A poesia militante de Marcelo Mário Melo

por Sulamita Esteliam

Sim, estou de ressaca cívica, e muito feliz pelo desempenho de minhas candidatas e minhas simpatias aqui no Recife. Vereadora eleita, a prefeitura vem no segundo turno. O domingo da República foi uma overdose de cidadania.

Mas deixo para a próxima postagem os comentários sobre as eleições e o novo mapa eleitoral do Brasil, a partir dos municípios. Ando meio que bringando com o calendário e o relógio.

Só que não esqueci da promessa de postar aqui o conteúdo da Leitura Literária no canal A Tal Mineira TV. Gravei e postei no domingo, depois de votar, pela primeira vez antes das dez da manhã, por conta de ser grupo de risco num país em pandemia.

Não peguei fila, o maridão pegou alguma. Tinha boca de urna no meu local de votação, e um amontadoado de santinho jogado nas proximidades das duas zonas eleitorais – nenhum de candidato de esquerda, exceto de socialistas do PSB.

Pena que as fotos que tirei não prestaram nem para denunciar ao TSE. Derrame de santinho em dia da eleição é crime.

Fiz questão de vestir minha melhor beca vermelha, da grife Vista Nanquim, fugaz experiência da filhota Carol Estelian e uma amiga lá em Beagá. Devidamente paramentada com os adesivos das minhas candidatas a prefeita e vereadora. E meu boton de estimação: “Ninguém solta a mão de ninguém”.

O maridão, suspeitíssimo, garante que abalei Boa Viagem. Verdade que atraí muitos olhares, na minha zona eleitoral, num colégio classe média metida a besta; mas não foram de aplauso.

Lá é reduto dos amarelos (PSB), mas este ano, todos estavam disfaçados de gente normal. Menos Euzinha; só voto paramentada.

Foi no local onde vota meu companheiro, numa escola pública, que aconteceu algo muito engraçado. O rapaz que trabalhava de auxiliar de mesário numa das seções – aquele que faculta o acesso ao local de votação -, deixou o posto, atravessou o pátio, e veio em minha direção. Então, me disse, quase aos cochichos:

– Tive que vir aqui falar para a senhora que está elegantérrima neste vestido vermelho e com esta sandália na mesma cor. Arrasou! E vamos confirmar, com certeza. – E juntou as mãos em plac-plac-plac!

Respondi agradecendo, e sorrindo: “Com certeza, sou pé quente”.

As urnas disseram amém.

Segue o vídeo (troquei o chapé para gravar) e na sequência a transcrição dos poemas lidos:

 

“Adversos Resistentes”

por Marcelo Mário Melo*

FIOS & DESAFIOS

SER MILITANTE
A Anacleto Julião (PE), exilado político e
combatente contra a ditadura de 1964

Os militantes não são acionistas
ordenadores segurando rédeas
visando dividendospPara a tribo
ou Narciso.

São agentes de mudança
ciranda grandiosa
povo de mãos dadas
em missão do sonho
por nova cidade.

Sonho que se constrói
juntando pedras
ao caminho
panos
à colcha de retalhos
sendo necessário
escolher certo
e juntar bem.

Pois sempre que juntamos
pedras e panos errados
damos passos em falso
levamos quedas
retarda-se a viagem.

Às vezes se esquece
que os retalhos
e as pedras de sonho
de cada dia
são feitos de coisas precisas
e palpáveis:
a comida
o transporte
a casa
o gás
a luz
o remédio
a festa
a conta certa/incerta
e a prestação de contas.

O povo vive todo tempo
juntando panos e pedras
fazendo puxadinhos
de coisa e sonho
e o sonho em coisa
e os militantes
precisam estar junto.

Porque os militantes

não têm que seduzir o povo
com a vitrine do seu
sonho especial
como um presente distante
de Papai Noel
ou loteria.

Juntando pedras e retalhos
os militantes devem
construir com o povo
sonhos comuns.
(pág. 33)



NOVA ESPERANÇA
A Wilson Albuquerque (CE), sociólogo
e articulador cultural em Pernambuco

Bandeira aberta alerta
unindo continente-ilha
arrancando viseiras
e tampões
nos desertos povoados
rasgando
as cortinas da roina
jogando água fria
em des/acordos
quebrando divisórias acadêmicas
removendo
rochedos burocráticos
dançando em cemitério
soltando cachorros
no salão nobre
riso de granizo
no cerimonial.

De grão em grão
levas de nova lavoura
rasgando partituras
de microditaduras
abrindo portas e janelas
sem vidraça
ao sol da praça
fala surda
pulsação
água que aflora
sonho solto
sanha livre
seiva
semente
ocupação
sem mito
refrão
ferrão
de patriarca
conduzindo a arca.
Ao largo à vista
barcos e bandeiras
direita expressa e maquiada
esquerda de quem vem
direita de quem vai
falsos
cristovãos colombinos
redescobrindo
a América da mesmice
em cantigas de deseducação
fazendo agá
beira do pântano.

Além de piratas
disfarçados de vermelho
cavando carreira
desembestados
outras com atestados
de representantes do povo
e convivas do poder
frente/verso
em plantão-camaleão.

Na pia da autonomia
lavar as mãos
e destruir
desconstruir
a entranhada pauta
cabisbaixa

Pios dos ninhos
arrepios
passo a passo
hora a hora
dia a dia
no compasso

Anuário
libertário
fazendo puxadinhos
de nova esperança.
(pág. 35)

 

A PRAÇA
A Romildo Araújo Lima – RAL (PE),
artista do traço em Pernambuco

Praça é ponto de encontro
brincadeira e amizade
festa e comemoração
das coisas de uma cidade.

Crianças livres correndo
pulando e jogando bola
depois de terem cumprido
as tarefas da escola.

Namorados nos banquinhos
trocando beijos e abraços
embrigados nas ondas
do amor e seus compassos.

Gente de tods os tipos
descansando ou caminhando
lendo um jornal ou revista
ou em grupos conversando.

Praça é cultura pulsando
frevo pastoril ciranda
poetas soltando versos
sons de coral e de banda.

A praça faz homenagem
a pessoas importantes
fatos e datas da história
coisas de hoje e de antes.

Praça também tem tristezas
como os meninos de rua
os mendigos os sem-teto
mostrando a verdade nua.

A praça é palco de luta
por mais justiça e
direito
com o povo protestando
para nisso dar um jeito.

Evangélicos e católicos
pais de santo e ateus
a todos a praça acolhe
pois todos são filhos
seus.

A praça é aberta a
todos
sem travo ou
dificuldade:
preto branco pobre rico
de qualquer sexo e
idade.
A praça pertence ao
povo
como o céu é das
estrelas
que mostram nele o seu
brilho
e a gente se alegra em
vê-las.
(pág.40)


A PÁ CÍVICA
A Rosa Barros (PE), médica e
presa política em Pernambuco

Cavando
terra
pedras
retiradas
atiradas
multiplicando
pedradas
de David.

A pá
civicamente
pacivicamente
(pág.41)

*******

Postagem revista e atualizada ás 11:30h do dia 17.11.2020: correção de erros de digitação, muitos; com minhas desculpas.

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