Ayó! Choveu histórias ancestrais na capital de Minas

por Sulamita Esteliam

Senti muitíssimo não ter conseguido atender ao convite honroso para participar da 4ª edição do Ayó – Encontro Negro de Contação de Histórias, que se deu em Belo Horizonte, nos dois primeiros dias do feriadão. Ainda estava no plantão de avó, a que me dediquei ao longo da semana, e não houve como folgar.

Quem me concedeu a honra foi Madu Costa, escritora e contadora de histórias infantojuvenis, amiga querida. Ela foi uma das curadoras do evento, junto com a equipe que inclui Carlos Barbosa, Chica Reis e Magna Oliveira, que vem a ser a coordenadora regional do Ayó.

Contadores de histórias de diferentes partes de Brasil se reuniram dias 7 e 8, no Sesc Venda Nova, para resgatar a tradição oral africana. A escritora Conceição Evaristo, mineira de Beagá, foi uma das homenageadas. E não faltou cortejos e congada.

Tenho certeza de que foi uma festa linda, poética e energizadora.

A cultura liberta – em livre tradução de Amílcar Cabral, citado por Nathalia Grilo Cipriano, idealizadora e coordenadora-geral de Ayós, no Facebook,.

AYÓ, em Yorubá, quer dizer “exaltação, felicidade”. A família Ayó a define como sendo “um quilombo da tradição oral africana”.

O encontro do próximo ano acontece em São Paulo.

Compartilho verso do mestre Macedo Griot e vídeo capturados em postagem no perfil de Madu no Facebook. Foi o encerramento do Ayó nas Gerais:

“A gente chama Ayó e todos os sopros se encontram! A gente chama Ayó e chovem histórias do céu!” 

PS: Agrego o cordel de Madu Costa, na foto com Carlos Barbosa, tecido especialmente para a edição mineira do Ayó

Cordel  Ayó- Minas

Você sabe o que é ayó?

Pois então vou lhe contar.

É palavra estrangeira

Da língua Yorubá.

O que ela significa?

Eu vou logo lhe explicar

 

Ayó é exaltação

Felicidade no olhar.

De contar nossas histórias

De histórias resgatar.

Histórias do nosso povo.

Daqui e de África.

 

Ayó encontro negro

Nasceu perto do mar.

Lá no Rio de Janeiro

Contos a navegar.

Nas ruas e nos terreiros

Povo negro vem contar.

 

Nasce dentro da cabeça

De uma mulher incrível.

Incomodada e forte.

Ela é Nathália Grilo.

Abre a boca com vontade

Faz soar o negro grito.

 

Negro grito das histórias.

Histórias do nosso povo.

Trazidas pelas avós.

Contadas por nós de novo.

Na roda de uma fogueira.

Acesa em nosso forro.

 

Liberdade pra contar.

Liberdade para ouvir.

Vamos protagonizar.

Nossa história no porvir.

Nós por nós, esse é o lema.

Ninguém vai nos impedir.

 

Ayó, encontro negro.

Está na quarta edição.

Espalhando nossa história.

Remexendo a emoção.

Emoção que não se esgota.

Transformada em ação.

 

A primeira edição

Lá no Rio aconteceu.

De forma bem autônoma.

Forte filho, ali nasceu.

Ao chamado do seu povo

Voz firme obedeceu.

 

Ayó bem alimentado.

De força. De raça e fé.

Com desejo e atitude

Ayó sempre está de pé.

Povo negro conta junto.

Seja lá onde estiver.

 

Em Pedra de Guaratiba

Lá no Rio de Janeiro.

Em São Paulo, capital.

Onde tiver um terreiro.

E na quarta edição.

O quintal é bem mineiro.

 

Vamos homenagear.

Nas lendárias terras mineiras.

Pessoas cheias de axé

Nascidas em nosso terreiro.

No  SESC VENDA NOVA.

E ecoar no mundo inteiro.

 

Efigênia do Quilombo.

A Conceição Evaristo,

O Olegário Alfredo

Dona Angelina, veja  isso.

