Luzes, um poema de Pedro Tierra e alguns dedinhos de esperança para Lula livre

por Sulamita Esteliam

 

Emocionante a cerimônia das velas no Acampamento Lula Livre, em Curitiba na noite desta sexta-feira: “Luzes para Lula”.

O 21 de abril este ano cai num sábado, quando se completam duas semanas do encarceramento inconstitucional de Lula, condenado sem crime e sem prova e sem o devido processo legal.

Aliás, a convicção que o tornou prisioneiro político está desmascarada no vídeodo triplex que não lhe pertence, nem é de luxo, é lixo; e que corre mundo, a nos envergonhar um tanto mais.

Em qualquer lugar descente, onde a Justiça não seja instrumento de manobra política, o julgamento de Luiz Inácio Lula da Silva seria nulo de pronto e pleno direito.

Todavia, às vésperas da data em que os brasileiros são instados a se lembrar do que são capazes os poderosos de plantão para manter seus privilégios,  quero fechar a semana com três, não, quatro dedinhos de esperança.

Afinal, como bem disse o frei capuchinho, Ederson Queiroz, de Patrocínio (MG), durante a pequena celebração e roda de orações que conduziu a Esquina Democrática Olga Benário, em Curitiba, nesta sexta:

“Não podemos aceitar o que estão fazendo com o nosso país. Somos filhos da benção, não da maldição.”

O primeiro dedinho é o refrão que importa, cantado a pleno pulmões por um coro de gente que não teme a luta, pois quem sabe faz a hora, já cantou outro poeta. E revolução também se faz com poesia. Endurecer, sem perder a ternura, lembra-se?

 “Estamos todos juntos, sozinhos nunca estive. Lula vale a luta, queremos Lula Livre…”

Boa-noite, bom-dia, Lula! #LulaLivre!

Ando comovida como o diabo, e faz tempo.  Definitivamente, este Brasil não é para cardíacos. Sorte é que não me incluo entre eles, e também sou do tipo que não desiste, quase nunca.

Não obstante, não assisto TV, de espécie alguma, a não ser por dever de ofício, quando é o caso. Ou se estou em casa alheia e não tenho como escapar.

Portanto, não vejo a Globo, e muito menos o BBB. Mas estou nas redes sociais, e às vezes os apelos são irresistíveis.  E aqui vai o segundo dedinho.

O vídeo com a vencedora do famigerado programa global clamando por “Lula Livre”.

E ao vivo! Não tem preço.

Gleice Damasceno, 23 anos, ao deixar a casa e comemorar a vitória com seus familiares, foi informada pelo irmão de que Lula está preso. Daí, a manifestação.

É claro que o vídeo bombou nas redes sociais. E motivou uns e outros a pegarem carona na vitória e na espontaneidade da garota, claramente simpatizante do PT. Memes e cartões com a imagem da campeã do reality show com seus amados, Lula e Dilma, compartilhados nos perfis pessoais de ambos.

Sinto muito para quem dorme em rede esplêndida, como uma certa Marina, conterrânea de Gleice.

Aí você, em sua ignorância iluminada, vai atrás de saber quem é essa garota Gleice, que, além de negra é de origem humilde. E descobre que é militante dos direitos humanos e trabalhou na Secretaria da Juventude no Acre, estado governado pelo PT.

Grande garota. Certamente saberá fazer bom uso do dinheiro que, afinal, fez por merecer.

O terceiro dedinho vem em dose dupla: os dois velhinhos, Leonardo Boff, 79 e Adolfo Perez Esquivel, 86, plantados na porteira da Polícia Federal para visitar outro um pouco menos velho, 72.

Poderia ser seu pai, seu avô, seu irmão, seu tio. É de partir o coração. Deveria matar de vergonha quem os submeteu a situação de tal espécie, contrariando todos os princípios legais.

Mais, nos obriga a questionar o tipo de formação as escolas de Direito brasileiras estão dando a seus graduandos. Tão somente tecnicismos, ou como interpretar a lei em favor de suas convicções ideológicas ou identidades de classe? E o humanismo, aonde foi parar!?

Não caibo em mim de indignação, tamanha a desfaçatez, e tenho conversado muito com meu companheiro a respeito. Ouço suas ponderações, mas não encontro respostas que não o punitivismo seletivo e exarcerbado, que se coloca no papel de desconhecer, não princípios, mas o próprio diploma legal, que é a Constituição.

Será que o fato de serem competentes no aprendizado específico, a ponto de cumprir o que deles se exige nos concursos públicos, e eventualmente se destacarem, pois que aprovados – de uma ou de outra forma –  os torna uma espécie de deuses.

