Carnavalizar, o verbo da resistência num País de insanidades

 

 

por Sulamita Esteliam

Olinda puxou o coro já nas prévias que vigoram desde o início do ano: “Ai, ai, ai, ai, Bolsonaro é o carai!”. O contraponto é outro hit conhecido, mas bem menos entoado: “Olê, olê, olá, Lula, Lula” , atualizado para Lula Livre!

O coro de indignação supera o da compaixão. Haverá um tempo em que se compreenderá a dimensão de tudo isso.

Fato é que os hits atravessaram janeiro, fevereiro e chegaram a março, ampliados por milhares, em cada bloco, nas ladeiras de Olinda, nas ruas do Recife Antigo e nos transportes coletivos. 

Alguém sem noção, e com interesse implícito, teve a infeliz ideia de botar na rua um boneco gigante do capitão-presidente e de sua mulher. Foram recebidos a vaia, chuva de latas de cerveja e palavrões.

O bonequeiro se disse apavorado com a reação, mas confessa que votou no sujeito que envergonha o País e provoca nas pessoas o que de pior há em suas entranhas.

Muita gente fantasiado de laranja ou com placas perguntando onde está o Queiroz. Todavia, não vi ninguém com fantasia ou portando mamadeiras de pirocas; essa aposta eu perderia fácil, se fosse dada.

Se tudo fosse humor, ele nada seria…

Há que contradite a força da rejeição contida na palavra de ordem carnavalizada, na crença mascu de que “carai” é elogio.

Pode até ser, partindo do princípio de que sexo é coisa boa, e que o membro é parte ativa do processo, ao menos para uma parte das pessoas. Embora seja perfeitamente dispensável para outras tantas.

Se dúvidas há, Beagá se encarregou de explicitar a voz do povo, em toda sua carga. O primeiro vídeo que me chegou foi do gigantesco bloco Então Brilha, que sai de madrugada a partir da antiga zona boêmia da cidade.

Ecoou de cabo a rabo, tornando-se o Hino do Carnaval Brasil afora:  “Ei, Bolsonaro, vai tomar no cu!”

Ainda que tardiamente, a gente perde as estribeiras, com direito a hastag no topo das redes sociais.

Tudo isso sem contar as dezenas de marchinhas e paródias bem-humoradas sobre o laranjal, o Queiroz e os milicianos.

O alvo sentiu a estocada. Ao ponto de, mais uma vez, livrar-se do decoro, que jamais percebeu existir, e postar vídeo escatológico em sua rede social, que ganhou manchetes internacionais.

O britânico The Guardian, não perdoou: “Bolsonaro provoca indignação, nojo e ridicularização”, diz um dos principiais diários da terra da rainha.

No vídeo publicado, explicita o jornal “um homem dá prazer a si mesmo, antes de ser urinado por outro.”

Pornografia explícita é caso de polícia. Ampliada para milhões, torna-se problema político, além de ferir a lei e a honra. No caso, segundo estudiosos da comunicação, é manipulação do ódio levando ao extremo do nonsense.

Só que, a título de desqualificar o protesto com que foi brindado de norte a sul do País, o ora ocupante da Presidência da República pode vir ser alvo de impeachment. É o que prevê  Artigo 85 da Constituição Federal e o Artigo 9º, 7, da Lei 1079/50:

“(…) proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo”.

A atitude requer do Congresso Nacional alguma providência. A ver.

Nem só de pornografia vive o Reinado de Momo, porém. Mas indignação não se poupa e não tem idade.

Até o calunga mais famoso do Brasil, O Homem da Meia Noite, veio às ruas politizado, como ícone da resistência indispensável em tempos de caos: “Juntxs podenis”.

No Sábado de Zé Pereira, dia em que o ex-presidente Lula saiu do cárcere, sob forte escolta, para enterrar seu querido neto Arthur. O menino contraiu meningite meningocócica e foi levado a óbito num hospital da periferia de Santo André.

Em Olinda, um garoto mostra que o recado está perfeitamente absorvido. O que deixa acesa a tênue luz da esperança.

https://www.facebook.com/thiago.soares.7121614/videos/10219278398930589/


Chega a ser engraçado, não fosse irritante, acompanhar o nó na língua dos comentaristas da Globo para não traduzir o óbvio para o telespectador diante do enredo da Paraíso do Tuiuti ,já na madrugada da terça de Carnaval.

Para contar a história do bode Ioiô, vereador eleito em Fortaleza em 1922, a escola trouxe o enredo para a realidade política da Terra Brazilis. Diz a sinopse, que não foi lida no trecho explícito pela Fátima Bernardes nem qualquer outro dos comentaristas globais:

“Vocês que fazem parte dessa massa irão conhecer um mito de verdade: nordestino, barbudo, baixinho, de origem pobre, amado pelos humildes e por intelectuais, incomodou a elite e foi condenado a virar símbolo da identidade de um povo. Um herói da resistência!”

O bode, por óbvio, é Lula, o homem encarcerado para não voltar a presidir o Brasil.

“A peleja entre o bode da resistência e a coxinha ultraconservadora” em uma das últimas alas, trouxe o bode da resistência em contraponto a personagens fantasiados de coxinha e com arma na mão.

No último carro, “O auto de Ioiô: A resistência”, o bode dá um coice num bicho com cara de tanque de guerra. Fecha com a frase “Ninguém solta a mão de ninguém”.

E a arquibancada, ao final, respondeu com Lula Livre!


https://twitter.com/i/status/1102830434243829760

Não consegui ficar acordada para ver a Mangueira campeã homenagear Marielle Franco, em mais um enredo essencialmente político. Pena, mas Olinda me esperava na manhã da terça-feira gorda.

 

 


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