Ensaio de quarentena no escuro

por Sulamita Esteliam

Segundona brava, Euzinha e o maridão vivenciamos experiência que poderia ser trivial, não fossem as circunstâncias: tarde e noite de quarentena, o sexagésimo segundo dia, para acabar de completar, falta luz. Exatas sete horas e nove minutos, cinco horas e meia das quais no escuro, porque aqui, nesses trópicos, a noite chega às 17:30 horas no outono-inverno, tempo de chuvas.

Ligo para a Celpe, descubro, ao ditar meu cpf, que a empresa mantém o cadastro com todos os endereços que já passamos no Recife; menos o primeiro e o penúltimo, cujas contas não estavam em meu nome.  Quando entrega o imóvel você dá baixa, mas o rastro fica.

“Há vários endereços com este cpf, a qual deles se refere a reclamação? O último é…”

Privacidade, definitivamente não faz parte mais da nossa rotina.

Aí, a robôzinha que me atendia constata que “há, sim, problemas de falta de energia nesta área” (onde se localiza meu lar).

A previsão de reparo do problema é às dez horas (22h) e um minuto.”

Ficamos deveras-mente impressionados com a precisão. Não há alternativa que não esperar, e conferir…

Claro, espalhamos velas em castiçais, alguns de fato, outros improvisados, pela casa. Fica até romântico, pena que em tempos de isolamento social namorar não seja boa ideia. Então, jogamos baralho.

Fez-me lembrar um casal de amigos, com quem sempre me encontrava no clube, décadas atrás, em Belo Horizonte. Quase sempre brincavam com as cartas, e me ensinaram um joguinho gostoso, que fazia o tempo escorrer tarde afora, depois que a criançada, nossa prole, se fartava da piscina, pipoca, espetinhos, sorvete e guloseimas de toda sorte, e da nossa companhia, e se acabavam pelo espaço local.

Quando, da primeira vez, Euzinha quis saber o nome do jogo, a mulher respondeu: “joguinho de casal brocha, querida!”

Devia ser brincadeira, mas fiquei tão sem graça que não contestei. Eram tão jovens, bem mais jovens do que esta hoje velha escriba. Ou, quem sabe, o jogo ali encobria e expressava outros sentimentos …!

Jogamos buraco. Não é o caso, agora, quaisquer outras possibilidades que não dar consequência ao tempo do ócio. Embora sejamos um casal de velhos. Posso assegurar que não estamos dispostos a jogar a toalha para seu corona nenhum nem para outro vírus qualquer, mesmo o da idade, tão cedo. Amém.

Meu temor, no apagão prolongado, sobretudo, é pelo congelador lotado de comida. Inclusive a última partida de pão de queijo que pude fazer com o derradeiro pacote de canastra meia cura ralado grosso, que me restava da última viagem a Beagá.

Pelo menos, até que alguma alma boa possa, em vida, posar aqui no Recife direto das Minas Gerais e me-nos socorrer. Cuidemos pois de prolongar o estoque.

Bom, jogamos até as 21:50h, quando o maridão percebe a chegada do carro da companhia elétrica. E passamos a monitorar a equipe pela janela do apartamento.

Júlio observa que o carro, uma caminhoneta, era pequeno para acessar o transformador, e a grua não tem caçamba, imprescindível para dar segurança ao técnico, principalmente à noite. O poste onde o equipamento está instalado é bem alto.

O pipoco tinha sido violento, barulho de trovão, estalo e faísca pra todo lado. As luzes piscando, o barulho irritante do gerador das torres vizinhas ao nosso prediozinho acionado automaticamente … um baita susto. As “alças” do transformador vieram abaixo.

Mexe de lá e de cá, os trabalhadores voltam para a cabine do veículo e digitam, freneticamente, em seus celulares. Dez horas e um minuto se vai, e nada. Dez e nove ligam o carro e partem, nos deixando no escuro.

Rimos os dois da eficiência privada. O riso é boa arma para a dúvida e a impotência.

Quem sabe o problema seria em alguma subestação próxima refletidos aqui!?, especula o maridão. Resta-nos aguardar.

Meu celular arria a carga, o dele já está pifado novamente e o novo ainda não chegou. Meu portátil só funciona na tomada, impossível ligar para saber previsões de solução.

A disposição para continuar jogando se esvai. O licorzinho de cupuaçu, degustado ao longo da jogatina, age sorrateiro, e não há mais o que fazer. Ler à luz de velas é problema nessa altura da escalada.

Subo o cassoulet, mantido na geladeira para o almoço do dia seguinte, para o congelador. Apesar de desligado, conserva a temperatura baixa por mais tempo. Ai, meu pai, e o pão de queijo vai descongelar se virarmos a noite sem energia!

22:50h: barulho de caminhão. Júlio vai até a janela, chegaram, agora sim! O técnico entra na caçamba e a grua o leva até o transformador.

No espigão da frente, os moradores se empilham nas janelas às escuras – o gerador só garante energia para as áreas comuns do prédio.

À essa altura já estou de camisola, e só quero ninho. O maridão se dispõe a esperar o fim dos trabalhos, precisa religar as chaves de energia, arriadas por precaução no início da pane, e checar o funcionamento da geladeira.

Creio que dormitei. Acordo com a claridade no quarto, todas as luzes acesas. Escuto o maridão me chamar da cozinha:

– Sulamita, acho que temos um problema!

Penso, enquanto me arrasto até a cozinha: a geladeira pifou, e lá se vai meu pão de queijo!

Bem sei o que passa pela cabeça de Júlio:

“Desta vez não escapamos de mais uma despesa, justo em meio a esse pandemônio!”

Alarme falso. Era só paúra com o treme-treme das luzinhas, logo estabilizado. Registre-se: nossa geladeira é a mesma há 20 anos.

O caminhão da Celpe soa o motor. Olho o relógio da cozinha: 23:16h.

Afinal o que são uma hora e quinze minutos de atraso, quando se está há 62 dias em confinamento!?

Remanejo o cassoulet para a geladeira, desejo bons sonhos ao maridão e volto para a cama. Antes que vire abóbora.

 

 

 

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