O povo, a decência, e a Lula o que é de Lula

por Sulamita Esteliam

É preciso fôlego de gato para acompanhar a velocidade dos acontecimentos nesse país, não é verdade? Mas ouso dizer que esse blogue anão, e abastecido com trabalho 100% voluntário, não se abala de ter que usar todo o poder de síntese de sua velha escriba e faz-tudo para resumir no tricotar diário o que rola ao longo do dia e noite adentro no decorrer da semana.

Com a providencial e luxuosa ajuda na pesquisa pelos blogues noticiadores, da blogosfera alternativa, algumas entrevistas e a colaboração de colegas solidári@s, que ainda @s há, pode crer, e sou grata por existirem como são.

No entanto, no dia seguinte à condenação anunciada do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo justiceiro da República de Curitiba, juiz federal Sérgio Moro, a notícia é, me desculpem, o que pensa Lula do gesto que abalou o Brasil e o mundo.

Mesmo não sendo surpresa a sentença e a resposta do sentenciado.

E é Lula quem diz, reivindicando do partido que fundou e é presidente de honra, seu lugar de candidato quando chegar a hora:

“Se alguém pensa que com essa sentença me tiraram do jogo, podem saber que eu tô no jogo.”

Queiram ou não queiram os juízes de toga ou colarinho branco e meias e cuecas sujas, e seus arautos de plantão; os coleguinhas que se prestam ao jogo sujo da casa-grande – e com isso não me conformo, quaisquer que sejam as razões alegadas ou de fato, pois já estive do lado de lá, e peguei meu boné para não vender a pena, negociando princípios.

Além dos convictos ou midiotas paneleiros, contaminados pelo ódio brandido diuturnamente, e que nem queimar bandeira do inimigo sabem. Aliás, não sabem da prática nem da missa um terço.

Estão todos alucinados, alheios às consequências, e não olham à sua volta. Buscam, pela repetição a que chamam de “análise de nossos colunistas” ou coisa que o valha, uma brecha que possa se traduzir em provas nas mentes teleguiadas, e também nas resistentes que se dão ao trabalho de ler, ver e ouvir o que falam e transmitem.

Tudo cessa, desde que se possa levar Lula a ver o sol nascer quadrado, impossibilitado de concorrer e voltar ao lugar que nunca dantes um operário, ainda mais nordestino, refugiado da seca e da fome, havia chegado e não deveria jamais ter ousado chegar.

Pior. Exercer a ousadia de retirar milhões da pobreza, desenvolver a autoestima do Zé e da Maria Povinho, levar as Jéssicas e Pablos à Universidade, à travessia de fronteiras, ao rolezinho nos templos de consumo, e esta Terra Brazilis a um lugar na rota das potências emergentes.

Tudo, sem perder a ternura e a resiliência.

O povo é alma do país, é a prioridade e merece o respeito da decência.

E a Lula, o que é de Lula.

“Permita que alguém cuide desse povo, porque este povo não está precisando ser governado pela elite. Esse povo tá precisando ser governado por alguém que conheça a alma dele, por alguém que saiba o que é fome, o desemprego, por alguém que saiba o que que é a vida dura que leva o povo pobre desse país.”

“Somente quem tem direito de decretar o meu fim é o povo brasileiro.”

Eis o melhor de sua fala do ex-presidente Lula na manhã desta quinta, na sede Nacional do PT em São Paulo – na edição do A Tal Mineira:

Condenação anunciada

“(…) o que aconteceu ontem, eu já previa no dia 16 de outubro do ano passado. Se vocês leram, eu escrevi um artigo, na tendência de debate da Folha, “Por que querem me condenar” (mostra); isso aqui é o dia 18 de outubro de 2016 e nesse artigo, eu disse o seguinte:

‘Meus acusadores sabem que não roubei, não fui corrompido nem tentei obstruir a Justiça, mas não podem admitir, não podem recuar depois de um massacre que promoveram na mídia. Tornaram-se prisioneiros das mentiras que criaram, na maioria das vezes, a partir de reportagens facciosas e mal apuradas. Estão condenados a me condenar e devem avaliar que se n˜o me prenderem, serão eles os desmoralizados perante a opinião pública.

Tento compreender essa caçada como parte da disputa política, muito embora seja um método repugnante de luta. Não é o Lula que pretendem condenar, é o projeto político que represento junto com milhões de brasileiros. na tentativa de destruir uma corrente de pensamento, estão destruindo os fundamentos da democracia no nosso país.

É necessário frisar que nós do PT, sempre apoiamos a investigação, o julgamento e a punição de quem desvia dinheiro do povo. Não é uma afirmação retórica, nós combatemos  a corrupção na prática.'”

Mentiras em benefício próprio

“(…) o Moro proferiu várias entrevistas sentenciando que era preciso uma forte cobertura da imprensa, porque senão ele não conseguiria prender as pessoas, e sobretudo prender as pessoas para fazer com que as pessoas delatassem.

