Licença para matar: preto e pobre

por Sulamita Esteliam

Não dei conta de escrever sobre a chacina, mais uma, no Rio, desta vez na Vila Cruzeiro, onde o número de vítimas chega a 26. Leio no Tijolaço, replicando informação da Folha, que há denúncia de moradores de pessoas assassinados a facadas. Em Jacarezinho, 2021, foram 29 mortos a tiros e/ou arma branca.

Isso é polícia com licença para matar: preto e pobre – e Carlos Latuff desenha bem desenhadinho, obrigada. Mais do mesmo, e ninguém faz nada.

Não tive coragem de ver o vídeo em que policiais rodoviários federais asfixiam com gás lacrimogênio um homem – só podia ser pobre e negro – no porta-malas de uma viatura. Deu-se em Umbaúba, Litoral Sul de Sergipe, dois dias depois que agentes da PRF deram suporte à mantança na Vila Cruzeiro.

Quer dizer: a PFR de tão boas referências e salários vultosos, agora se associa ao projeto genocida da milícia que desgoverna o Brasil. E querem que a gente ache natural!

A vítima em Umbaúba, Genivaldo de Jesus Santos, além de tudo, era esquizofrênica, e deixa mulher e filho.

Trata-se homicídio de 1º grau, com intenção de matar (os policiais conhecem as consequências da inalação do gás e mesmo assim usaram a arma no porta-malas, que tentam fechar com o homem imobilizado lá dentro).

É portanto crime doloso, com agravante: sem chances de defesa para a vítima, que para ficar pior era um incapaz.  Não é preciso ser advogado ou jurista para defini-lo. Há o vídeo mostrando a ação homicida. É flagrante e os agentes deveriam estar presos.

É crime hediondo, inafiançável. Cabe ao Ministério Público Federal oferecer a denúncia e garantir junto ao devido juízo a ordem de prisão preventiva desses policiais que agem como milicianos que demonstram ser.  Antes que façam mais vítimas.

Agora se sabe, via The Intercept Brasil, o nome dos agentes: Clenilson José dos Santos, Paulo Rodolpho Lima Nascimento, Adeilton dos Santos Nunes, William de Barros Noia e Kleber Nascimento Freitas. Todos Comando de Operações Especiais da Polícia Rodoviária Federal no Sergipe.

Eles assinam a ocorrência como se fosse normal. E ainda posam de socorristas. Na versão dos algozes, a morte teria sido “uma fatalidade”. E a nota divulgada pela PRF é um acinte, quando dá guarida à versão dos policiais, negando o que atestam as imagens, que a essa altura já rodam o mundo.

O laudo do IML, preliminar, corrobora a “asfixia mecânicia e insuficiência respiratória aguda”.

Nesta quinta, após o enterro de Genivaldo, os moradores de Umbaúba foram para a BR 101 protestar; foi lá que ocorreu o crime. Imagens mostram a população avançando sobre um carro da PRF, que recua.

Por conta da repercussão, o comando decidiu afastar os policiais e determinou a apuração dos fatos, o que será feito pela corregedoria militar. A OAB promete acompanhar de perto as investigações.

A pergunta que fica é: se fosse o contrário, um civil filmado usando gás para asfixiar um policial qualquer, o que aconteceria?

Fico por aqui.

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Deixo os links das fontes referidas:

The Intercept Brasil

Mais no Intercept

Carta Capital

Tijolaço

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