a bacia das almas

“Quem vive de juros públicos acima da capacidade de lucro dos que produzem, vive da doença, má educação e insegurança da população. Eles não bebem champagne, bebem a morte, a miséria e a infelicidade de seus semelhantes.”

Gustavo Castañon, filósofo e psicólogo

 

Manifestantes no Recife em 30 de junho – Foto: SEsteliam
por Sulamita Esteliam

Minha programação do dia incluía escrever um texto sobre a posse da primeira mulher presidenta do PT, a articulada e combativa Gleisi Hoffman, senadora pelo Paraná. Registre-se: linha de frente no questionamento do golpe parlamentar-jurídico-midiático que depôs Dilma Rousseff e quer defenestrar Lula, para botar em seu lugar você sabe quem a serviço de outrens.

O golpe permanente que nos trouxe até aqui, atolados na lambança até o pescoço, e em processo desenfreado de desmonte do país e dos direitos de sua gente.

Estão vendendo o Brasil na bacia das almas, e demolindo nossa perspectiva de cidadania tão tardiamente vislumbrada.

São fatos diante dos quais não podemos, simplesmente, fingir de égua, como diria a minha avó materna. Não há como deixarmos de nos indignar, e resistir, enquanto preciso for.

Quem diz não sou Euzinha, apenas. Mas o resumo da ópera sai da boca do insuspeito, no caso, Renan Calheiros, senador de Alagoas pelo mesmo PMDB do mordomo usurpador.  E tão golpista quanto ele, e também investigado por diferentes ilícitos.

A diferença, talvez, seja o diapasão político, ou de sobrevivência, mais afinado com o tempo da banda, digamos assim.

Agrego, pós-escrito, o vídeo em que o ex-presidente do Senado quando da farsa do impeachment de Dilma Rousseff, e ex-líder do PMDB na Casa até há cerca de uma semana, tripudia sobre a barraca já arriada por ele.

Vídeo capturado na página do senador no FB; abre uma sequência interessante  de falas sobre o que trata esta postagem. Confira:

 

Então, nesse mote de tortura e quase total desesperança nesse ano e meio de golpe, topei com o artigo do filósofo e doutor em Psicologia, Gustavo Castañon, no Tijolaço, e resolvi adiar as considerações sobre os acontecimentos de quarta à noite na capital federal, com as presenças marcantes de Dilma e Lula, efusivamente recebidos.

Você há de entender o porquê:

 

O “fim” da corrupção salva o Brasil?

por Gustavo Castañon

Em 2016, o serviço da dívida levou 44% do Orçamento federal. Esse ano, estima-se que levará 49% de um orçamento que é de  R$ 3,5 trilhões (repetindo: trilhões). Isso significa simplesmente R$ 1,72 trilhões, ou se preferir, 1722 bilhões de reais.

A Previdência, alçada a vilã nacional, levará somente 18% do orçamento (R$ 650,5 bilhões). O resto se divide entre repasses para estados e municípios e os famosos gastos com pessoal, alvo do ressentimento permanente do coxinha, que são a parte mais transparente do Orçamento e não chegam a 9% dele (R$ 306,86 bilhões, nisso incluído inativos e pensionistas da União).

Também inclui ridículos R$ 35,2 bilhões (repetindo: bilhões) de custeio (passagens, materiais, energia, diárias, etc.). Se você desconsiderar os supostos desvios de licitação de caneta e papel chamex, podemos dizer que o cidadão médio acredita, movido pela Globo e congêneres, que a “roubalheira” e a “corrupissaum” que “destrói o país” se dá nas licitações de obras que são parte da conta de investimentos.

É a narrativa da novela global “Lava-Jato”.

Mas a conta de investimentos corresponde esse ano a menos de 3% do orçamento. Isso mesmo, o Estado está investindo menos de 3% do orçamento. E o Brasil ainda quer crescer. Se todo o investimento do país fosse em obras e elas tivessem todas roubo padrão-Quércia, os famosos 10%, a “corrupissaum” levaria menos de 0,3% de nosso orçamento.