O Leo Pinheiro tá há mais de dois anos preso, o Leo Pinheiro insistentemente disse “não, não”… 

O cara tá preso e o cara fala “Pô, eu tô condenado a 23 anos de cadeira, tem mais uns 3 processos contra mim e o que eu tenho que falar é apenas dizer que o Lula sabia?”

O Lula não faz parte da família dele, o Lula não é filho, não é genro, não é nada dele. Por que que eu vou pegar tanto anos de cadeia por causa do Lula?”

A caçada e as razões

“Eu acreditava que o Moro iria recusar, se ele tivesse recusado a aceitar a mentira contada pelo MP, baseada na teoria do PowerPoint, era o que eu esperava. Veja que eu tinha muito mais garantia de que ele iria recusar ou aceitar a denúncia, do que me absolver depois que o processo foi aceito.

Depois que o processo foi aceito eu falei: “Olha, há um jogo a ser jogado nesse país. Não é possível, que aqueles que preparam a mentira do golpe contra a Dilma, aqueles que prepararam a mentira do golpe contra as forças democráticas que ganharam as eleições de 2014, iriam ficar com os braços cruzados, esperando essa gente voltar pro poder em 2018.”

E eu sempre tive consciência que o golpe não fechava, se o Lula pudesse ser candidato, o golpe não fechava. Porque, qual é a razão, sabe, de derrubar um governo, um partido político, e dois anos depois esse governo e esse partido juntar as mesmas forças políticas e ganhar as eleições?

Não podia fechar. Então a sentença de ontem, ela tem um componente político muito forte. e eu obviamente que não vou entrar nos componentes jurídicos, porque tudo que eu tenho lido até agora e tudo que eu tenho ouvido é que o juiz Moro passou praticamente escrevendo 60 páginas pra se justificar da condenação. Em que praticamente, de 900 e não sei quantos parágrafos, ele utilizou 5 da defesa e me parece que não havia nenhum interesse.”

Curitiba e o dedo da mídia

“Vocês estão lembrados de que quando eu fui prestar o meu depoimento (ATM:10 de maio), isso tá gravado, eu tinha pedido pro Moro autorizar que a imprensa divulgasse o meu pronunciamento ao vivo. Não foi possível, porque eu queria que o povo visse a cara dele, queria que vissem as caras dos promotores. Não apenas a minha.

Mas não foi possível, mas foi divulgado e vocês viram que eu disse o seguinte:

“Olha, você não pode me absolver, não tem como. Ou seja, o que vocês já falaram até agora, o que a Imprensa já me condenou até agora, só do Jornal Nacional foram 20 horas.”

Você veja que os tucanos não aguentaram uma capa da Veja, caiu todos. Eu tenho não sei quantas capas de revista, 50 e não sei quantas, mais a do final de semana que devem ser todas da minha cara outra vez, e mais 20 horas de Jornal Nacional.”

As convicções e o contexto

“(…) O powerpoint permeou todo o comportamento deles, e eu já cansei de falar e vocês sabem. Eles diziam que o PT era uma organização criminosa, que o PT se preparou para ganhar do governo, para ganhar do governo e roubar e o Lula era o chefe.

A partir daí, eles não precisavam mais nada, era a teoria do domínio do fato. Utilizada de forma moderna com a palavra “contexto”, que o juiz Moro utilizava muitas vezes a palavra “contexto”. Obviamente que o Moro, ele não tem que prestar contas pra mim, eu acho que ele tem que prestar contas para a História, como eu devo prestar conta pra História.

A História, na verdade, é quem vai dizer quem tá certo e quem tá errado. Eu continuo afirmando pra vocês que não é possível a gente ter um Estado Democrático de Direito, se a gente não acreditar na Justiça. E por essa crença que eu tenho no Estado de Direito e numa Justiça forte, é que a Justiça não pode mentir.”

Apelo às provas

“Ela (ATM: A Justiça) não pode tomar decisões políticas, ela tem que tomar decisão baseada nos autos. E olha que nós trabalhamos. Porque a única prova que existe nesse processo, de não sei quantas mil páginas, é a prova da minha inocência.

Eu queria fazer um apelo a Imprensa, um apelo ao povo brasileiro, se alguém tiver uma prova contra mim por favor, diga. Mande pra Justiça, mande pra Suprema Corte, mande pra Imprensa, porque eu preciso. Eu ficaria mais feliz se eu fosse condenado com base numa prova. Que eles me desmascararem. “Tá aqui ó, você realmente cometeu um erro.” O que me deixa indignado, mas sem perder a ternura, é você perceber que você tá sendo vítima de um grupo de pessoas que contaram a primeira mentira e vão passar a vida inteira mentindo pra poder justificar a primeira mentira que contaram, de que o Lula era dono e um triplex.”

