Os efeitos do ‘Em Nome da Filha’ na pauta da Globo, ou quando o jornalismo faz utilidade pública

por Sulamita Esteliam

Para não dizerem que não falei das flores, então, vamos para a segunda parte.

Deu-se na última segunda-feira. Não é todo dia que assuntos desta natureza merecem oito minutos num jornal da Globo, que chamamos de Plim-plim. Ainda que de caráter regional. O Bom Dia PE é visto em todo o Estado de Pernambuco, assim como o são seus similares Brasil afora.

A entrevista ao Bom Dia PE foi ao vivo, em frente ao DPMUL – Departamento de Polícia da Mulher, em bairro do outro lado do Recife em relação ao bairro onde moro. O tema, relacionamento abusivo e feminicídio, crimes de que trata o livro que esta velha escriba acaba de lançar no Recife. Uma história triste, real, mas “uma história de força”, de luta por justiça, pontua a abertura da matéria.

Surpresa! Ao chegar à DPMUL, a repórter Bianka Carvalho, profissional ética e competente, que não via há anos, me conta que não poderíamos tocar no nome de Carlos Antônio de Assis Callou. o antagonista da história.

Uma liminar judicial assim determinara à Globo, com a justificativa de que o homem “já cumpriu pena”. Mas o processo é público, e o caso exemplar.

“Ah, então o homem está vivo e mostra os dentes”, pensei em voz alta.

Pergunto se eu poderia ao menos dizer que ele tinha sido um cabo do Corpo de Bombeiros. A repórter consulta a redação, e sim, não havia restrição nesse sentido na ordem judicial.

Registre-se: a Globo não informou a seus telespectadores da existência da liminar. Alguém me disse que o cabo teria morrido, há alguns anos, atropelado em Olinda. O que não impede que outro alguém com nome idêntico, um filho talvez, tenha sido o autor da representação que resultou na liminar.

E assim começou minha semana imediata após o lançamento do livro que levei cinco anos para pesquisar e escrever e outros 13 para publicar. Quem mandou ser enxerida!?

A emissora me mandou pegar em casa. Quinze para seis da manhã, terminava meu desjejum quando o motorista me ligou: “Em cinco minutos estou na sua porta”. Terminada a entrevista, me trouxe de volta.

Na sexta, o lançamento do livro Em Nome da Filha havia entrado na agenda cultural para o fim de semana. Os advogados do cara são ágeis, e a Justiça dá plantão quando vem ao caso.

No dia 7 de março, véspera do Dia Internacional da Mulher, falei sobre o Em Nome da Filha num debate sobre violência contra mulher na Rádio Paulo Freire, rádio escola levado ao ar por alunos do curso de Jornalismo da UFPE.

Na quarta-feira, 20, o lançamento do livro foi notícia no alternativo Brasil de Fato. E na noite da quinta-feira, 21, o Marco Zero Conteúdo, portal de jornalismo independente publicou ampla reportagem sobre a respeito. Nesta sexta, 29 vai ao ar em bate-papo no programa Movimento da Rádio Jornal AM e FM, com o colega Marcelo Araújo.

Antes de botar os pés de volta em minha casa, na segunda-feira, meu celular fervilhava com avisos de mídia. Nas redes sociais ene recados, com telefones de contato. Tinha, também, algumas gozações. Explico mais abaixo.

Fato é que, em apenas oito minutos consegui ser localizada por gente que Euzinha tentara achar,em vão. Desde que recebi o comunicado da Editora Viseu de que o livro estava pronto, nas versões impressa e ebook, o que aconteceu em meados de novembro de 2018.

Quando a busca resultou inútil, meu companheiro me tranquilizou:

 – Não se preocupe, quando o livro for divulgado, eles acham você.

Sim, isso mesmo, falo da família de Gercina e Mônica, personagens centrais do meu livro. Inclusive e principalmente no que diz respeito ao neto-filho, que Euzinha sempre soube, é um sobrevivente.

