Concentração de renda e desigualdade, o abismo social brasileiro

Recorte – Foto: Tuca Vieira/Oxfam Brasil
por Sulamita Esteliam

Serão a riqueza e a pobreza desígnios divinos ou as diferenças sociais se baseiam na tal da meritocracia? Tenho para mim que, antes, são fruto da avareza e do egoísmo dos homens, da falta de igualdade de oportunidades, além da cegueira dos governantes.

Dados do relatório da ONG britânica Oxfam sobre a concentração de renda e a desigualdade social no Brasil esfregam na nossa cara o absurdo do desnível a que estamos submetidos, desde sempre; mas agora muito mais que em tempos recentes.

Em resumo, os números, baseados em 2016 revelam: os seis brasileiros mais ricos detêm fortuna equivalente ao que somam os 100 milhões de brasileiros mais pobres.

Significa que a meia dúzia de nababos, como diria minha tia Mundica, podem gastar 1 milhão de reais por dia, juntos, que teriam 36 anos para defenestrar seu patrimônio.

Enquanto isso, os 23% da população que recebem um salário minimo por mês, ou R$ 936 mil, levariam quatro anos para ganhar o equivalente ao que o 1% mais rico percebe em apenas um mês. Vale dizer, teriam que trabalhar 19 anos para atingir o mesmo nível de renda que os habitantes do topo.

Bom lembrar que a grande maioria dos brasileiros, seis em cada dez, tem renda de até R$ 792 por mês, de acordo com a última Pnad/2015. E 80% da população, ou 165 milhões de pessoas, dispõem de renda inferior a dois salários mínimos mensais.

O desnível da pirâmide é abissal e obsceno: a parcela mais rica se resume a 5% dos brasileiros e amealha a mesma riqueza dos 95% da base somados.

A desigualdade se aprofunda quando se faz o recorte de gênero e cor: a prevalecer a tendência das duas últimas décadas, mulheres terão sua renda equiparada à dos homens em 2047 e os negros ganharão o mesmo que os brancos em 2089.

Não é uma beleza?

O estudo mostra o porquê somos um país que se arrasta e se mantém entre os mais desiguais do planeta. A despeito da evolução de anos recentes, quando políticas públicas como o Bolsa Família, retiraram milhões da miséria, mas sem mexer na estrutura que reproduz a concentração de riqueza e, portanto, da desigualdade.

Fato é que o 1% mais rico acumula fortuna baseada na herança e multiplicada no rentismo, praticamente inatingíveis pelo sistema perverso de tributação. Abocanha, em média, 25% de toda a renda do País.

O pobre e a classe média pagam mais impostos do que os milionários, pois são cobrados no consumo e no salário, não têm para onde correr.

Resulta em que a maioria absoluta chacoalhe entre a miséria e a sobrevivência. O que inclui acesso diferenciado aos serviços de educação e saúde, obrigações do Estado.

Isso sem contar que, apenas em 2017, estima-se que 3,6 milhões de pessoas tenham caído novamente na pobreza extrema. E o Brasil caiu 19 posições no ranking mundial de desigualdade, voltando a figurar dentre os 10 mais desiguais; até mesmo na América Latina, onde só perde, no quesito, para a Colômbia e Honduras.

Fruto do golpe parlamentar-juridico-midiático ancorado da classe média midiota e abduzida pelo pato amarelo. Obra do desgoverno e da ponte para o abismo.

Os cortes nos investimentos sociais e de infraestrutura, a entrega do patrimônio público e o desmonte das empresas nacionais, a queda no nível de emprego forma; tudo isso tem seus reflexos visíveis nas ruas, com o aumento vertiginoso de sem-tetos, dos famintos e no avanço inexorável dos índices de violência.

Clique para ler a íntegra do relatório.

Transcrevo a reportagem de Carta Capital a respeito:

Seis brasileiros têm a mesma riqueza que os 100 milhões mais pobres

Relatório da Oxfam também mostrou que os 5% mais ricos detêm a mesma fatia de renda que os demais 95% da população
Cena do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, em 2014. A pobreza diminuiu, mas a desigualdade ainda é aterradora – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Um novo relatório da ONG britânica Oxfam a respeito da desigualdade social no Brasil mostra que os seis brasileiros mais ricos concentram a mesma riqueza que os 100 milhões de brasileiros mais pobres. Os dados estão no relatório A Distância Que Nos Une, lançado nesta segunda-feira 25 pela Oxfam Brasil. 

A conclusão tem origem em um cálculo feito pela própria ONG, que compara os dados do informe Global Wealth Databook 2016, elaborado pelo banco suíço Credit Suisse, e a lista das pessoas mais ricas do mundo produzida pela revista Forbes.

Segundo a Forbes, Jorge Paulo Lemann (AB Inbev), Joseph Safra (Banco Safra), Marcel Hermmann Telles (AB Inbev), Carlos Alberto Sicupira (AB Inbev), Eduardo Saverin (Facebook) e Ermirio Pereira de Moraes (Grupo Votorantim) têm, juntos, uma fortuna acumulada de 88,8 bilhões de dólares, equivalente a 277 bilhões de reais atualmente.

A Oxfam lembra em seu relatório que, ao longo das últimas décadas, o Brasil conseguiu elevar a base da pirâmide social, retirando milhões da pobreza, mas que os níveis de desigualdade ainda são alarmantes. “Apesar de avanços, nosso país não conseguiu sair da lista dos países mais desiguais do mundo. O ritmo tem sido muito lento e mais de 16 milhões de brasileiros ainda vivem abaixo da linha da pobreza”, explica Katia Maia, diretora-executiva da ONG.

Segundo o estudo da ONG, entre 2000 e 2016, o número de bilionários brasileiros aumentou de aproximadamente 10 para 31. Em conjunto, eles possuem um patrimônio de mais de 135 bilhões de dólares. Mais da metade dos bilionários (52%) herdou patrimônio da família, o que revela a incapacidade do Estado brasileiro de desconcentrar a riqueza – algo que sistemas tributários mais progressivos, como visto em países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), podem ajudar a fazer.

Na outra ponta, estimativas para os próximos anos são ruins para o Brasil a respeito da pobreza. Segundo o Banco Mundial, só em 2017 até 3,6 milhões de pessoas devem cair outra vez na pobreza.

Para a diretora da Oxfam Brasil, essa situação é inadmissível e precisa ser enfrentada por todos para que realmente seja solucionada. “Existe uma distância absurda entre a maior parte da população brasileira e o 1% mais rico, não apenas em relação à renda e riqueza, mas também em relação ao acesso a serviços básicos como saúde e educação. Atacar essa questão é responsabilidade de todos”, afirma.

Ainda segundo a ONG, uma pessoa que recebe um salário mínimo mensal levaria quatro anos trabalhando para ganhar o mesmo que o 1% mais rico ganha em média, em um mês, e 19 anos para equiparar um mês de renda média do 0,1% mais rico. 

O relatório estima ainda que as mulheres terão equiparação de renda com homens somente em 2047 e os negros ganharão o mesmo que brancos somente em 2089, mantida a tendência dos últimos 20 anos. Pelo ritmo atual, o Brasil vai demorar 35 anos para alcançar o atual nível de desigualdade de renda do Uruguai e 75 anos para chegarmos ao patamar atual do Reino Unido, se mantivermos o ritmo médio de redução anual de desigualdades de renda observado desde 1988.

Também segundo a Oxfam, os 5% mais ricos detêm a mesma fatia de renda que os demais 95% da população.


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