Tire suas escolhas, seu cavalo de troia, do nosso caminho

por Sulamita Esteliam

Estupro é crime. Aborto é direito. Religião é escolha. Parir também o é.  Nosso útero é laico, assim como do ponto de vista constitucional, o Estado é laico, ou deveria ser.

Mas não é porque vivemos sob golpe permanente que uns e outros podem esfregar seus tabus religiosos na nossa cara e, hipocritamente, nos impor suas frustrações. Por que de hipocrisia se trata.

Provavelmente, poucos ou nenhum dos 18 que votaram a favor do cavalo de troia, num projeto que visava ampliar direito das mulheres mães de prematuros, resistem a uma boa investigação em suas folhas corridas; em particular se se tratar de comportamento, sexual em especial.

Exemplo disso é o tal deputado-pastor, Marcos Feliciano, que carrega acusação de estuprador. Outro exemplo, é o prócer da moralidade bíblica, Magno Malta, que leva a sério a máxima “faça o que eu digo e não olhe o que eu faço”.

O autor da emenda cavalo de troia, Jorge Tadeu Mudalen (DEM) não tem processos criminais, mas votou pelo impeachment fraudulento e pelo arquivamento do pedido de abertura de investigação contra o mordomo usurpador. Da mesma forma, tem votado sistematicamente contra os direitos sociais.

Obrigar uma mulher a ter um filho fruto de um estupro é mais do que crueldade, é falta de pudor, de espírito cristão, pura misoginia.

Sim, essa raça odeia mulher, menos quando ela é submissa à vontade de seus donos. Mulher boa é para ser usada para satisfazer seus desejos, quando e como bem se lhes aprouver.

Mulher só é boa para fazer sua comida e lambança, lavar suas meias e cuecas, além de seus filhos. Quieta e calada. Se morrer, é acidente de percurso; bota-se outra ou, quiçá, outro no lugar.

A PEC 181  é um aberração fraudulenta e desumana.

E foi contra isso que as mulheres foram às ruas no 13 de novembro em 24 cidades do Brasil. É pelo direito de escolha, mas também pelas vidas das mulheres, que morrem feito formigas nas fábricas de anjos espalhadas país afora.

São mais de um milhão de abortos clandestinos por ano aqui neste território da hipocrisia e do cinismo.

Sim, porque mesmo proibido por lei, as mulheres continuam abortando, e morrendo – as mulheres pobres, que não têm como pagar um aborto seguro.

E agora, até as exceções, como no caso de gravidez originária de estupro, estão suprimidas para quem está fora do topo da pirâmide social; ou seja, a grande e imensa maioria.

Pois é Euzinha ouso resumir o que nos vai no peito: tire suas escolhas do nosso caminho, pois queremos passar com nossa dor.

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Postagem revista e atualizada às 22:26hs, hora do Recife: correção de pontuação em diferentes parágrafos.


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