Viva Petra Costa, viva Bong Jo-Ho, e viva Joaquim Phoenix: somos todos Gothan City

Petra Costa e a equipe de Democracia em Vertigem no tapete vermelho do Oscar 2020 – Foto: reprodução Twiiter da cineasta. Nos cartazes, em inglês: “697 dias sem Marielle”, “pare de invadir terras indígenas” e “resista ao neofacismo”. E em bom português: “Quem mandou matar Marielle?”.
por Sulamita Esteliam

Não, não vou falar sobre o Oscar de Melhor Documentário que Petra Costa não trouxe para o Brasil, a não ser o seguinte o orgulho de traduzir a resistência em arte, com afeto.

Viva, Petra, vitoriosa, sim, por ter feito um filme lindo de uma história trágica, por ter chegado lá, e expor em entrevistas claras, e no tapete vermelho – num simplesmente deslumbrante vestido rubro -, o calvário nosso de cada dia, desde o golpe que violou a nossa democracia engatinhante.

Escrevo apenas pela impossibilidade de silenciar o meu “muito obrigada”, garota. Você honra nosso Gerais e nosso Brasil, apesar de virmos de espaços tão diversos do ponto de vista social.

Apenas, uma introdução sobre o que Petra levou do Brasil para o mundo: o golpe que desmontou um país e massacra sua gente mais necessitada, em boa parte cega e surda sobre o que a trouxe para o fim do fundo.

Mas o Brasil é parte do imenso latifúndio global, o documentário Fábrica Americana. Produzido pelo casal Obama, não perde o mérito por isso, mas escolheu apontar os defeitos da exploração capitalista numa fábrica chinesa.

E o grande vencedor da noite, Parasita, do sul-coreano, Bong Joon-ho, fã confesso de Glauber Rocha, chegou ao Oscar com a Palma de Ouro, de Cannes. E faturou:  melhor filme, diretor, roteiro original e filme internacional.

O tema fala alto e bom tom o que move esta geração de cineastas: o filme trata da desgraceira que a inversão de prioridades, na ótica do capitalismo extremo, levou seu país à beira do precipício.

Somos todos Gothan City.

Cabe a fantasia o próprio “Coringa”, personaficado em Joaquim Phoenix, Oscar de melhor ator. Aplaudido de pé quando coloca o dedo na ferida no discurso de agradecimento:

Talvez por que, como provoca o maridão companheiro –  às vezes incômodo, devo confessar – tenhamos perdido a batalha da comunicação, antes e depois da política.

Perdemos nós a capacidade de falar para as massas? Ou parcela significante das massas é parte do lado obscuro da força que

chamamos humanidade?

Em nome de um falsa moralidade, ou para conquistar na terra aquele tijolinho que deveria plantar no que chamam de céu?

Em nome de Jesus? E não foi ele que expulsou do tempo, a chicotadas e vilipêndios os fariseus, mercadores que usavam a casa de Deus para explorar o povo?

Mente e manipulam como os vendilhões do templo. E o fazem a sangue frio, rindo da manada que os segue apesar de. São vendilhões.

Paro por aqui, porque o fígado grita nas teclinhas.

Deixo um exemplo dos mais tristes, escancarado na notícia de Carta Capital que transcrevo abaixo:

Bolsa Família: governo congela verbas nos 200 municípios mais pobres do País

Uma a cada três cidades mais pobres do País não teve auxílios liberados nos últimos cinco meses

Dados comprovam que um dos efeitos positivos é a diminuição da repetência escolar

O governo Bolsonaro congelou as verbas do Programa Bolsa Família nos 200 municípios de menor renda per capita do País. Um levantamento feito pela Folha de S. Paulo mostra que uma a cada três cidades mais pobres do País não teve auxílios liberados nos últimos cinco meses, com base em dados oficiais de junho a outubro de 2019.

Das 200 cidades, 37 tiveram apenas um novo benefício liberado de junho a outubro. Nos outros 64, houve bloqueio total do programa no período.

Desde o ano passado, a entrada de novos beneficiários no programa passou a ser controlada pelo governo, alegando falta de dinheiro. A fila de espera que havia sido extinta em julho de 2017 voltou e não há previsão de quando pode ser zerada novamente. Em janeiro, cerca de um milhão de famílias aguardam uma resposta do Ministério da Cidadania, em janeiro, para ingressarem no programa.

Sob o governo Bolsonaro, o Bolsa Família – que atende famílias com filhos de 0 a 17 anos e que vivem em situação de extrema pobreza, com renda per capita de até R$89, e pobreza, com renda entre R$ 89,01 e R$ 178 reais por mês – enfrenta o período mais longo de menor entrada de novos beneficiários.

Segundo o Ministério da Cidadania, o enxugamento é causado por um pente-fino no programa, que cancelou benefícios pagos irregularmente a famílias. Este ano, a iniciativa tem orçamento de R$ 29,5 bilhões, abaixo dos R$ 32,5 bilhões de 2019. O governo anunciou, desde janeiro do ano passado, a intenção do reformular o programa, mas ainda não há previsão da apresentação da nova proposta.


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