É com menos de 0,3% de nossos problemas que se ocupa 99,7% do tempo de nossos telejornais (o percentual dos telejornais é, obviamente, o único metafórico aqui).

Enquanto isso os juros e amortizações (R$ 776 bi esse ano, 22% do orçamento), a sonegação (estimada em R$ 550 bilhões esse ano) e as isenções tributárias (como as do Estado do Rio) destroem o Brasil. Destroem sua vida.

Quem vive de juros públicos acima da capacidade de lucro dos que produzem, vive da doença, má educação e insegurança da população. Eles não bebem champagne, bebem a morte, a miséria e a infelicidade de seus semelhantes.

É somente natural que esses canalhas só queiram falar nos que transgridem a lei, e não na lei injusta que alimenta seu parasitismo. A lei para eles tem que ser cumprida não porque seja moral, mas para que tudo permaneça imoral como está.

Afinal de contas, esses 0,3% também deveriam estar indo para o bolso deles na conta de juros.

Ou continuam indo?

PS “antecipado”: Alguns economistas ligados a determinados partidos de esquerda atacam os “gráficos pizza” da Auditoria Cidadã da Dívida, que não foram usados aqui, porque consideram que eles mais confundem a população que esclarecem, ao misturar no orçamento juros, amortizações e rolagem. Isso “satanizaria” a dívida pública que eles consideram que pode crescer de forma ilimitada. Acontece que os referidos gráficos são basicamente reproduções das contas oficiais do orçamento da União divulgadas pelo governo, que apresentam conceitos obscuros de juros, amortizações, mascaram atualizações monetárias e oferecem enormes contas sem discriminação sob o guarda-chuva de “outros”. Para um esclarecimento da Auditoria Cidadã da Dívida sobre essas críticas, clique aqui.

LINKS POR ORDEM DE CITAÇÃO:

Dados do orçamento de 2016: http://www8d.senado.gov.br/dwweb/abreDoc.html?docId=1916103 ;

Dados sobre a sonegação: http://www.quantocustaobrasil.com.br/;

Dados sobre o custeio em 2016: http://www.brasil.gov.br/governo/2017/02/despesas-de-custeio-do-governo-federal-caem-a-nivel-recorde-em-2016

 

* Gustavo Castañon é professor de Filosofia e Psicologia na Universidade Federal de Juiz de Fora, “e militante político e acadêmico nas horas ocupadas”, segundo seu perfil na revista Língua de Trapo (título de um conto infantil desta escriba, que ameaça se transformar em livro), onde publica artigos regularmente.

Filiado ao PDT, retornou ao partido depois de desencantar-se com o PSB, quando os socialistas engajaram Marina candidata à Presidência da República, pós-morte trágica de Eduardo Campos, em 2014.

Na ocasião, publicou um artigo mordaz em Carta Maior, replicado na Galeria dos Hipócritas do Vi O Mundo, explicando as razões pelas quais tomou a atitude. Diz os dois trechos finais:

“Por tudo isso, não restam dúvidas que Marina é a candidata da mudança. Ela muda sem parar. Essa é sua “Nova Política”, uma mudança nova a cada dia. Não é possível acompanhar a labilidade de seu caráter ou de sua mente. Ou ela mente. Não importa. O que importa é que Marina representa a mudança, a mudança de um Brasil aberto e tolerante para um Brasil refém da intolerância fundamentalista, de um Brasil voltado para sanar a dívida com seu povo humilde para um Brasil escravo de seus bancos, de um Brasil democrático para um Brasil mergulhado em crise institucional.

Por isso eu mudei também. Entrego essa semana meu pedido de desfiliação do PSB e cerro fileiras contra essa terrível mudança que ameaça nosso país. Não é possível submeter o Brasil a essa catástrofe. Marina Silva é uma alma em liquidação. Qualquer um pode exigir que ela mude uma posição por um punhado de votos. Mas aproveitem logo. Essa promoção é por tempo limitado.”

 

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Postagem revista e atualizada às 22:15: inclusão de texto e vídeo sobre e com Renan Calheiros.

 

 

 

 


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