Festa no velório e malas desaparecidas: eu também quero…

por Sulamita Esteliam

Sempre digo que não tenho medo da morte nem ao menos de morrer, mas que ainda quero ficar bom tempo por aqui. Mais uns 25 anos tá de bom tamanho.

Já terei colhido bisnetos e ultrapassado a idade que minhas avós partiram desta para a melhor; e quase empatado, um cabelinho de sapo para mais ou para menos, com três tias longevas já encantadas.

Todavia, se há uma coisa que me deixa em pânico é a possibilidade de vir a ser enterrada. De repente, não morri de todo e acabado, e acordo no breu dos sete palmos sob terra.  Deus me livre guarde!

Então, já espalhei dentre os meus chegados que me cremem, pelo amor… Ou volto para puxar a perna de cada um e cada uma que desdenhar da minha escolha.

Também não chorem por mim. Quero muita cantoria, muito samba, rock e maracatu.

Podem até acender vela para iluminar meu caminho, mas, por favor, cantem, dancem e bebam.

Quero ser bebida de corpo presente, em festa que celebre minha passagem, muitíssimo bem vivida, por este plano. Pode crer que estarei bem feliz, onde quer que esteja.

O resumo da ópera que me coube estrelar me diz, quiçá, que meu carma está resgatado. Aqui não volto mais, a não ser como borboleta, livre e efêmera.

Pois digo que morro e não vejo tudo.

Não, não me refiro à certidão da PF de Brasília dando conta de que faltam duas malas das nove que foram apreendidas em Salvador, no bunker do peemedebista Geddel Vieira Lima, quase três meses atrás…

Ora, ora… o que são duas malinhas perto de um helicóptero com com quase 500 kg de pasta-base!? Ninguém sabe, ninguém viu.

Não, é quase nada! Dólar e real em profusão, coisa na casa dos R$ 50 milhões convertidos de verde para azul.

E dá uma coceira… que fiel depositário algum pode ser culpado de pecar pela tentação de arrestar um bocadinho.

E Euzinha aqui, contando caraminguás para fechar as contas do mês.

Quem nasceu pra lagartixa nunca chega a jacaré…

Fazer o quê? Vivemos um tempo e lugar em que mala de dinheiro de propina não se constitui prova. Consistentes são as convicções de acordo com o freguês.

E quem discorda que vá reclamar com o papa, porque está tudo dominado.

Um militante empedernido, que jamais imaginei ver depondo armas, questiona e responde no Twitter:

“A quem recorrer (….)!? Ninguém, só tem o povo.”

Mas e o povo, cadê!?

Então, não há porque se espantar de Euzinha querer festa ao invés de choro e ladainha em meu velório. Pelo menos na despedida a gente merece o refresco de uma boa greia, brincadeira em bom pernambuquês.

Meu amigo Ruy Sarinho concorda, endossa e descreve cenário, enredo e coreografia para o próprio velório. Não resisto e compartilho:

“Apois, no meu, podem chegar a Serenata Luar de Olinda, Mãe Nete com seu Chileno de Iaiá do Galpão do Vira, de Dois Unidos, Dito de Oxóissi do Afoxé Ilé de Egbá, do Alto José do Pinho, Cirlene Menezes cantando forró com aquelas coxas lindas em vestido de chita decotado, Zeca do Rolete e seu coco de Roda, Maestro Oséas e seu Frevo da Banda Henrique Dias e da Orquestra FrevoOlinda, Tális Ribeiro  cantando sua linda Rio Capibaribe, Lia de Itamaracá botando o defunto no meio de sua Ciranda, Caboclinhos de Carijós, de França da poesia rotulada marginal…

Que se aprocheguem os desvalidos invisíveis do Mercado da Madalena e da Rendondeza do Centro de Convenções de Salgadinho. Que cheguem cheios de cachaça Duda, Maria de Fátima, Láhar, Luciano, Dudé, Peixe, Jair… e quem mais quiser, de bom grado.

Que só não me deixe adentrar no recinto nenhum pastor vigarista com a bíblia debaixo do sovaco, querendo encomendar o dito cujo. Pode até chegar crente besta, enganado por esse pastor. 

Padre? … Um que goste de festa, de cultura, de povo, padre de esquerda feito Frei Aluisio Fragoso, Reginado do Morro da Conceição ou Zezito, cria de Dom Miguel Viebig, do São Bento; pode se aprochegar pra suas orações, de mãos dadas com a poesia e a cultura popular.

Claudinha, chora não! Entra nesse coco-frevo-ciranda-maracatu=afoxé pra animar teu defunto veio safado.

E a filharada, que entre na dança das nossas raízes culturais e na luta pela Democracia, sem os coxinhas que esconderam os cabos de suas panelas ninguém sabe adonde. 

Amém.”

Bora explicar: toda essa pantomima verborrágica sobre a morte se deve a um vídeo que circula pelas redes sociais; vem acoplado a um diálogo ou, quase, piada. Ruy me enviou:

– Amor vc tá onde?

– Tô no velório de um amigo.

– E esse barulho de seresta, desgraçado? (carinhas furiosas)

– É no velório, amor!

– Inventa outra desculpa, misera!

– Vou te mandar o vídeo:

Não se sabe onde se deu a efeméride. Nem Ruy e muito menos Euzinha podemos informar. Ele só sabe dizer que recebeu de um amigo, poeta e radialista, de Custódia, no Sertão do Moxotó, em Pernambuco.

Mas que carpideiras, que nada! O que importa, nas suas palavras, é que “beberam o defunto numa festa boa que só a gota”.

 


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