A multa e a vaquinha

“Não sou dono de um triplex, não tenho triplex e ainda fui multado em 700 mil reais. Porque agora o triplex é da União. Eles tomaram o triplex e eu tenho que pagar 700 mil reais pra Petrobrás. Eles poderiam me dar o triplex, eu vendia o triplex e pagava a multa. Senão, o que vai acontecer, é que nós vamos fazer que nem arrecadação de dízimo. Pra vocês inclusive, pra imprensa democrática, passar um saquinho , você depositar um dinheiro e eu pagar uma multa de um triplex que não é meu.”

O arbítrio e o recurso da verdade

“E tem mais outros processos desse mesmo jeito. Vocês vão ouvir falar muito de processos iguaizinhos a esse, então eu queria dizer pra vocês que a minha indignação como cidadão brasileiro não me faz perder a crença de que nesse país ainda existe justiça.

Por isso nós vamos recorrer em todas as instâncias de todas as arbitrariedades. Eu acho que inclusive é preciso a gente processar essa sentença no Conselho Nacional de Justiça. É preciso a gente fazer processo contra quem mentir, contra quem não disser a verdade nesse país. Porque cada vez que eu vou prestar um depoimento eu digo: só eu tenho interesse na verdade aqui.

Agora mesmo eu fui prestar um depoimento e o procurador falou assim pra mim “Não, o senhor não precisa prestar como testemunha, porque como testemunha você é obrigado a falar a verdade. Você pode prestar como informante”. Eu falei “Não, eu quero prestar como testemunha porque eu vim aqui pra falar a verdade. Quem queria que eu falasse como informante é porque não queria que eu dissesse a verdade.”

O jogo é jogado

“Se alguém pensa que com essa sentença me tiraram do jogo, podem saber que eu to no jogo.

(…) Quero dizer ao meu partido que eu até agora não tinha reivindicado, mas a partir de agora eu vou reivindicar do PT o direito de me colocar como postulante a candidatura a presidência da República.”

(…) Eu não sei se isso é pro bem ou pro mal, mas você vai ter um pré-candidato com um problema jurídico nas costas e eu tenho que fazer duas brigas. Primeiro brigar juridicamente pra ganhar o direito de ser candidato, segundo brigar dentro do PT pra ganhar o apoio do PT, terceiro, brigar, sabe, a boa briga, a boa luta democrática nas ruas pra convencer a sociedade.

(…) Quem tem direito de decretar o meu fim é o povo brasileiro.”

O Brasil do golpe e a crise das instituições

“Eu, na verdade, gostaria de estar aqui hoje nessa mesa, Gleisi (ATM: Hoffmann, senadora pelo Paraná e presidente do PT) , no auditório principal do meu partido, com tantas pessoas importantes aqui, discutindo a situação do Brasil. Discutindo a situação política do Brasil. A situação econômica do Brasil. O descrédito das instituições desse país, a começar pelo Poder Executivo. Discutindo o golpe dentro do golpe, que até agora…você sabe me explicar por que que a Globo quer dar um golpe dentro do golpe!?  

E, pra gente deixar claro, que o mesmo golpe a gente não quer dar no Temer, a gente quer eleições diretas, a gente quer votar legalmente e a gente quer que ele saia com uma votação de uma emenda constitucional dentro do Congresso (…).

Porque, quando o povo escolher um candidato, uma candidata, o povo passa a ser o responsável pelos acertos e pelos erros.”

Competência pra cuidar do povo

(…) Se eles acabaram de destruir tudo o que foi construído de direito dos trabalhadores desde 1943; se eles estão tentando destruir a conquista dos trabalhadores mais a previdência social; se eles estão tentando destruir a indústria nacional, estão tentando destruir a coisa mais simples que nós criamos, que é o componente nacional, pra que a gente possa desenvolver uma industria nacional. Se eles estão tentando destruir a Petrobras; se eles estão tentando destruir as empresas de engenharia, porque não sabem o que fazer, eu queria dizer: senhoras da casa-grande, permitam que alguém da senzala faça o que vocês não têm competência de fazer neste país.

Permita que alguém cuide desse povo, porque este povo não está precisando ser governado pela elite. Esse povo tá precisando ser governado por alguém que conheça a alma dele, por alguém que saiba o que é fome, o desemprego, por alguém que saiba o que que é a vida dura que leva o povo pobre desse país.

E eu quero terminar dizendo o seguinte, sabe, quando esse país não tiver mais jeito, sabe, quando os economistas de direita não tiver mais solução, por favor, permita que a gente coloque o pobre no orçamento outra vez. O pobre do orçamento, Damião, o pobre no mundo que trabalha, o pobre recebendo salário, o pobre recebendo crédito; que a gente faz esse país voltar a crescer, faz o povo voltar a sorrir e faz o povo voltar a ter o otimismo que tinha todo tempo que nós governamos esse país.”

Aqui a íntegra do discurso.

Ouça o áudio da coletiva, capturado pela Radioagência Brasil de Fato: garimpado e gentilmente enviado pelo colega Olímpio Cruz Neto, junto com a transcrição.

 

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Texto revisto e atualizado às 22:28hs para agregar linques e o vídeo da coletiva de Lula; substituição de palavras repetidas.


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