Leitura Literária: o amor de avô e neto e a fome do tempo segundo Bartolomeu Campos de Queirós

por Sulamita Esteliam

Mais de uma vez escrevi aqui no blogue que tenho sido engolida pelo tempo. Na verdade, tenho deixado que o tempo me aprecie, tragando-me sem pressa, como se degusta uma boa cachaça mineira.

Então… Para retomar o Leitura Literária no canal A Tal Mineira TV lá no Youtube, vou contar para vocês uma historinha de amor e prazer em ler, desenvolvidos a partir do estímulo que vem do afeto cultivado à distância, a cobrir ausências.

Claro que aí se agrega o papel da escola no processo de absorção gradativa da leitura como um  carinho em forma de palavra escrita.

Estou em Belo Horizonte, minha Macondo de origem. No dia seguinte à minha chegada, fui abraçar o filhão, que fazia aniversário, e matar as saudades do trio de netos que ele e sua companheira me/nos deram.

O mais velho dos três me levou até o quarto para mostrar-me a coleção que chegou para ele no aniversário de 11 anos, em março, e o quanto tem lido nos últimos tempos: a coleção completa de Júlio Verne.

– Vê, vovó, só li um até agora, aquele que eu precisava ler (Viagem ao Centro da Terra). Parece que até advinhou! Você que sempre me dá livros, você já leu este? E este, e mais este…? Quer ler,. eu lhe empresto.

Este velho coração bateu mais forte, tamanha alegria.

– Sim, eu li todos os livros de Júlio Verne, e também, ainda na adolescência, vi o filme Viagem ao Centro da Terra;  fiquei dias sem dormir!  Vi também a animação A Volta ao Mundo em 180 Dias. Li Dom Quixote, mas o original de Cervantes, este que você leu é uma adaptação do brasileiro Walcyr Carrasco.

Mateus riu e devolveu?

– Qual desses você não leu e quer emprestado?

Escolhi três; Uma vez, de Morris Gleitzman, editado pela Paz & Terra, São Paulo, 2021; Os Detetives do Prédio Azul, de Flávia Lins e Silva, edição da Pequena Zahar, Rio de Janeiro, 2016, 3ª edição e mais um.

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Comecei a ler pelo primeiro que me mostrou: Por Parte de Pai, de Bartolomeu Campos de Queirós, editado pela RHJ, Belo Horizonte, 1995.

Leitura adorável. Conta a história do amor entre um menino e os avós, sobretudo o avô, e a relação com o tempo.

Um avó que fazia da janela da casa seu posto de observação do mundo numa cidade do interior, e que escrevia nas paredes da sala todos os acontecimentos familiares e daquela Macondo.

Autor cultivado pelos programas de incentivo à leitura, Bartolomeu Campos de Queirós é mineiro de Pará de Minas, em 25 de agosto de 1944, e viveu em Beagá até 16 de janeiro de 2012, quando virou estrela.

Por essas linhas tortas do contexto social, de vida e do tempo, meu primeiro contato com trechos da vasta obra do autor foi há uns 10 anos. Foi quando assessorei a Rede de Bibliotecas Comunitárias de Pernambuco, no Recife.

Amor à primeira vista.

Este livro é um bom exemplo do estilo de Campos de Queirós, que faz da literatura infantojuvenil fonte de encantamento para todas as idade. Transborda poesia.

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Bartolomeu Campos de Queirós – escritor mineiro – Foto capturada na Internet

Compartilho com vocês meu trecho preferido, que fala sobre a relação humana com o tempo.

“(…)

Os anos lixaram a madeira do banco na porta da cozinha. Com a chuva, o sol, o sereno, a tábua ficou lisa, clara, curtida. Por muitas vezes eu me assentava nele enquanto meu coração me perguntava um monte de porquês silenciosos. Sem resposta nenhuma, eu via, lá no fundo, moitas de bananeiras que já haviam dado cachos e meu avô não cortava para não desbastar a paisagem. Os olhos precisam de conforto, ele me dizia, quando indagado sobre essas bananeiras mudas e sem mais futuro.

Meu avô me convidou, naquela tarde, para me assentar ao seu lado nesse banco cansado. Pegou minha mão e, sem tirar os olhos do horizonte, me contou:

O tempo tem uma boca imensa. com sua boca do tamanho da eternidade ele vai devorando tudo, sem piedade. O tempo não tem pena. Mastiga rios, árvores, crepúsculos. Tritura os dias, as noites, o sol, a lua, as estrelas. Ele é o dono de tudo. Pacientemente, ele engole todas as coisas, degustando nuvens, chuvas, terras, lavouras. Ele consome as histórias e saboreia os amores. Nada fica para depois do tempo. As madrugadas, os sonhos, as decisões, duram pouco na boca do tempo.

Meu avô foi abaixando a cabeça e seus olhos tocaram em nossas mãos entrelaçadas. Eu achei serem pingos de chuva as gotas rolando sobre meus dedos, mas a noite estava clara como tudo o mais.

(…)”

(Bartolomeu Campos de Queirós, Por Parte de Pai – páginas 70-72, RHJ Editora, BH. 1995)

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Postagem revista e editada dia 30.08.2021, às 20:04 horas: correção de erros de digitação

2 comentários

  1. Sula, amei. Eu adoro dar livros para os meus netos, ainda pequenos. De vez em quando leio histórias para eles pelo zap, que amam. Conheci Bartô , figura ímpar! Lnda homenagem.

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