A demolição do Brasil: visão de três entrevistados de Bob Fernandez

Este cartoon é de 1987, transformado em postal da campanha de solidariedade ao Henfil, promovida pelo Sindicato dos Jornalistas do Ceará
por Sulamita Esteliam

O A Tal Mimeira pega carona no canal Poder (res) no Youtube,  especificamente na série  sobre o Brasil e seu futuro, se é que futuro há, que o jornalista Bob Fernandez produz para estimular a reflexão sobre o processo pelo qual o país se derrete.

A expressão corrente entre os entrevistados do colega baiano é a mesma que esta velha escriba tem usado, aqui, faz tempo e com frequência: “demolição”.

Impressionou-me, sobretudo, as palavras do escritor manauense, radicado em São Paulo, Milton Hatoun, para quem   “o Brasil tornou-se uma caricatura de si mesmo”.

O tom é engasgado, de uma tristeza incontrolável. Transcrevo uma parte, porque tem tudo a ver e para estimular assistir o vídeo na íntegra, está compartilhado ao pé da postagem:

Foto: captura de tela

“É uma destruição deliberada – da educação, da cultura, da área sanitária. Estão conseguindo destruir os poucos avanços dos últimos governos. Não é obra do acaso, é um projeto deliberado, concertado. É um país enlutado, de uma tristeza imensa, nunca vi tanta gente triste no Brasil.

É como se a gente estivesse sempre destinado a voltar ao inferno. No momento em que o país parece que pode dar certo, há uma reviravolta de um conservadorismo… Ate 64, havia um projeto democrático, de educação, de habitação popular, a Universidade de Brasilia foi uma espécie de utopia; Brasília foi a última utopia realizada, e foi interrompida com toque militar de recolher.

Depois da ditadura houve um novo surto de esperança, e agora veio essa interrupção bruta, com a caricatura democrática, uma máscara. Não é possível que, com fake news, milhões de disparos, não é possível que isso não tenha sensibilizado o Supremo Tribunal Federal, que ele não tenha se dado conta …

Não é normal do que estamos vivendo: 40 milhões de trabalhadores na informalidade, talvez 14 milhões de desempregados, 107 mil (no dia da entrevista) mortos na pandemia, quantas mortes poderiam ter sido evitadas. Estamos falando de vidas, vidas de brasileiros, como dizia Mário de Andrade, “são brasileiros que nem eu”.. e ninguém para confortar seus familiares.

A direita e os liberais caíram numa arapuca, preferiram isso a um professor, o Fernando Haddad, achando que podia dominar o demônio; é a igreja do demônio, segundo Machado de Assis, numa crônica moral fantástico. Não se doma o demônio.”

O jornalista Bob Fernandez, comanda o canal Poder (res)- Foto: captura de tela

Nessa edição do canal Poder(res), Bob Fernandes conversa, antes, com o jornalista Jânio de Freitas, colunista da Folha de São Paulo.

Jânio é profissional irreparável, do tipo que tem coragem e autoridade de escrever apontando o dedo para os desvios autoritários do jornal a que presta serviços.

Jamais se portou como lambe-botas, e não tem que agora, feito alguns – e são poucos que assumem -, que vêm a público pedir desculpas por ter se alinhado com o desmonte do Brasil.

Jamais esteve entre os que usaram a própria visibilidade profissional para apoiar o golpe que derrubou uma presidente digna e honesta, como Dilma Roussef.

Jamais valeu-se da pena e da voz para insensar as ilegalidades de Moro, Dallangnol et caterva na Lava Jato, para estimular o desmonte de reputações de inocentes como ex-presidente Lula, alegando uma “santa ingenuidade” que em tempo algum tiveram.

Também não se alinhou à turba que se uniu à casa-grande para criminalizar o PT; para fazer vistas grossas ao uso de fake news e de financiamento ilegal de campanha, de nivelar um psicopata-genocida circense, defensor da tortura e de torturadores, do racismo, da homofobia, misoginia, de toda sorte de violência e miséria humana com um professor.

Para Jânio, o Brasil hoje é “Ex”…

“Ex-projeto democracia, um ex-projeto país, uma ex-esperança de uma grande parte da população e uma continuidade de uma massa imensa de pessoas carentes, sem perspectivas, nesse país que, dentro desse ex-projeto que está em demolição. Tudo que é importante no Brasil que está passando por um período de triste desarrumação, de demolição – no Ibama, no setor de saúde, o SUS, em todos os setores importantes para a sociedade, para a própria natureza e identidade do país, para o funcionamento da sociedade; tudo isso está sendo demolido progressivamente, parte a parte, e não se vislumbra nenhuma iniciativa para conter isso.

