Depois da folia, a intervenção que já chega trôpega

por Sulamita Esteliam

Depois da folia, vem a tempestade.

No pós-Carnaval em que o usurpador golpista e sua trupe que desgoverna o Brasil foram tratados como merecem.

Nas ruas de cabo a rabo, por foliões, blocos e troças. Do Oiapoque ao Chui.

No sambódromo, quando a Tuiuti, vice que reina no coração do povo, ao contrário de seu personagem, escancarou geral com a desfaçatez do golpe no lombo da nossa gente. A humilde , principalmente. Conforme este blogue já anunciara em janeiro.

“Não sou escravo de nenhum senhor.”

E a Beija-flor, no diapasão de que o problema do país é a roubalheira – só dos políticos – acabou beija-globo, como o 0,1% do desempate o comprova.

Ai, como amo o Renato Aroeira!

Eis que o desgoverno decreta intervenção federal na área de segurança. Decreto o Congresso tem que validar. Mas a coisa é para valer a partir desta sexta-feira, 16.

Ou não.

Por que a Constituição diz em seu artigo 60 que, sob intervenção federal em qualquer unidade da federação, não se pode emendar a Carta Magna.

No meio do caminho dos tanques tem uma contra-reforma da Previdência.

Então…

Até para inovar essa raça se contradiz.

Não há segurança num país sob golpe de Estado e em processo de desmantelamento amplo, geral e irrestrito.

O resto é conversa para boi dormir.

Ou como define o próprio general Braga Neto, nomeado interventor: o problema do Rio de segurança não é muito ruim, é de…

 “Muita mídia.”

Para quem sabe ler…

Ou como esconder a incompetência política e administrativa, colocando um bode na sala.

Ou é mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que aprovar o desmonte da Previdência?

Ou os militares são os últimos redutos da elite civil tupiniquim, tacanha e golpista pela própria natureza.

Ou estamos no limiar da volta ao começo de 1964?

Ou ninguém respeita a Constituição.

Ou quem manda no País é a Globo e seus irmãos marinhos siameses?

Ou tudo isso junto e misturado, a nos remeter à eterna pergunta de Cazuza: “Que País é este!?”

Três frases que li nas redes sociais e na blogosfera, para mim, resumem a intervenção federal desastrada e desastrosa:

  1. “Problemas de segurança pública se resolvem com inteligência.”  Análise de professores da FGV – Fundação Getúlio Vargas. Reproduzo mais abaixo.
  2. “Primeiro, vem a intervenção militar. Depois, disciplina obrigatória de Educação Moral e Cívica.” Observação da colega e professora Valéria Said, no Facebook.
  3. “Ainda bem que não vivemos em uma democracia. Se assim fosse, a República iria chorar de desgosto.” Resumo da ópera pelo colega e cientista político Leonardo Sakamoto, em seu blogue.

Eis as questões, e o texto referido mais acima:

“Intervenção no RJ é tiro no pé: problemas de segurança pública se resolvem com inteligência”, dizem professores da FGV

Rafael Alcadipani, professor do Departamento de Administração da FGVSP e membro do Forum Brasileiro de Segurança Pública, e Marco Antonio Carvalho Teixeira, cientista político e professor do departamento de Gestão Pública da FGVSP, escreveram um belo artigo sobre a intervenção no Rio no Estadão:

Diante do crescimento da violência que ganhou mais visibilidade durante o carnaval e após a desastrosa entrevista do governador alegando que não estava preparado para enfrenta-la, o Governo Temer decidiu adotar uma solução nunca antes implementada no país, apesar de guardar semelhança com o problema no Espírito Santo em 2002 que não se traduziu em intervenção federal: decretar a intervenção federal na área Segurança Pública do Rio de Janeiro. Diante do ineditismo desta decisão pouco ainda se sabe como a medida será operacionalizada no cotidiano.

Até o momento o que está claro é que um general passará a comandar a Segurança Pública carioca, chefiando as polícias civil e militar, além do corpo de bombeiros. Do ponto de vista político, esta parece ter sido uma solução astuta para que se enterre de vez a proposta de Reforma da Previdência sem muito alarde ao colocar o pedido de Intervenção como foco do Congresso Nacional e do governo federal. O pedido de intervenção federal passa a ter preferência de pauta sobre qualquer outro assunto que esteja na fila de votação. Como a medida é polêmica e certamente vai gerar muita controvérsia, a Reforma da Previdência certamente será esquecida até o período eleitoral pelo menos. Ou seja, nesse momento o governo perdeu esse embate sem ter que mostrar publicamente que foi derrotado.

