Arte e indignação em sinfonia política em Beagá: ‘Quem Ama, Não Mata!’

por Sulamita Esteliam

Minha amiga-irmã Eneida da Costa me envia material sobre o Ato Quem Ama, que acontece em Beagá, nesta sexta-feira, a partir das 18:00 horas, na Praça Afonso Arinos, em frente à Faculdade de Direito da UFMG. Só então vi que havia sido marcada na convocação do evento, no Facebook, por Vilma Fazito.

O local escolhido para o evento público é simbólico. Carrega o peso, em todos os sentidos, da resistência ao arbítrio em tempos nebulosos – passado e presente a enevoar nosso futuro.

E o formato desenhado para o ato configura a amplitude da resistência:  “arte e indignação”. Que, define a organização – o Movimento Quem Ama Não Mata -, traduzem “uma sinfonia política”.

Entreatos feminista, político e cultural.  Divide-se em quatro movimentos que articula falas contundentes com apresentações artísticas de diferentes expressões.

Falas curtas de representação plural: mulheres trabalhadoras rurais, UFMG, mulheres trans, OAB, Rede Afro LGBT, Casa do Jornalista, dentre outras, de vários segmentos sociais. E, sábia decisão, apresentações artísticas dialogam com o contexto das falas.

Por exemplo, Wilma Henriques, a dama do teatro mineiro, com mais de 80 anos e em cadeira de roda, interpreta um trecho da peça A prostituta respeitosa, de Jean Paul Sartre, levada aos palcos por ela mesma, em 1977; logo após a fala da representante da Associação das Profissionais do Sexo.

O artista Nélio Rodrigues projeta em um telão nomes e imagens das mulheres assassinadas por seus companheiros ao longo dos últimos 50 anos.

Performances criticam a cobertura da mídia sobre os crimes de feminicídio, e a artista plástica Zi Reis intervém num grande painel instalado no local.

Há um manifesto Quem Ama Não Mata a ser lido no evento, depois do que, Júlia Blanco, fenômeno de mídia na cena musical-feminista, se apresenta.

Artistas do projeto Preta Poeta, as dançarinas do Vogue e outras também se apresentam. Música eletrônica sob o comando das DJs Sandra Nascimento e Aline. apresentação de Cinara Bruno e Samira Ávila.  Tudo sob a direção de Adyr Assumpção e produção de Nely Rosa.

Você pode até se perguntar: mas por que isso agora?

Ora, o Brasil é 5º na lista dos países que mais matam mulheres, simplesmente por que são mulheres. Os dados são do Mapa da Violência de 2015, com dados comparativos de 1980 a 2013.

Mas os números seguem crescentes, o que não melhora nossa moral nem a posição no rol internacional de feminicídio. A despeito da Lei Maria da Penha (11.340/2006) e da Lei do Feminicídio (Lei 3.104/2015).

Trata-se, também, do resgate do movimento inaugurado pelas mulheres mineiras, as feministas, em 1980. No de frase pichada nos muros do Colégio Pio 12: “Se se ama, não se mata”, em protesto contra o assassinato de duas mulheres de classe média em Belo Horizonte naquele ano e nos seguintes.

Daí, Quem Ama Não Mata, que repercutiu nacionalmente, a partir de protesto nas escadarias da Igreja São José, no centro da capital mineira. Lembro-me que cobri protestos do movimento, creio que em 1981, pela extinta Revista Manchete, quando do assassinato de Maria Regina Souza Rocha.

A convocação para o evento atual, resgata assim a história do século passado:

“Os jornais chamavam de “crimes passionais”. Os advogados alegavam “legítima defesa da honra”. E as mulheres continuavam sendo assassinadas por seus companheiros, que seguiam impunes. Em 1980, em plena ditadura militar, um grupo de mulheres mineiras realizou um ato público nas escadarias da Igreja São José, no centro de BH, para denunciar a violência específica sofrida por mulheres. O ato reuniu cerca de 400 mulheres de várias idades, e inscreveu as questões de gênero na agenda de discussões da redemocratização do país.

Caiu o regime militar, foram criadas as Delegacias de Mulheres, a Lei Maria da Penha, a lei que reconhece como tal o feminicídio, entre outras conquistas, mas a violência contra as mulheres permanece – e cresce, especialmente sobre corpos negros.” 

Sim, o coletivo Jornalistas Livres traz reportagem dessa memória, me avisa o amigo Aloísio Morais.

Digo que já havia postado o baner do evento desta sexta no Instagram. A intenção era buscar informações para uma publicação aqui no blogue. Mas a verdade é que ando, propositalmente, meio desligada; tática de saúde mental. Sorte é que tenho anjos da guarda pelos quatro cantos do mundo… Obrigada, caras e caro amigxs.

 

Foto; memôria capturada no evento/Facebook

 

 

 


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