E para onde é que podemos ir. São tantas hipóteses plausíveis, que eu não tenho nenhuma preferência do pontode vista que é a perspectiva mais provável. Teria do ponto de vista da opinião pessoal, política, ideológica, e aí a mim me bastaria que fosse uma democracia respeitosa da sua constituição, de sua obrigação de justiça social.

Mas, dentro disso que eu não sei há algumas coisas que são claras, por exemplo: o Brasil de repente se espanta com o Brasil. Não se discute mais se o Brasil é um país violento, com esse ódio tão claramente exposto. O que se discute agora é se sempre foi violento, e não se dizia, não se queria ver que fosse, ou se essa violência é atual e curável. Pessoas de alta reputação começam a dizer que, não não é uma violência de agora, é uma violência desde sempre nesse país.

Essa violência, a meu ver, em muitos sentidos, veio para ficar. A falta de solução para recompor muito do que agora está sendo demolido, também é uma certeza do que se pode ter do país, hoje em dia. E outras modificações trazidas por essa nova situação brasileira; por exemplo a imagem do Exército hoje é muito diferente do que se tinha antes. muitas das situações. Não se admitia, ou não se conhecia, que a proclamação da República fosse fruto de um golpe de Estado. O Exército era uma instituição respeitável. 

Hoje a imagem da proclamação da República como golpe é corriqueira, dita e tida com a maioria sem-cerimônia. Isso reflete, a meu ver muito claramente, a mudança de imagem pela qual o Exército passa. Há uma demolição dessa imagem, que é uma resposta para a contribuição dos militares da ativa e da reserva, para esse processo demolidor das instituições, da estrutural governamental, das perspectivas e esperanças, e nos projetos de país e de democracia que nós tínhamos.

O  papel de Bolsonaro é importante, não por si, mas como um instrumento de uma dada falta de pensamento, falta de lucidez, que acomete por exemplo o Exército – não digo Forças Armadas, porque até hoje Marinha e Aeronáutica não se mostram solidária a esse processo de mudança para o pior. O Bolsonaro é aí um instrumento decisivo. Temos aí uma reprodução, adaptada às novas circunstâncias de mundo, de um regime ditatorial dos nossos 21 anos de ditadura, com uma presença militar gigantesca (Bob: cerca de 8.450 no total, entre comandos militares, tribunais e ministérios recebendo 30% a mais numa outra função).

Pois é, em lugares, em sua grande maioria, para os quais não têm a menor habilitação; como é o caso notório e de consequências tão pesadas do Ministério da Saúde e do comando do que deveria ser o combate à Pandemia e é uma colaboração a uma contaminação crescente, imensa, já em 99% dos municípios brasileiros, e das mortes que daí ocorrem, e que hoje já são mais de 100 mil.”

Então, a minha ideia de um Brasil para o futuro, é de um país que perdeu tudo o que ainda não tinha, além de ter perdido o que tinha, e não se sabe o que voltará a ter; não tem nenhuma segurança a respeito, senão de uma coisa: isso, esse processo demolidor, de instituições em enfraquecimento, de Constituição desconsiderada, de aumento da injustiça social, de socorro emergencial apenas com fins político-eleitorais; enfim, de derrocada econômica imensa, de política externa completamente tonta.”

Foto: captura de tela

O outro entrevistado é o músico BNegão, ex-Planeta Hemp, que vê uma “aceleração brutal desse esquema de vampirização do país.”

” Uma vampirização que sempre existiu, na verdade. Parece que em algum momento teve um pseudo-respiro – de 2003 a 2013. A ideia, pelo que me parece, é assim: tá, isso aqui não é mais um país, é um pátio norte-americano, de quem chegar com grande.

Eu costumo dizer que tem o capitalismo, o capitalismo selvagem, tem o capetalismo, e tem o capetalismo selvagem, que é onde a gente está nesse momento; que essa parada, meu irmão, tipo foda-se, não tem constrangimento, não tem nada, os caras estão quase que no domínio total de espectro. A elite brasileira é bizarra no processo de capetalização do país.”

Assista  o vídeo com a íntegra, é imperdível:

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Postagem revista e atualizada em 03.09.2020, às 22:57hs: correção de erros de digitação em diferentes ponto das transcrições. 

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