Por outro lado, o Presidente Temer fornece uma resposta popular ao problema de Segurança num estado em que ele tem seus piores índices de impopularidade e onde Jair Bolsonaro surfa na crise com a retórica da violência para ganhar votos. Afinal parte da população acredita que para se resolver o problema é preciso combater o crime organizado com armas e que o Exército teria este potencial. Esse é um jogo de alto risco para a democracia e que deve alimentar os sonhos de grupos minoritários que já defendem publicamente o intervencionismo militar em outras áreas, inclusive na política.

Porém, do ponto de vista da segurança pública o tiro pode sair pela culatra. Primeiro, generais não são preparados e não estão acostumados a lidar com problemas de Segurança Pública. O próprio Comandante do Exército, General Vilas Boas, já declarou inúmeras vezes que esta não é a função do Exército e vê com preocupação o crescente emprego das tropas federais para lidar com o problema. Os casos do México e da Colômbia nos mostram que quando as tropas militares federais vão para as ruas cuidar de Segurança Pública a chance de se corromperem e não conseguirem resolver a situação é significativa. Aliás, o emprego das Forças Armadas para lidar com a questão da segurança no Rio de Janeiro já acontece há anos sem que tenha havido qualquer melhoria. (…)

Problemas de Segurança Pública se resolvem com inteligência. É preciso sufocar economicamente o crime organizado a ponto de eliminar alguma influencia que ele tenha junto aos poderes do Estado. O Rio de Janeiro é a prova viva de que a Guerra contra as Drogas nos moldes até o momento existentes fracassou. É urgente que o Brasil pense de forma ousada e regulamente o mercado das drogas. O Rio de Janeiro poderia ser um laboratório para este experimento. É fundamental, ainda, melhorar as condições de trabalho dos policiais valorizando as suas carreiras.

Afora essas questões, é preciso agir para melhorar a educação e demais serviços públicos nas áreas vulneráveis para que o crime deixe de ser uma opção tão fácil para tantas pessoas. Onde os serviços públicos estão deteriorados tais grupos agem para promover algum bem-estar, como ocorreu recentemente em episódios de vacinação contra a febre amarela. A intervenção federal na Segurança Pública do Rio de Janeiro pode se tornar uma medida tão drástica quanto inócua. Não será na força que iremos resolver o problema de Segurança Pública. Isso só acontecerá quando considerarmos a Segurança como um problema de várias esferas do Estado e dos Poderes da República e que precisa ser lidado mais com inteligência.

*******

Postagem revista e atualizada dia 19.02.2018, às 9:41h: supressão de redundâncias.


Um comentário sobre “Depois da folia, a intervenção que já chega trôpega

  1. Fuzis nas ruas do Rio de Janeiro ou seja lá onde for não vão resolver o problema, mas agravá-lo. As FFAA já participaram de operações no combate ao crime organizado no Rio de Janeiro, e de nada adiantou, foi inútil.

    A solução para os problemas de violência no país passa pela implementação de políticas sociais mais arrojadas que atendam ao menos às necessidades básicas das populações em situação de pobreza extrema, amenizando-lhes, de forma efetiva e duradoura, a dor da fome, da miséria e da exclusão social.

    Conforme se pode inferir do artigo em tela, esta não é meramente uma intervenção federal decretada para combater o crime no RJ, mas um primeiro passo para uma intervenção federal em todo o país, o que suprimiria as eleições presidenciais deste ano e manteria no Poder os usurpadores – Temer e seu bando !!

    Parece ser este o plano do grupo político que assaltou o Poder: criar um clima de pânico e instabilidade crítica a fim de legitimar uma intervenção militar mais abrangente, que inclua todas as capitais, para assim permanecer no Poder sem o voto popular, suspendendo-se as eleições populares.

    É como se estivessem voltando a nós os fantasmas de um passado recente, protagonistas de um regime totalitário e sanguinário por 21 anos, o qual resultou na morte, tortura e desaparecimento de milhares de brasileiros que bravamente lutaram contra a tirania nefasta dos generais nos “anos de chumbo”. Um período de trevas e dor para o país, que começa a se desenhar outra vez no Brasil.

    “A história se repete como farsa”, e cá estamos nós mais uma vez prestes a ingressar em um novo período de tormento, retrocesso e incertezas, marcado que poderá ser por dias ainda mais difíceis e sombrios para o povo brasileiro.

    A democracia só se realiza de forma plena quando o povo está no comando. Mas pelo visto – Temer e seu bando – pretendem suspender as eleições presidenciais que se avizinham para se perpetuarem no poder sem o voto do povo nas urnas, o que seria, como de fato está sendo, um verdadeiro desastre para o país.

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