Abuso infantil: a crueza da realidade e o estigma do silêncio

por Sulamita Esteliam

Belo Horizonte, minha Macondo de origem, onde passo alguns dias, está às voltas com o horror do abuso infantil. Os jornais e as TVs estampam manchetes sobre uma escola particular conceituada, na Zona Sul da cidade, onde um monitor de Educação Física abusou de um menino de 3 anos. Não é o único caso.

O Brasil vive uma epidemia, triste, trágica e repugnante, inaceitável, de violência sexual contra menores. Não está sozinho. Infelizmente; o fenômeno é mundial.

Estima-se que 300 milhões de crianças vivam em situação de violência no Planeta Terra. E 62% dos abusadores são familiares ou pessoas próximas, Os dados e as imagens subsequentes são da edição especial sobre o tema da revista do projeto Quebrando o Silêncio.

Trata-se de ação educativa e de prevenção anual contra o abuso e a violência doméstica da Igreja Adventista do Sétimo Dia. É direcionada a oito países da América do Sul – Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Equador, Paraguai, Peru e Uruguai – desde o ano de 2002.

Significa que o problema está na humanidade, e é ela que tem que gestar a solução.

Um tipo de prática comum desde os primórdios, mas que antes se encerrava nas quatro paredes do lar sacrossanto. Tabu se quebra na prática, com informação, educação e coragem de agir.

Hoje, além do amparo da lei, os canais de denúncia abrem a possibilidade de investigação e estimulam a quebra do silêncio.

Daí , talvez, a explicação para a multiplicação de casos de violência doméstica e sexual. Disque 100 para abuso infantil. Disque 180 para violência contra a mulher.

Normalmente as meninas são as principais vítimas, muitas vezes do pai, padrasto, tio, irmão, padrinho, amigo de confiança da família.

Em boa parte das vezes, a mãe, a avó, a tia sabem do que acontece, mas escondem. Ou o que é pior, não dá crédito ao relato da criança, ou até culpa a menina ou jovem pelo ocorrido.

A negação da realidade perpetua o abuso.

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2019, uma menina de até 13 anos é estuprada a cada 15 minutos.

O Instituto Sou da Paz está finalizando estudo inédito a respeito, que divulga em breve. Revela o crescimento de 1% no registro de casos de abuso contra menos de 14 anos; isso no primeiro semestre deste ano comparado a igual período de 2018. No geral, todavia, os estupros caíram 2,5%.

Falei sobre abuso infantil na Prosa com o Autor de que participei no 5º FHist – Festival de Histórias Não Contadas, em Diamantina, na quinta-feira, 3. A conversa se deu a propósito do meu último livro Em Nome da Filha, editado pela Viseu, Maringá-PR, que fala de relacionamento abusivo, feminicídio e luta por justiça.

Introduzi o assunto no debate sobre o imperativo de se meter a colher para salvar vidas. Sobre a necessidade absoluta de se quebrar os silêncios de homens e mulheres. Sobre como é fundamental se educar meninos e meninas para a relação parceira, igualitária, de respeito mútuo.

Sobretudo, como é preciso eliminar, desde a raiz a cultura da posse.

Uma plateia atenta e participativa, que me cravou de perguntas e fez relatos de experiências educativas importantes, conduzidas por mulheres, em diferentes partes do Brasil, inclusive na cidade anfitriã. Meu livro vai entrar na roda, e isso me deixa muito feliz e grata.

O assunto estupro, abuso infantil, tem que ser entendido como violência doméstica que é. Certamente a forma mais perversa e pervertida que há: o estupro de vulnerável, menos de 14 anos. Mas não só.

De qualquer forma, é preciso estarmos atentos aos sinais. A criança expressa a anormalidade, ainda que não saiba do que se trate.

Há que se considerar também, o medo das consequências. Não raro o agressor ou agressora ameaça a vítima, caso ela não guarde segredo, estabelece com ela uma cumplicidade que termina por gerar, também, um sentimento de culpa.

É essencial educar meninos e meninas, desde cedo, para contarem à mãe e/ou ao pai qual situação estranha de invasão do seu corpo – desde a aparentemente simples mão boba. Ninguém está autorizado a tocar seu corpo.

Fiz isso com cada uma de minhas filhas, e também com meu filho, desde cedo. Se alguém tocar em você, sobretudo em suas partes íntimas, grite.

Era uma obsessão de quem aprendeu cedo, e sozinha, a escapar de situações abusivas.

Na Agência Patrícia Galvão, leio reportagem publicada no sítio Universa com relato de uma perita criminal, sexóloga do IML de São Paulo.

Bastante elucidativa sobre a crueza da realidade, que precisa ser enfrentada – em casa, nas escolas, nos órgãos públicos de saúde, polícia e justiça, na sociedade.


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