Gleisi, o PT, as contradições, o desgoverno e o desembarque dos golpistas

A posse de Gleisi, a primeira mulher presidenta do PT, com Dilma e Lula – Foto: Lula Marques/AgPT
por Sulamita Esteliam

Gleisi Hoffman, primeira mulher a presidir o PT, tem voz doce, mas não costuma usar meias palavras. É enfática ao comentar sobre a possibilidade de conversa com os tucanos em torno de uma tal “travessia” de gestão, pós-afogamento, no sentido metafórico, do mordomo usurpador.

Registre-se, de cujo barco o PSDB  acaba de pular fora para não afundar junto, como mostram as capas das semanais da mídia golpista, até aquelas até agora renitentes, como a Óia-Veja; conforme imagens, garimpadas e gentilmente enviadas pelo colega Olímpio Cruz Neto, postadas acima.

A fala de Gleisi deu-se logo após a primeira reunião do novo diretório nacional do partido, na última quinta-feira:

“Não vamos aceitar solução com Rodrigo Maia. Nem nos chame para conversar. Rodrigo Maia e Temer são farinha do mesmo saco, do pessoal que deu o golpe, tirou a presidenta Dilma, e está patrocinando os retrocessos contra a classe trabalhadora. É fora Maia, também. A solução é eleições diretas.”

Ou, como  lembra no Twitter a presidenta legítima Dilma Rousseff, citando Marx sobre a repetição na História: o golpe 2016, como tragédia; em 2017, como farsa das elites. Reproduzo a imagem mais ao pé do texto.

E o PT se recusa a dançar o minueto.

Assista ao vídeo com a fala de Gleisi:

O Partido dos Trabalhadores é um sobrevivente com fôlego de gato. Tem sete vidas. Algumas se perderam pelo caminho nesses 37 anos de existência; sobretudo nos últimos 12 anos de bombardeio intermitente, de tentativas virulentas de desconstrução, que permanecem.

É certo que deixou brechas no telhado, mas os ataques são desproporcionais e na maioria dos casos não sustentados em provas, e sem direito ao contraditório.

Dá-se, em grande parte, pelo grande pecado de ter conseguido ascender ao poder, sendo de origem popular, e num tempo e modo como nunca jamais outro partido de esquerda conseguiu neste país – para o bem e para o mal.

Respeito e admiro muito a senadora pelo Paraná, Gleisi Hoffmann, ex-ministra da Casa Civil do governo Dilma Rousseff. Chega à presidência do PT por méritos próprios.

Sua ascendência é fruto da postura de leoa no combate ao golpe, aos golpistas e suas consequências, da sua firmeza, capacidade de articulação e coerência indiscutíveis.

Conduzir o maior partido de esquerda da América Latina, queiram ou não queiram juízes, adversários e críticos de plantão é uma conquista e tanto. E a condição de mulher e mãe, com toda sobrecarga que isso significa, só a engrandece.

Evidentemente, conta o fato de Gleisi pertencer ao campo majoritário do PT, e ter sido ungida por Lula, que primeiro presidiu o partido e ainda hoje é presidente de honra.

A história mostra, aliás, que, se as divergências são expostas e as correntes diversas convivem no embate entre si, na hora de escolha da direção, prevalece a maioria. Ossos do critério democrático, não raro longe do que seria o equilíbrio de oportunidades.

Não obstante, ter uma mulher nesse papel, e do naipe de Gleisi, numa sociedade machista e misógina, é sem dúvida um avanço.  A lembrar que a esquerda que não foge à luta, também não escapa à regra, muito antes pelo contrário. PT incluído.

A despeito de ser o primeiro partido a implementar a cota de 30%, mesmo agora, a nova Executiva do PT se atém a isso: além da presidência, três mulheres em 11 secretarias nacionais (uma a preencher – Mobilização), nenhuma nas cinco vices. A maioria do gênero se restringe aos vogais – representação estadual com direito a voto: oito mulheres em 10.

Nas agora oito secretarias setoriais – a setorial LGBT ganha status de secretaria – com direito a voz na Executiva e no Diretório Nacional, mulher apenas na secretaria da Mulher; o voto é prerrogativa da Secretaria Nacional de Movimentos Populares e Políticas Setoriais.

Como se depreende, a presidenta e as mulheres têm um longo e árduo caminho pela frente, no que se refere à igualdade de oportunidades, também no maior partido de esquerda do Brasil e da América Latina.

