Quando o 17 de abril se tornou o Dia da Vergonha

por Sulamita Esteliam

Para não esquecer, de onde vem o abismo infindo onde charfundamo todos. Mas o PT parece não se lembrar, o que é lamentável. Há cinco anos, no 17 de abril, o Dia da Vergonha, no aniversário de 20  anos do massacre de 19 sem-terras em Eldorado dos Carajás, no Pará.

O Brasil permitiu que se arrombasse a porta onde se guardava democracia. Violação coletiva – pela Câmara dos Deputados, depois pelo Senado, com a conivência do STF, da mídia venal e também, agora se sabe, do Exército e dos Estados Unidos.

Ato cevado pela misoginia contra a primeira e única mulher presidenta da República deste país, Dilma Vana Roussef. E que ousou encarar a pressão e os arranjos, e não ceder ao modo masculino e machista de governar pela conveniência, entregando os anéis para não perder os dedos.

Recusou-se a atravessar a ponte para o abismo, por isso caiu, e não por seus eventuais erros – só erra quem faz – que insistem em apontar. Foi traída, jamais traiu.

É preciso fazer justiça e louvar sua coragem de enfrentar a matilha, e lealdade ao projeto e a quem a colocou na trincheira.

E agora, o Brasil no desmantelo, segue o projeto de genocídio, e ninguém se mexe.

Dilma caiu porque resistiu à patranha que se armava para desfazer tudo que havia sido construído em 12 anos de gestão encabeçada pelo PT. Era preciso inviabilizar seu governo, derrubá-la para impedir a consolidação de um país menos desigual para seu povo e mais soberano de seu destino.

Sim, o alvo era a ameaça de retorno, se tudo seguisse na toada da década anterior, de Lula e a sequência da soberania popular, ainda que fragilmente construída, como se vê nesses tempos  inqualificáveis.

Dilma foi deposta sob argumento de uma pedalada que não houve. O impeachment foi uma farsa, uma fraude. Foi golpe, sim, e até seus atores já o reconheceram de público.

A pergunta que não quer calar é: até onde e até quando vão o esquecimento e a inércia diante da hecatombe!?

Sem memória, reconhecimento e ação coordenada não se vai muito longe.

O Massacre -Eric NepomucenoAinda na pegada do 17 de abril, não se pode esquecer que há 25 anos, no Pará, 19 sem-terras foram trucidados pela Polícia Militar, a soldo dos latifúndio e dos poderosos locais. Pelo menos 10 dos mortos foram executados com tiros a queima-roupa. Era o governo do tucano Almir Gabriel

Vem daí a luta revigorada do Movimento dos Sem Terra, à época, em seu nascedouro. E o 17 de abril tornou-se Dia Internacional da Luta Camponesa pela reforma agrária. Como acontece todo o ano, nesta data, o MST promove atos por todo o país.

A chacina é narrada, com vigor e detalhes no livro O Massacre, do jornalista e escritor Eric Nepomuceno, editado pela Record em 2019. Li e recomendo. Meu exemplar está dedicado pelo autor, que conheci em 2019, em Diamantina, durante o  FHist – Festival de Histórias não contadas.

O ano era 1996. Os 155 soldados que participaram do massacre não foram julgados. Os mandantes, o coronel Mário Pantoja, comandante da PM e o major José Maria Pereira da Silva, que comandou a operação só foram presos e condenados em 2012. Pegaram, respectivamente, 258 e 158 anos de condenação.

Os mártires de Edorado dos Carajás e a luta pela reforma agrária são homenageados por Chico Buarque neste vídeo. Note que ele o faz a parte do livro O Massacre:

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