Quando liguei para a primeira pessoa que vi nos contatos, e que se identificou como prima de Mônica, sem conter a emoção, ela me contou:

Minha mãe não para de chorar, desde que viu você na TV. Ela é irmã de Mônica. Ela está muito feliz por você ter resgatado essa história, e quer lhe agradecer. Mas está muito, muito emocionada…

A mãe da moça é filha do primeiro casamento de Narciso, o pai de Mônica. Sabia da sua existência, mas não a conheço nem falei com ela durante a produção do livro.

Conversamos já era noite, quando liguei para a filha, conforme o combinado. A mãe se desmanchou em agradecimento “por não deixar essa história morrer, como tanto queria Gercina”. E relatou:

 – Minha filha me chamou para caminhar, mas começou a chover e eu disse que ia ficar em casa para assistir ao Bom-Dia. Aí, ligo a TV e vejo a chamada pro livro, e gritei minha filha de volta: corra para ver, tá na TV a história de Mônica, sua prima…!

Euzinha estava preocupada com o efeito que a surpresa da publicação poderia ter na família, ou o que restou dela, com o impacto que o resgate de história tão dolorida e dolorosa – para todos, mas especialmente para os familiares – causaria entre eles, tantos anos passados. Meu pensamento focava, sobretudo, no neto-filho sobrevivente.

Contava, porém, que ficariam de certa forma contentes em saber que o desejo da matriarca foi respeitado, que não deixei morrer o compromisso assumido com ela, ainda que depois de anos e anos passados.

A resposta é sim e não.

– A notícia nos pegou de surpresa, e dividiu a família. A gente achava que o livro tinha morrido com Gercina.

Foi o que me disse ao telefone o menino sobrevivente, hoje um homem feito, profissional reconhecido e pai de um casal de crianças. Onde estiverem, Gercina e Mônica certamente se orgulham desse rapaz.

Encontrei-me com ele no dia seguinte; para nos reconhecermos, e para entregar-lhe seu exemplar dedicado. Um encontro emocionante, que começou tenso, mas foi se distendendo numa conversa que durou três horas. O maridão fez questão de me acompanhar.

Falamos sobre tudo, recordações e visões de vida, sentimentos e razões, sobre o livro e o que ele representa para a família e para a sociedade. O tempo voou e não percebemos.

Nos despedimos com um abraço e a promessa de que voltaremos a nos encontrar quando eu retornar da jornada de lançamentos fora de Pernambuco.

Detalhe: ele não viu a entrevista, que nos reconectou. A prima, que foi chamada de volta pela mãe para ver o noticiário, o avisou e lhe passou meu Instagran, depois que nos comunicamos.

Eis o vídeo da entrevista:

Toda essa história nos mostra o poder de comunicação da maior dona de concessão pública de radiodifusão no Brasil – para o bem e para o mal.

Nos fala também de como a notícia pode ser de utilidade pública, do direito humano à informação correta, de qualidade e equilibrada, respeitadas as diversidades regionais, culturais e os direitos civis individuais, dos direitos humanos amplamente entendido como tal.

Está no Capítulo V, artigos 220 a 224 da Constituição Federal. Ainda que, 30 anos passados, não tenha merecido a regulamentação devida pelo Congresso. Um debate que os donos da mídia fogem como o diabo da cruz, e tratam de distorcer para chamar de censura toda e qualquer tentativa de regulação.

Quem me conhece e/ou segue este A Tal Mineira sabe que sou ativista pelo direito à comunicação. Sou uma das milhares de pessoas e centenas de militantes que batalharam para colocar o Capítulo V na Constituição Cidadã. Foi a primeira emenda popular inserida via coleta de assinaturas – 1,5 milhão, buscadas pelo movimento nacional dos jornalistas e pelos movimentos sociais.

