O racismo é pandemia. O Estado é genocida

por Sulamita Esteliam

João Pedro, estudante aplicado, foi abatido junto com seus sonhos e projeto de ser alguém grande, aos 14 anos. Setenta e um tiros foram disparados na casa em que brincava com os primos.  São Gonçalo, no Rio de Janeiro, segunda-feira, 18 de maio.

Outro João, Victor, 18 anos, também foi abatido a tiros dois dias depois, enquanto ajudava a distribuir cesta básica pela Frente Ampala de Combate ao Coronavírus. Cidade de Deus, Zona Oeste do Rio de Janeiro.

O menino e o jovem carregavam três maldições em comum: eram pretos, pobres e periféricos.

Como são pobres e pretos em sua maioria os mortos pela omissão do Estado central na pandemia avassaladora do Coronavírus. Já passam dos 20 mil, desde o primeiro registro em março. E sabe-se que não é o número real.

Alvos preferenciais do descaso, da indiferença, do escárnio. O desgoverno é genocida.

Alvos da polícia, executora do que o filósofo camaronês Aquile Mbembe – citado pelo colega e cientista política Leonardo Sakamoto em seu blogue – define como necropolítica.

Governos autocráticos decidem quem vive e quem morre.

Segunda foi João Pedro, assassinado em operação conjunta da Civil de Witzel e a Federal do capiroto.

Quarta foi João Victor, morto pela dobradinha Civil-Militar, o caveirão do Bope do governador do Rio de Janeiro.

Depois que mata, fica fácil acusar o morto de ser bandido, como se o Estado pudesse matar ao bel prazer. Não é o caso, os casos. Fazem, mas não podem.

Acontece todos os dias. Está acontecendo agora em alguma zona periférica deste Brasil que se recusa a ser feliz.

Os Joãos são mais dois, dentre milhares. Todos os anos. Meninos negros abatidos feito formigas.

O racismo é pandemia. O Estado é genocida.

Até quando!?

Latuff traduz. Obrigada.

*******

Recebi num grupo de jornalistas no zap-zap  o texto abaixo, que precisa ser lido. Como diz o amigo que postou, “é um tapa na cara”.

A esquerda branca e classe média ainda não entendeu.

por Mariana Belmont – colunista no Ecoa
João Pedro, 14, é morto após operação policial em São Gonçalo (RJ) Imagem: Reprodução/Twitter/@_danblaz

João Pedro estava dentro de casa.

João Pedro estava dentro de casa.

João Pedro estava dentro de casa.

João Pedro estava dentro de casa!

Que semana triste, camaradas. Que semana cheia de sangue, choro e tristeza. O Brasil foi fundado no projeto de genocídio de pessoas negras.

Enquanto o principal projeto político deste país não for barrar o genocídio da população NEGRA E PERIFÉRICA, NADA será efetivo, não teremos chance de mudança! Ou se coloca a luta antirracista na centralidade do debate e da prática política, ou, a gente não vai avançar e seguiremos nessa lama de sangue.

Não tem inspiração para texto longo, não tem mais palavras que se conectem diante de tanta revolta. não tem mais palavras que se conectem diante de tanta revolta. Não imagino e jamais sentirei a dor que a mãe e o pai do João Pedro sentem agora.

O mundo vive uma pandemia, as pessoas estão com fome, sem água, morrendo todos os dias nos hospitais públicos. Vemos instituições pensando como colocar a quebrada pra dentro de casa, as matérias da grande mídia problematizando o pobre na rua, em um fingimento de “não saber” que o Estado não respeita casa ou rua. O Estado não respeita o povo pobre e preto de diversas periferias deste país.

A imprensa naturaliza a morte e não dá nome ao que acontece a cada 23 minutos neste país. Eu lhes digo: é genocídio. O que ocorreu em uma operação que subia uma comunidade na semana passada e matou várias pessoas no Complexo do Alemão, no Rio, é genocídio. A desumanização se reflete em números frios. “A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e? Fogo! Para não ter erro”, como disse o governador do Rio de Janeiro, como promessa de campanha.

Não há pandemia que segure o Estado genocida. As operações policiais realizadas durante a crise sanitária de Covid-19 expõem uma política de segurança pública que viola o direito à vida. 80% dos mortos por policiais no Rio de Janeiro no primeiro semestre de 2019 eram negros ou pardos, segundo o Instituto de Segurança Pública do Estado.

Pois é, o João Pedro estava dentro de casa, brincando com seus primos, quando foi alvejado pela polícia! DENTRO DE CASA! Mataram João Pedro e o colocaram em um helicóptero. Sua família ficou por 16h, veja bem, DEZESSEIS AFLITAS HORAS, sem saber o que tinha acontecido com ele. Depois de uma campanha #procurasejoaopedro, descobriram que o corpo de João estava no IML. Crueldade!

(…)”

A autora fecha com apelo para que os leitores de sua coluna assistam o vídeo e leiam texto poético de Marcelino Freire, escritor e poeta brasileiro, pernambucano radicado em São Paulo.  Da Paz – que Euzinha também não quero ter.

Aliás, é a linha do título de postagem desta A Tal Mineira, deste mesmo poema, interpretado pela mesma Naruna Costa em outra ocasião, julho de 2013.

Visceral.

Reproduzo o vídeo. A íntegra dos textos você pode ser na coluna da Mariana na Ecoa/UOl.

Clique para ler o artigo do Sakamoto. Te informações valiosas sobre o genocídio do povo negro no Brasil.

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