Entrevista: Afonso Chaves e os 50 dias que abalam o Brasil

por Sulamita Esteliam

Nesta entrevista, o professor Afonso Chaves, doutor em Sociologia e mestre em Ciências Políticas, analisa o Brasil da “nova era”, seus transtornos e perspectivas. Essencial para compreender o cenário “regressivo, nunca dantes experimentado, ao menos desde a redemocratização”, que atravessamos. 

Um “desmonte capitaneado pela força do Dinheiro”, e que não começou agora.

Simbólica a “violência da linguagem”. Sustenta o “nenhum apreço aos valores republicanos, às mediações democráticas e nenhum pudor em combater explicitamente a Constituição e o Estado de Direito”, nas palavras do professor.

A entrevista integra a série que o A Tal Mineira iniciou em janeiro, mas teve interromper por problemas de estrutura e disponibilidade das fontes contactadas.

Era para ser publicada na quinta-feira que passou. Mas, entrevistadora e entrevistado foram atropelados pelas respectivas agendas, vazando responsabilidades por todas as bordas.

Afonso, é professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião/UNICAP – Universidade Católica de Pernambuco e também coordena a Especialização em Ciência Política da mesma universidade.

Usou brechas entre seus compromissos de analisar múltiplas teses para responder as perguntas, que esta velha escriba encaminhou por correio eletrônico, exatamente por falta de espaço na agenda. Sou muito grata pelo seu empenho em atender o blogue.

Euzinha, andei abduzida pela dona Maria, requisitada para obrigações familiares. Passei três dias na cozinha preparando o jantar de despedida de solteira da nossa caçula, Bárbara e seu escolhido, Arthur. 

O fim de semana foi para recompor as forças, a despeito da energia boa da celebração, embora estritamente em família. Tempos bicudos impõem escolhas.

Não obstante, é bom ver a cria feliz com sua decisão, e disposta a encarar os desafios de uma nova  vida ao lado do homem com quem escolheu partilhar os caminhos da vida adulta.

E vamos ao que interessa , pois que o tempo não para. 

ENTREVISTA/AFONSO CHAVES

Afonso Chaves, sociólogo e cientista político, professor de pós-graduação e especialização na Unicap: ‘É preciso manter a imaginação política para enfrentar essa adversidade, formular um projeto viável, ser capaz de traduzir à população e encontrar estratégias de mobilização’

A Tal Mineira – Os primeiro 50 dias de Brasil “Novo” sinalizam que tipo de mudança no modo de fazer política?

Afonso Chaves – Tomando a cultura política do país em termos de longa duração não há novidade alguma, visto que nossa longa trajetória de mando sempre esteve nas mãos ou dos donos do dinheiro, diretamente, ou de seus representantes, como é o caso de agora. Entretanto, há especificidade no modo como atua o governo atual. Pelo menos desde a redemocratização nenhum governante foi tão abertamente regressivo em seu discurso. Não há nenhum apreço aos valores republicanos, às mediações democráticas e nenhum pudor em combater explicitamente a Constituição e o Estado de Direito. Não seria possível esperar outra coisa, visto que a trajetória de Bolsonaro foi construída a partir da negação dos princípios que elenquei acima, enaltecendo a ditadura, fazendo o elogio da tortura e de torturador e se colocando em contraste com os direitos humanos. Sua equipe é extensão de seus atributos. Veja somente a recente declaração de seu ministro do Meio Ambiente que tentou minimizar o significado histórico e toda a força política de Chico Mendes. Outra particularidade é a violência presente na linguagem. O governo tomou posse e o tom agressivo para se referir à oposição, minorias e todo e qualquer sinal de emancipação humana continua sendo posto em prática. Outro aspecto que chama atenção é o despreparo da equipe. Deve ser lembrado o episódio em que o Ministério da Educação, em nota oficial – é de pasmar – acusou um colunista da mídia corporativa de agente da KGB. Na verdade, nesses dois meses há, pelo menos de minha parte, o sentimento de que o governo ainda não começou e por todos os desencontros que estamos vendo, corre sério risco de não começar nunca.

ATM – Alguma surpresa na maneira de lidar com a coisa pública? O que se pode esperar das demais instituições da república?

Afonso – Esse é um governo que vem demarcando claramente uma linha divisória entre amigos e inimigos. E os amigos que vêm aparecendo não aparentam ser as melhores figuras. Cada vez mais a relação da família Bolsonaro com as milícias vai se demonstrando estreita. Já foi levantado, inclusive, indícios de que o conflito do clã com o ministro Bebianno decorre de um possível enfrentamento deste com um grupo de milicianos no Rio, o que teria irritado os Bolsonaros. Essa intrusão e influência da família nos assuntos do governo é outra demonstração de que há uma troca entre interesse por interesse privado. Outro exemplo dessa divisão entre amigo/inimigo é a atuação do ministro Sergio Moro. Implacável com supostos erros, alguns, como sabemos, não provados até o momento, de agentes políticos pertencentes ao espectro ideológico diferente do seu, tem se calado sobre todos esses episódios que circundam o governo a que serve. Não teve nenhum pudor em afirmar que mandará investigar o Bebianno porque o presidente mandou. As demais instituições da República, em sua maioria e nos seus núcleos centrais de comando, têm servido a esse projeto de apropriação direta do mercado sobre o Estado, da aniquilação de pobres e minorias, de perseguição à esquerda.