Por consequência sou uma crítica ácida da emissora dos Marinhos. “Desliga a Globo que o Brasil melhora” é um bordão que uso sem medo de errar, quando se trata de política e economia, sobretudo.

Aliás, a rigor, já há algum tempo, não sobra uma emissora com narrativa ao menos perto do equilíbrio em se tratando dos destinos do país. Manipulam, truncam, embaralham, e o fazem sem pejo, sempre em favor da plutocracia que rege o país e o mundo, e da qual fazem parte a meia dúzia de famílias que controlam a imprensa no país – televisada, falada, escrita e também pela internet.

Por conta disso, há anos deixei de ser telespectadora, leitora no papel e ouvinte da mídia convencional, que defino como venal, também sem medo ou pesar. Euzinha, que já trabalhei no meio, sei como funciona.  Desde muito antes só via o noticiário porque era dever de ofício. Agora me informo pela rede mundial, embora siga produzindo informação, não necessariamente notícia.

Mas e aí, quando você precisa divulgar um evento, uma atividade ou uma causa importante o que você faz? Abre o leque e manda o aviso de pauta para todos os veículos com atuação em seu município ou estado, ou, se for o caso, de caráter nacional, sem exceção; os alternativos e os comerciais.

Por quê? Porque você quer que seu evento, atividade ou causa importante chegue ao maior número de pessoas possível. Se seu evento tem algum nível de importância para a sociedade, ele ganha espaço -, no caso da mídia convencional, desde  que não fira os interesses do dono da emissora, jornal ou sítio eletrônico.

Aos gozadores de plantão, digo que, quando a causa é justa e importante, a cessão de espaço não é privilégio, é obrigação constitucional de quem detém uma concessão pública. E que bom que ainda haja profissionais que conseguem ver notícia onde ela existe e é necessária. Só posso agradecer.

Sim, a César o que é de César: o mesmo Aviso de Pauta que foi enviado à TV Globo Nordeste foi encaminhado a todas as demais emissoras de TV, e rádio também, com operação no Recife.

SERVIÇO:

Lançamento Em Nome da Filha, Editora Viseu, 196 páginas

Disponível também no formato ebook

Para adquirir, clique aqui: ou na foto no alto da coluna à direita deste blogue.

Ou, ainda, entre em contato com a autora, se quiser um exemplar autografado:

Email: sesteliam@gmail.com

Instagran e Twitter: @sulaesteliam

Facebook/Sulamita Esteliam

“““

Postagem revista e atualizada em 29.03.2019 para incluir informação sobre a entrevista à Rádio Jornal e, novamente, em 30.03.019 para referir ao debate sobre o livro na Rádio Paulo Freire.

 


6 comentários sobre “Os efeitos do ‘Em Nome da Filha’ na pauta da Globo, ou quando o jornalismo faz utilidade pública

  1. Excelente, Sula!
    Que você continue sendo essa pessoa inteligente (e profissional idônea e competente) que não tem medo de se colocar ao lado da posição que verdadeiramente cabe ao jornalista e ao comunicador: o da verdade, da neutralidade, da imparcialidade e da justiça. A defesa pelos direitos das minorias é uma causa que precisa de pessoas fortes e corajosas como você.
    Meus parabéns por seu trabalho e por sua sensatez! Você me representa e dá espaço e voz às milhares de mulheres que já foram, são e, infelizmente, ainda podem ser vítimas de relacionamentos tóxicos e abusivos.
    Você é uma artista! O relato consciencioso de fatos polêmicos, significativos, verdadeiros (e muitas vezes por isso censurados) com profissionalismo e valorização merecida sempre foi (e desejo que continue sendo) uma ferramenta para empoderamento das consciências e despertar dos oprimidos.
    Sucesso, minha amiga!!!
    “Tamo junto”, cada uma com seu talento e com muito amor pelo que faz, para somar forças à resistência cultural e política e à contracorrente pelo bem e por liberdade de expressão e de pensamento sempre.
    Forte abraço.

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