Fome e desigualdades são escolhas políticas

por Sulamita Esteliam

Que me perdoem, se insisto nesse tema, mas é que é impossível ser feliz vendo gente como a gente passando fome. E essa gente, que inclui um pipocar de crianças, se reproduz aos milhares mundo afora, na América Latina, no Brasil.

Só aqui são 12,1 milhões de pessoas que entraram no rol dos famintos no intervalo de 2016, fim dos governos do PT, via golpe que derrubou a presidenta Dilma Rousseff, e 2020, o segundo ano do desgoverno.

Os números são da FAO – Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Fome. Estudo publicado recentemente mostra que só de 2019 a 2020, o número de pessoas que comem menos do que deveriam ou passam fome – tradução real para o eufemismo “insegurança alimentar moderada ou grave” – aumentou 15%.

Significa, de acordo com a FAO, que 49,6 milhões de brasileiras e brasileiros, adultos e crianças, não se alimentaram em quantidade suficiente naqueles dois anos. Pior, 7,5 milhões não têm o que comer. 

Seguramente em 2021 o panorama se agravou.

É claro que a pandemia de Covid-19 tem reflexo nessa contagem cruel. Mas a própria organização da ONU reconhece que o fenômeno que rói o estômago e a vida das pessoas mundo fora, Brasil destacadamente, é anterior.

Em miúdos: não se trata, apenas de questão pontual, episódica, antes é reflexo da ausência ou desmonte de políticas públicas de redução da desigualdade na distribuição de alimentos entre as populações. 

Falta comida porque falta ação do Estado, dos governos, para minorar a penúria.

Falta competência e vontade para agir devidamente para reduzir os danos econômicos e sociais do desemprego, do aumento exorbitante dos juros, do desmanche deliberado do que é público em função do privado.

Ou, como define o ex-presidente Lula, com precisão, “comida tem, falta justiça”.

Seu cavalo de batalha, desde a campanha à Presidência da República, em 2002, é o combate à fome. Fez dele a prioridade do seus governos, e hasteou a bandeira mundo afora. E hoje, como antes, a mantém hasteada, como um mantra.

Foi assim em sua viagem recente pela Europa, em todos os fóruns onde pode soltar sua voz. E foi assim no início deste mês no encontro do Grupo de Puebla, no México, quando mais uma vez chamou a atenção para o problema da fome:

“O mundo produz mais alimentos do que precisam as pessoas com fome. Então, por que temos 800 milhões de pessoas passando fome no mundo? Não é falta de comida. É falta de dinheiro para comprar comida e falta justiça nesse mundo para que os pobres tenham o direito de comer.”

A sétima reunião da Cúpula do Grupo de Puebla, que reúne 30 líderes progressistas de 12 países da América Latina definiu pacto de “desenvolvimento solidário” para a região, que contempla: 

“Superação das desigualdades sociais, busca de valor, nova política econômica, transição ecológica, integração para construir a região e novo quadro institucional democrático.”

Está claro que as desigualdades são fabricadas, são escolhas políticas. No caso do Brasil isso é escancarado, mas o país, evidentemente, não é uma ilha. Só teve dinamitada sua ponte para o futuro.

As desigualdades de renda e de riqueza são profundas globalmente, e também têm se acentuado mundo afora, por conta das escolhas políticas. Nada tem de inevitáveis.

Todavia, elas são tanto mais cruéis, quanto mais díspares são as condições geopolíticas, de gênero ou mesmo ambientais. 

Por exemplo:

  • no Brasil, os 50% mais pobres ganham 29 vezes menos do que os 10% mais ricos; na França, essa proporção é divida por sete.
  • na América Latina, os 10% mais ricos ficam com 77% da riqueza total, contra 22% para os 40% intermediários e 1% para os 50% mais pobres.
  • na Europa, os 10% mais ricos possuem 58% da riqueza total, contra 38% dos 40% intermediários e 4% dos 50% mais pobres.                                                                              

São constatações do novo Mapa de Desigualdades Globais, produzido e divulgado pela equipe de Thomas Pickety, da Escola de Economia de Paris.

Acesse aqui a íntegra do relatório, em inglês. Mas o resumo executivo, publicado pelo Outras Palavras, com tradução de Vitor Costa torna tudo mais palatável.

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Outras fontes requeridas:

Lula.com.br

Aumentou em 12 milhões o número de pessoas com fome no Brasil desde o fim dos governos do PT

Ópera Mundi

No México, Grupo de Puebla fala em compromisso por desenvolvimento solidário

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