Descaso e desfaçatez, a máquina de fazer tragédias no Brasil

por Sulamita Esteliam

Ermínia Maricato, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, tem uma definição apropriada para a atitude de atribuir às vítimas a culpa pela sua desgraça: “desfaçatez”.

É o caso da interpretação de políticos, aqueles com o rabo preso na máquina de fazer tragédias, não apenas em São Paulo, e da mídia venal.

A fala de Maricato pode ser ouvida na Rádio Brasil Atual, transcrita pelo sítio da agência de mídia alternativa, que também edita a revista Brasil Atual, a partir da capital paulista.

Ela lembra que levantamento do IPT – Instituto de Ciências Tecnológicas, de 2010, dá conta do tamanho do problema: São Paulo tinha, à época, tinha 115 mil pessoas em moradias de risco, seja por enchentes, incêndios ou deslizamento.

A dimensão da tragédia, no entanto, é zilhões de vezes maior, quando se trata de Brasil. É este o enfoque, aliás, do artigo do Jânio de Freitas na edição de hoje da Folha SP.

Escreve o colega, com a precisão que lhe é peculiar. Transcrevo um trecho, clique para ler a íntegra, via Tijolaço:

“Diz-se, com base no IBGE, que há coisa de 8 milhões de imóveis desocupados no Brasil. E uns 7 milhões de famílias, bem mais de 20 milhões de pessoas, sofrendo o eufemismo “déficit habitacional”. Não crer nesses números é uma sugestão amigável.

Moradias desocupadas, como as lojas, na crise e no desemprego multiplicaram-se em uma forma de denúncia involuntária do desastre que a direita, a certa altura, achou prudente silenciar. Os números de famílias e pessoas não incluem os que sobrevivem, entre a precariedade e a miséria total de seu teto e seu chão, em locais onde pesquisadores não entram.

(…)

O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, MTST, não nasceu só para chatear. Tem causa como origem e causa como razão de ser.

As ocupações no centro de São Paulo não aumentaram à toa, em menos de cinco anos, de 42 para 70. Nem ocorrem e aumentam só aí. São frutos ácidos da tragédia social e de descaso governamental. Frutos estes, por sua vez, da lucrativa sociedade entre poder público e poder privado que desgraça o Brasil.

Os governos Lula e Dilma foram os primeiros a dedicar verbas e esforços de fato significativos à redução da carência de moradias com as condições básicas da dignidade humana. A constatação, porém, de uma qualquer deficiência em algum das centenas de milhares de imóveis entregues é motivo de escarcéu impresso e em telas, com a responsabilização dos dois governantes, não das construtoras que seguiram a praxe de roubar no material e na obra.”

A lembrar que o desgoverno golpista contribui fortemente para o agravamento do problema.  De 2015 a 2017, reduziu em 83% o subsídio do financiamento para moradias populares  no programa Minha Casa Minha Vida. As principais prejudicadas são as pessoas com renda até R$ 1.800, que se enquadram na faixa 1 do MCMV.

Descaso é outra palavra que acompanha as tragédias.

Registre-se, por outro lado, que a RBA faz cobertura exemplar do desastre que deixou desabrigadas 150 famílias, cerca de 400 pessoas, que ocupavam o Edifício Wilton Paes de Almeida, na região do Ipiranga, no Centro de São Paulo.

O prédio veio abaixo no 1º de maio, depois de incêndio cujas causas ainda não estão esclarecidas. Também não se sabe ao certo o número de vítimas fatais, pois a cada dia cresce a quantidade de desaparecidos.

Até o momento, não há solução para acolhimento dos sobreviventes, entregues à própria sorte.

Em reunião com deputados das comissões de Habitação e de Direitos Humanos da Câmara Federal, nesta quinta, a Prefeitura de São Paulo prometeu “solução definitiva” para as pessoas desabrigadas em 30 dias.

Não obstante, definiu vistoria nas cerca de 70 ocupações na cidade, o que é um motivo a mais de preocupação para os movimentos sociais por moradia.

Patrimônio da União, o edifício, que já sediou a Polícia Federal, dentre outros órgãos do governo federal, estava abandonado há mais de 10 anos.

Inclusive, já abrigou os arquivos do Deops – Departamento de Ordem Social e Política, de memória tenebrosa para quem viveu os anos de chumbo pós-1964.

Em local nobre, o prédio já foi símbolo de vanguarda arquitetônica, tanto que era tombado, mas abandonado às intempéries e à corrosão do tempo. E isso é responsabilidade múltipla das três esferas de governo.

Todavia, é evidente também que atiçava a cobiça da especulação imobiliária, dada a sua localização.

Por recomendação expressa do ex-presidente Lula, o PT vai criar um grupo para estudar e incluir soluções para o problema da moradia no programa de governo.

O recado foi transmitido à imprensa pela presidenta do partido, senadora Gleisi Hoffmann, que, finalmente, esteve nesta quinta-feira com Lula, na carceragem da Polícia Federal de Curitiba.

Ela e o ex-governador da Bahia, e ex-ministros nas gestões petistas  são as primeiras visitas de amigos, fora os advogados e familiares, a estar com o ex-presidente, desde a sua prisão em 07 de abril.

Assista ao vídeo:

 

 


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