Todavia, e a despeito disso, causa espécie que um bicho político da natureza e fibra de Gleisi não coloque em pauta a hipótese de combate jurídico no argumento político contra o golpe de que foi alvo e vítima a presidenta Dilma, o partido, o Brasil, a nação, o povo brasileiro.

Falo da pressão sobre o STF para anular o golpe e restaurar o primado da Democracia e da Constituição violadas.

É uma pergunta que não quer calar: por que o PT passa ao largo dessa obviedade?

Mesmo que a Corte, como é notório, se insira no processo golpista, e não apenas como omissão, como mostra reportagem de capa da Carta Capital desta semana. Mas, insisto: é nosso dever de cidadãos, e é dever do partido golpeado, cobrar que o Supremo cumpra seu papel de guardião constitucional.

Só hoje tive tempo e disposição para ver e ouvir os discursos da posse de Gleisi na direção do PT. E o que aponto na fala do vídeo no alto desta postagem é a linha-mestra da sua fala e de todas as falações.

Gleisi faz um discurso sensível, agregador e agradecido, que chama à responsabilidade partidária coletiva na reconstrução democrática do Brasil, na atenção às carências e prioridades da vida da pessoas.

É de gente que se faz um país, embora alguns duvidem que sejamos um povo e atuem pelo avesso.

A presidenta do PT aponta os caminhos prioritários a busca de solução para crise política, econômica, ética e moral do país. Entretanto, nenhuma palavra fora do script:

 

 

Lá em Brasília estavam Lula e a presidenta legítima, Dilma Rousseff. Lá estavam todo o núcleo duro do partido e os dirigentes nacionais, e regionais, e locais, e a militância incansável – o verdadeiro alicerce, motor e combustível do PT.

Ousadias, só na militância. Havia cartazes pela anulação do golpe no auditório.

A própria Dilma, se obriga à diplomacia na fala. É óbvio que não pode ser ela a tomar a iniciativa. A linha é partidária:

“O que antes estava no campo da especulação, quis a história que se reconhecesse que foi de fato um golpe. Agora temos que tomar cuidado para que não ocorra a radicalização do golpe, que viria pela aprovação de medidas como essas reformas.”

Mas, como ela mesma diz, no microblog, tirando onda com o traíra usurpador: ” Em vez de carta, twitter: verba volant scripta manent!”  Vertido do latim, grosso modo, significa: “as palavras voam, os escritos permanecem”.

Lula questiona o entusiasmo pela “iminente queda de Temer”, mas bate na mesma tecla:

“Certamente o Rodrigo Maia já está se preparando para ser o próximo presidente da República. Não podemos esquecer que golpista é golpista. Se a gente não conseguir aprovar uma PEC pelas diretas, nós não vamos dar trégua. Se tiverem que ganhar, que seja pelo voto.”

Não se considera que a transição para as eleições diretas passa pela anulação do impeachment fraudulento, passa pelo volta, Dilma, e pela convocação de uma Constituinte para reformar as bases eleitorais e revogar os retrocessos sociais.

Se estou enganada, me digam.

É claro que não se pode engolir mais um presidente ilegítimo, eleito indiretamente por um Congresso de maioria corrupta. Mas, desrespeitaram 54,5 milhões de votos, não, 105 milhões de eleitores que foram às urnas em 2014 e optaram dentre dois candidatos no segundo turno.

O perdedor detonou um golpe, “só para encher o saco deles”, do PT. Um golpe parlamentar-jurídico-midiático que levou a um impeachment de uma presidenta honesta, sem crime de responsabilidade.

E o PT faz de conta que a hipótese de restaurar a democracia violada só tem um viés: eleições diretas.

Com as regras políticas que prevalecem, e que nos trouxeram a esse estado geral de lambança?  Qual o milagre que se espera?

Lula é o candidato, não há dúvida, e não temos ninguém melhor para restaurar a confiança do povo num projeto de nação. Por isso tornou-se caça. Já que não conseguem desmontá-lo, peça a peça, o querem preso.

É inigualável, mas não é Deus.

 

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Postagem atualizada à 00:21 e ás 11:29 HS de 08.07.2017: inclusão de links e foto; correção de pontuação e substituição de palavras e expressões repetidas, sem alterar o conteúdo.

 

 

 

 

 

 

 


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