Dignidade é coisa de preto e de preta1,

por Sulamita Esteliam

Sim, tem sido difícil para mim manter regularidade na atualização do blogue. Meus limites, até há pouco tempo bem elásticos, têm encolhido aceleradamente, muito além do que Euzinha gostaria de admitir.

Conheço-me muito bem para saber que não são apenas o acúmulo de afazeres domésticos e difusos cuidados familiares, o avanço da idade e/ou os intercursos eventuais na saúde os motivos que explicam a abstinência forçada ou voluntária.

É que o andar da carruagem Brasil me revolve as vísceras e embrulha o estômago, mantendo-me em estado quase permanente de indisposição. Aí, preciso de um tempo para deglutir ou vomitar.

Creio que não se trata de problema de excesso de sensibilidade. Qualquer brasileira ou brasileiro, com um mínimo de bom senso e capacidade de desviar o olhar do umbigo, há que estar enojado com essa viagem que é um pesadelo coletivo.

Se não tanto, pelo menos algo envergonhados por, e se, em passado recente, ter batido panelas e gritado “fora, Dilma” e “fora, PT”; ou mesmo ter ficado na conveniente posição de espectador, vendo a banda passar.

A omissão é também uma forma de exercer a política, só que perniciosa.

Mesmo com todos os equívocos desses governos, e eles os há, a despeito dos avanços históricos para um país de tradição escravista, com uma elite torpe e uma classe média triste, no geral.

Ainda que alguns não escapem o apego ao poder e não tenha resistido à falha do desvio das facilidades próprias de quem pratica a máxima de que o que é público é de ninguém, ou dos privilegiados, quando deveria ser de todos.

Mas, atire a primeira pedra, mesmos os julgadores de plantão e os assemelhados, aqueles que não se permitem à dúvida, e tergiversam na comparação, plenos de certezas. Semi-deuses de dedo em riste, mas que, provavelmente, não resistem ao olhar profundo, ainda que posem de  incólumes.

Somos pois uma nação de convictos.

O bloqueio ainda não foi capaz de transformar-me em avestruz, felizmente. E cá estou de volta ao caminho.

Escolho, todavia, escrever sobre Naiara, uma bela moça, inteligente, esforçada, preparada e focada em seus objetivos, que gostei muito de conhecer e que hospedei no final da semana passada. Veio ao Recife para fazer prova em concurso para a Justiça Federal. Quer, e vai, ser juíza.

Por essas coincidências da vida, é o mesmo concurso que trouxe à capital pernambucana minha sobrinha e afilhada, Natália, igualmente moça bela, inteligente, esforçada, preparada e focada em seus objetivos. Ela também se propõe, e tem tudo para vir a ser juíza.

Ambas jovens maduras em sua condição humana. A diferença é que esta já dispõe de vida estável de funcionária federal concursada, enquanto aquela, cinco anos mais nova, busca seu lugar no olimpo de um Judiciário que não difere do que sempre foi, apenas ora mais exposto em suas vulnerabilidades. O que não quer dizer que todos sejam iguais, muito menos perante a lei.

Os deuses estão nus, e não é porque são jovens – alguns – que a cena seja bonita de se ver. Confio em que as duas moças em pauta sejam exceções. As instituições e a democracia agradecem.

Há outras várias diferenças entre as duas candidatas a juíza, mas a principal é que Naiara é negra.  E tem a exata consciência do que significa ser mulher negra no Brasil do racismo mal disfarçado.

Foi criada e treinada, desde pequenina, para exercer sua negritude com dignidade e pertencimento; portanto, para identificar situações e atitudes racistas e não baixar a cabeça.

É o que se espera de quem, negro ou negra, nasça a 20 de novembro e carregue um sorriso largo e franco.

Naiara também é de classe média, como cresceu minha sobrinha, embora sejamos todos de origem simples. Também é mineira de nascimento, vem de família mineira, nasceu em Belo Horizonte. Mas foi criada no interior do Goiás e mora em Goiania, a capital de um estado agrário, conservador em sua maioria – para dizer o mínimo – e branco.

“Sempre fui a única negra na sala de aula; no colégio e na faculdade. É lugar de branco.”

A observação se opõe à insinuação de que é também um lugar de indígenas. Era, mas foram dizimados nas fronteiras de expansão bandeirante ainda no período colonial.

Provavelmente, como acontece em Minas e outros cantos do País, os que restaram estão aculturados  e inseridos no mercado de trabalho como mão de obra barata para não padecer da miséria, assim como se deu com os pretos trazidos da África e seus descendentes em sua maioria.

Os pais de Naiara são negros, e negros eram seus avós e ancestrais. Não se permitem ilusões sobre sua condição de negros aos olhos da sociedade, pois enxergam muito bem “onde o racismo se esconde” ou se mostra. A propósito, leia o texto de Juliana Gonçalves no The Intercept Brasil.

Migraram para o interior do Goiás. O pai era um executivo de mineradora, e a família foi morar num condomínio classe média confortável, imagino que destinado aos funcionários graduados da empresa – e que, muito provavelmente, não perdoavam ter um negro entre seus pares.

As famílias habitantes do condomínio, também não.

“Minha mãe conta que, nos fins de semana, quando ela entrava na piscina, as pessoas saíam.”

Naiara, ela própria, assim como a personagem do texto citado um pouco acima, coleciona histórias de preconceito e discriminação, de racismo velado ou explícito, a contar.

Recentemente, foi a uma loja de um shopping local para substituir a lente de um óculos de marca clássica que a irmã ganhara do namorado e, inadvertidamente, ela Naiara, deixara cair e quebrar. Teve que aguardar alguns dias a substituição da peça e foi avisada por telefone, quando ficou pronto.

O gerente que a atendera da primeira vez, com amabilidade profissional, não estava na loja. A moça que a recebeu parecia inexperiente e deixou cair várias vezes o miniparafuso que ajusta a lente ao aro. Por três vezes Naiara pegou a pequena peça e o devolveu à atendente.

Na quarta vez, a moça não se conteve, e saiu-se com a frase: “Que droga, estou fazendo serviço de preto…”

Imediatamente, Naiara se sentou e cruzou os braços encarando a atendente, que teve que reconhecer o parafuso no chão. Só aí se apercebeu do desplante que acabara de protagonizar. Corou, mas já era tarde.

Consciência, postura, talento, respeito e dignidade, cidadania. Isso é coisa de preto.

Viva Naiara e sua família!

Salve Zumbi, e salve Dandara, e todos os nossos ancestrais – que eles hay, hay…

Sim, antes que algum desavisado me bombardeie…

Como diz Thaís Helena, prima de Naiara e minha sobrinha de coração, que está de idade nova desde ontem – saúde, querida! -, Euzinha sou “preta com vitiligo”.

*******

Postagemr evista e atualizada em 23.11.2017, às 9:01hs, hora do Recife: inclusão da palavra “média” após a palavra “classe” no sétimo parágrafo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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