Mãe-Anja e a empatia perdida no delírio coletivo do não-ser…

Van Gogh Starry Ninght/A Noite Estrelada, de Vang Gogh, interpretada por Emile Milne – Foto: capturada no Instagram/Renata Marques
por Sulamita Esteliam

Ser mulher é um capricho de Deus, assim como, “o homem é um adjetivo de Deus”, na tradução da admirável Adélia Prado, conterrânea das Gerais.

Ser mãe é uma condição feminina desafiadora, complexa por natureza, imperfeita por consequência humana.

Daí, supõe-se, a expressão corriqueira, e o sentimento recorrente de que “a culpa é da mãe”, sempre. Ninguém se refere à carga estrutural que a condição impõe, em quaisquer circunstâncias.

Algumas vezes, porém, ser mãe exige condição sobre-humana, quando o Universo, que brinca de Deus, nos coloca no colo seres especiais.

Aí a mulher-mãe se torna Anja em tempo integral.

Conheço várias, acompanho algumas, e bato palmas para todas elas. São escolhidas.

É o caso da colega Renata Marques, uma moça que mora em Carmo do Cajuru, no oeste mineiro. Não nos conhecemos pessoalmente, mas desenvolvemos um elo forte, e por ela tenho admiração profunda.

Sim, amizade virtual, quando dá liga, prospera como manga em terra quente.

A iniciativa do contato foi dela, por zap-zap, em abril, quando do lançamento do Em Nome da Filha, em Beagá. Ela estava na cidade, com o marido e o filho, mas não conseguiu ir, quis me encontrar depois, mas não rolou.

Passamos a nos seguir nas redes sociais. O livro autografado foi pelo Correio; ela leu de um fôlego, segundo disse, e publicou um texto generoso em seu perfil no FB. 

Renata tem um filho autista, e sempre escreve sobre a experiência de ser mãe de uma pessoinha muito delicada, especialmente introvertida. Ser humano excepcional, que a faz desdobrar cada fibra de seu coração e de sua mente.

Dia desses, topei com um texto dela na Instagram, reprodução de artigo publicado em jornal da região. Fala da artificialidade em tempos de Natal, de inclusão, empatia e respeito em tempos cibernéticos, beligerantes e de delírio coletivo.

Pedi para para publicar aqui no A Tal Mineira, e ela prontamente me enviou pelo correio eletrônico. Transcrevo, com algumas adaptações ao tempo e ao meio:

Ainda dá tempo de adicionar empatia na conta de 2019

por Renata Marques – Carmo do Cajuru, MG

Muito se fala de respeito ao próximo, porém vemos diariamente episódios lamentáveis que retratam uma sociedade doente. Um exemplo aconteceu mês passado, quando uma garotinha de sete anos foi exposta na internet com uma expressão clara de constrangimento e tristeza, por um sujeito chamado Mc Gui.

O “cantor”, durante suas férias na Disney, achou que era interessante pegar o celular e fazer uma filmagem zombando da aparência de uma garotinha. A questão é que ele tem 7,7 milhões de seguidores, por isso o assunto teve grande alcance e revolta, mas quem disse que isso não acontece o tempo inteiro no Brasil?

Somos uma sociedade excludente. Há muito ainda que caminhar para que aqueles que não possuem características socialmente comuns sejam aceitos.

Podemos não zombar de alguém, mas perdemos muito em perceber o isolamento do outro e não fazer nada para o incluir.  

Estamos na reta final de 2019. Dezembro chega, juntamente com o clima de confraternização, projetos para o próximo ano, amigos-ocultos etc. Convoco cada um fazer um balanço, como indivíduos que compõem a sociedade, a fim de saber se demos um passo à frente para mudar esse cenário de intolerância.

Quando os comerciais de natal começarem a passar na televisão, com seus contextos apelativos e melancólicos, lembrando a cada um que o ano acabou e que você deve presentear alguém, abraçar alguém; honestamente, você pensaria numa pessoa com as características físicas e sociais que diferem das suas, e que você passou o ano inteiro sem se esforçar para entendê-la uma vez que isso não lhe afeta?

Não adianta encher um cartão de natal com palavras bonitas, se na realidade percebemos o isolamento causado pela identidade excepcional de alguém, e não fazemos nada para mudar isso.

Não precisamos normalizar ninguém, só precisamos respeitar. Isso pode soar como clichê, mas a sociedade não evoluirá se não injetarmos empatia em nossos atos.

Nunca alcançaremos crescimento pessoal enquanto sustentarmos a ideia de que o “problema” não é nosso.

 

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