Mais, tal sapiência lhes dá licença para enxergar o mundo e mudar a vida das pessoas pela sua lente restrita?

É como diz o amigo Fernando Brito, do Tijolaço, a quem não me canso de referir: “O símbolo é mais forte do que o fato”.

Assista ao recado emocionado e emocionante de Boff, e resoluto e estimulante de Esquivel:

Aliás, além da indicação de Lula para Nobel da Paz, o Prêmio 1980 segue denunciando ao mundo que Lula é prisioneiro político.

Em seu sítio na Internet, o ativista argentino publicou a carta que deixou para ser entregue a Lula, nesta quinta, impedido que foi pela juíza da Vara de Execuções Penais, de visitar o amigo. Mesmo sendo quem é, um Prêmio Nobel da Paz.

Por último, o dedinho poético, para fazer valer a máxima do revolucionário da Frente de Libertação da Palestina, citado por Mia Couto ao presidente do PT de Curitiba: a revolução precisa de poesia.

Esta é do Pedro Tierra, conhecido e amado poeta militante petista.  Foi-me enviada por Elma Almeida, uma das minhas amigas-irmãs jornalistas,  minha eterna fada madrinha, ora dedicada às artes holísticas no Planalto Central.

Lágrimas, quantas eu tiver, as chorarei…  Mas

Foto: reprodução

A Noite chegou tarde

 

Pedro Tierra*

“Você me prende vivo, eu escapo morto. De repente, olha eu de novo… perturbando a paz, exigindo o troco…”

Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro.

***

O reverso da madrugada bate à tua porta.

Mais uma vez. Como há quarenta anos.

Com o nó dos dedos desta noite

que insiste em revogar os códigos do tempo

e prolonga sua aspiração à eternidade.

***

Há quarenta anos vem polindo algemas.

Com os olhos atentos

de quem te acompanha

por tantos desertos,

em tantas batalhas,

acendo a suspeita:

a Noite chegou tarde

ao encontro que todos esperavam…

***

A esta altura, você já é

a própria madrugada,

luz intangível que emana

para alimentar esperanças:

***

Impossível cercar com algemas

os pulsos da madrugada.

Homens vestidos de preto,

sob as ordens de outros tantos,

igualmente vestidos de preto

te conduzem a Curitiba.

Julgam que você lê um livro

no silêncio da cela. E se enganam.

Você está no alto da página de um jornal,

em Nova Iorque, sob a neblina de Londres,

aos pés de Luís de Camões, em Lisboa,

na Puerta del Sol, em Madri.

***

Não suspeitam, os homens de preto,

que a Universidade de Rosário

te confere nessa hora

o título de Doutor Honoris Causa…

Você desembarca em Roma,

Berlim, Moscou ou no alarido de Beijing…

Anda por uma rua de Paris

que se despede do inverno,

acenando flores ainda indecisas

para tecer a irrevogável primavera

que se anuncia.

Você roda pelo sul do país,

sob o fogo das carabinas

ou no Eixo Norte da transposição,

rebatizado em Monteiro, na Paraíba.

Ali o São Francisco lança água

e esperança

nos olhos de teus irmãos.

***

Você chama o país a S. Bernardo,

para devolver São Bernardo ao país:

os sentidos de S. Bernardo,

os sonhos de S. Bernardo.

E avisa:

“não se aprisionam os nossos sonhos” .

***

Hoje você foi visto, finalmente…

agitando bandeiras na cobertura

de um certo tríplex, no Guarujá…

e expôs a fraude da sentença

que te condena

e a verdade que te absolverá.

***

A vida é breve para uma luta tão longa.

Não basta uma vida para tantas batalhas.

“Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria…”

repetem há 200 anos as montanhas de Minas…

A vida, há que multiplicá-la por tantos

quantos forem teus filhos vivos.

***

Nossa palavra será o teu alimento.

Devolvemos a você,

raiz e destino de nossas esperanças,

a força de sua voz rouca

que nos ecoa no coração,

com a ternura rabiscada na letra incerta

das crianças, dos peões ou das mulheres do povo

que te escrevem – garrafas ao mar… –

mensagens de acender

amor em dias de indignação.

***

O amor em tempos sombrios,

nos ensina a soprar sob as cinzas

as brasas sagradas da cólera…

***

*Pedro Tierra é poeta. Militante do Partido dos Trabalhadores.

Acampamento “Lula Livre”, Brasília, antevéspera do 21 de abril.

 

 

 

 


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