A Maria Mazarelo

Pessoas de compromisso.

 

Conceição nossa rainha

Ela é nossa doutora

Cura-nos com a palavra.

Cajado da lutadora.

Nosso orgulho, nossa força.

Conceição, mulher de ouro.

 

O Olegário Alfredo

Homem de mil talentos:

Escritor, cordelista

Luthiê. Fiquem atentos.

É mestre na capoeira.

Ele é grande talento.

 

A Maria Mazzarelo

Dê licença pra eu falar.

Jornalista e editora.

Todos podem comprovar.

Dona da Editora MAZZA.

Povo negro a publicar.

 

Matriarca Efigênia

Do Quilombo é guardiã

É do.Quilombo Manzo

Muiandê nossa irmã.

Mam’etu de Inquissi

Sopra o vento de Iansã.

 

A nossa rainha conga.

É a Dona Angelina.

Não perde a sua coroa

É para sempre rainha.

Na luta pelo resgate.

Viva a rainha Angelina.

 

Minas tem tantos talentos.

Já não dá nem pra contar.

Na música, no teatro.

Na arte de espalhar.

Histórias do povo negro.

Capoeira vem jogar.

 

O Congado, o Moçambique

Marujada, o candomblé.

A umbanda, o batuque

O canto da nossa fé

Heranças africanas

Sempre a nos manter de pé.

 

Nossa herança ancestral

Na cozinha já se vê.

No fogão a lenha

No prato que vai cozer.

Defumado, ou bem cozido.

Cheiro e gosto no prazer.

 

O tropeiro, a feijoada.

O angu e o quiabo.

Um franguinho caipira

Fica bem lá no guisado.

O bom tutu de feijão.

Com cachaça batizado.

 

A gente chama ayó

Sopros vão se encontrar.

Aqui em Belo Horizonte.

Bons ventos, vamos chamar.

Em volta de uma fogueira.

Calor humano no olhar.

 

Ayó encontro negro.

Encontro de celebração.

Povo negro contando

Nossa história com emoção.

Protagonista da história.

Com nossa cosmovisão.

 

Ayó é alegria.

Ayó é exaltação.

Remédio pra nossa cura

Reforça nossa canção.

Canção de um povo de luta.

Contra discriminação.

 

Todos unidos na roda

Herança bem ancestral

A palavra, nossa arma.

Estratégia sem igual.

Vencendo nossa batalha

Estatística desigual.

 

Do mar para as montanhas

Sopro de ayó viajou.

Encontro negro de histórias

Ao seu ouvido chegou.

Cada um contou seu conto

Todo mundo se animou.

.

Minas, palco da história.

Minas, terra de aconchego.

Nas montanhas, cachoeiras,

Nos rios, morros, ladeiras.

Histórias em pedregulhos

Histórias nas ribanceiras.

 

Nossa hospitalidade.

Belo Horizonte é demais.

Caipira capital.

No asfalto ou nos quintais

Saudações, Minas Gerais.

Ninguém te esquece jamais.

 

Salve o nosso pão de queijo.

Goiabada, doce de leite.

Salve o jeitinho mineiro

O sorriso e o deleite.

Salve o nosso mineres

Quem num intende, que se ajeite..

 

Sapassadofuinaroça

Fuipidiparapôpó.

Pramodefazêcafé.

Pramimepraminhavó.

Boteitudonobalaio.

Etomeimunumgolissó.

 

E se você não intendeu

Pergunte para o mineiro.

Ele pode traduzir

E explicar por inteiro.

Essa fala diferente.

É também nosso tempero.

 

Agradeço sua atenção.

Agradeço sua presença.

Eu agora vou embora.

E agradeço a audiência.

Volte sempre em nossa terra.

Não precisa de licença.

 

Madu Costa/ Cordel criado especialmente para a edição mineira do ayó.
Belo Horizonte, 18 de julho de 2018

*******

Postagem revista e atualizada em 11.09.2018, às 8:11 horas: inclusão do cordel e da foto que o acompanha.


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