ATM – Há quem creia que estejamos vivendo a era da mediocridade, concorda?

Afonso – Nosso nível de consciência e participação políticas nunca foi dos melhores e todos nós sabemos disso. Depois, a noção conservadora de que o mundo é uma conformação natural ou divina sempre foi vitoriosa. Em um cenário de criminalização da política e de evidente enfraquecimento da representação política há uma brecha considerável para que ideias fundamentalistas e preconceituosas ganhem espaço, bem como indivíduos que encarnem isso. Mais ainda pelo fato de que hoje as redes sociais fazem circular tudo isso com uma rapidez incalculável. Com isso, esse imaginário conservador se vê representado em certas figuras; se reconhece nelas. A ascensão de Bolsonaro ao governo é também, em certa medida, a chegada desse imaginário e desse indivíduo comum.

ATM – Chegamos até aqui cavalgando a revolta ou o complexo de vira-latas?

Afonso – Penso que nenhum dos dois termos são satisfatórios para exprimir o que estamos atravessando. O primeiro, por uma imprecisão conceitual. O segundo, por se apresentar acompanhado de seletividade. O eleitorado que afirma está cansado de tanta corrupção foi capaz de eleger uma representação política que em nada nos faz crer que tratarão a coisa pública com lisura. Basta ver de onde vêm e os interesses que representam. Nesse aspecto, o mais importante é identificar que esse cenário de indignação seletiva foi em boa medida construído em torno da criminalização da política, almejando golpear um projeto que, mesmo com ambiguidade e limitação, representava alguma mobilidade social e a tentativa de universalizar direitos.

ATM – A seu ver, há despreparo ou tudo é parte de estratégia muito bem desenhada para confundir? Qual o papel dos militares nesse xadrez?

Afonso – Há um claro despreparo do governo. Se existe uma estratégia da confusão e do despiste, tenha certeza que não se encontra nesses novos agentes políticos que ocupam o núcleo duro do governo. Eles são isso: um misto de incompetência e fundamentalismo. A aposta pela confusão, sendo plausível, seria orquestrada de fora, pelos agentes qualificados do poder econômico que aderiu a esse ajuntamento político esperando que ele implemente as formas que possibilitem maior acumulação, como a capitalização da previdência pelos bancos privados, o desmonte da indústria nacional, o bloqueio de investimento em ciência e tecnologia de base nacional e o enfraquecimento de políticas sociais.

Os militares são numerosos no governo. A aceitação desse papel por parte dos militares e a anuência da sociedade sobre essa presença diz muito sobre o quanto a democracia ainda é um valor pouco apreciado entre nós. Elegemos um governo sob tutela militar. Um espanto em qualquer grande democracia ao redor do mundo. A não punição dos militares pelos crimes da ditadura deixou espaço que voltassem com protagonismo nesse momento. Diante de uma possível queda de Bolsonaro ainda não sabemos como se comportarão. Diante dos passos dados, é possível que não aceitem, pois já disseram claramente que não estão dispostos à volta da esquerda.

ATM – A oposição está preparada para enfrentar o caos ou ela é o próprio caos?

Afonso – A esquerda está enfraquecida. Desde o golpe que tem acumulado derrotas sucessivas e não vem conseguindo construir uma estratégia capaz de mudar o quadro. Por um lado, falta um projeto com consistência e que seja mobilizador, por outro, a grande mídia e as instituições do Estado estão atuando sistematicamente para o impedimento da atuação das forças de esquerda. Todavia, o resultado das eleições de 2018 dá sinais de que é possível uma virada política, pois a candidatura presidencial do PT, a despeito de todas as dificuldades, teve um desempenho nada desprezível.

ATM – A quem serve o desmonte do País? O brasileiro ainda tem como praticar a profissão esperança?

Afonso – O desmonte do país é capitaneado pelo Dinheiro, ou seja, as forças rentistas, que desde a crise de 2008 vem se organizando com muita força para recuperar seu padrão de acumulação. Dilma começou a cair já em 2012 quando resolveu baixar os juros a padrões minimamente razoáveis e não teve força política para tanto. O que está aí foi eleito para aprofundar o interesse do Dinheiro. Ernst Bloch, filósofo marxista dizia que o que caracteriza o ser humano, em termos radicalmente antropológicos, é o de ser concebido como um ser de esperança. Portanto, não podemos abandonar essa nossa condição. É preciso manter a imaginação política para enfrentar essa adversidade, formular um projeto viável, ser capaz de traduzir à população e encontrar estratégias de mobilização.

 

 


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