Recife e RM sob as águas: omissão e descaso

por Sulamita Esteliam

Não é tragédia, apenas, é desastre da omissão e do descaso. Não se pode domar a natureza, especialmente quando dela se abusa. E a natureza é mãe que acolhe, mas não aceita desaforo e cobra na sua medida.

Mas a gente sabe que é possível preservar vidas, minimamente, com ações preventivas que cabem ao poder público. Eis a questão: governar é cuidar das pessoas, sobretudo as que mais precisam. 

O Recife já teve um programa chamado “Guarda-Chuva”, que promovia vigilância e proteção de encostas e morros, limpeza de canaletas e remoção de pessoas das áreas de risco, com pagamento de aluguel social, por exemplo. Melhoria das condições de vida nas comunidades.

Quem viveu e tem memória há de se lembrar. Não morreu ninguém por conta das chuvas nos invernos nas duas gestões do então prefeito João Paulo da Silva (PT) e em dois anos da gestão seguinte, do outro João, da Costa.

Lembrei disso em comentário que fiz no Instagram de Germana Accioly, também jornalista e escritora, chefe de gabinete da vereadora Dani Portela (PSol).

É certo que o volume de chuvas que caiu sobre o Recife e a Região Metropolitana superou a média das últimas décadas. Todavia, a definição de prioridades no administrar das cidades deixa as pessoas à mercê das intempéries, da própria necessidade e do desleixo para com o bem-estar coletivo.

Não se pode esquecer as enchentes de 2010, que assolaram a Mata Sul pernambucana, matando 20 pessoas e deixando 82 mil desabrigdas nos 67 municípios atingidos. Pernambuco era governado por Eduardo Campos (PSB), reeleito naquele ano.

O Cendhec – Centro Dom Helder Câmara de Estudos e Ação Social se lembra e, em nota(link ao pé da postagem), questiona o viés conveniente em “responsabilizar a natureza, quando a gestão carrega em seu historico outras catástrofes como essa (…)”:

“É necropolítica, um projeto que tem como objetivo o apagamento da populaçãonegra e periférica, limando violentamente suas identizades, afetos e memórias.”

Outro colega e vereador do Recife, Ivan Moraes Filho (PSol), traz os números em seu perfil no Instagram. Compartilho:

É disso que se trata.

Ivan toca em questões bastante sensíveis: educação ambiental, coleta seletiva do lixo, moradias em condições decentes e seguras. 

Lembra também, e nisso faz coro com suas colegas Dani Portela e Liana Cirne Lins, esta última do PT, que é no mínimo uma falácia suspender os festejos de São João para aplicar a verba, R$ 15 milhões, na ajuda aos atingindos pelas enchentes.

É desvestir um santo para vestir outro, como diria minha mãe: deixar a ver navios os trabalhadores na cultura, que sofrem a carência de dois anos e meio de pandemia. E há também os ambulantes que defendem seu ganha-pão nessas ocasiões, e que também estão à míngua.

A verba de socorro aos desabrigados pode vir de outra rubrica: publicidade por exemplo.

Certo é que a indignidade permeia a tristeza e o desalento e não vê por onde desaguar. As pessoas precisam de um pouco de compaixão, de muita solidariedade, mas de alguma dose de refresco nessa vida de aflições.

Suspender as festas não vai trazer de volta as 91 vidas que se foram na correnteza, no fluxo de lama e escombros, de quarta a domingo, 29 de maio, na contagem oficial do Governo do Estado. 

Ainda  há gente desaparecida, cujo resgate ainda demanda trabalho do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil. Pessoas das comunidades, dos movimentos sociais, dos partidos políticos, vereadores e vereadoras, aos menos os citados, estão mobilizados para ajudar as famílias atingidas.

Há milhares de desabrigados no Recife e Região Metropolitana, quase 4 mil, nesta data. A gente humilde de que nos fala aquela canção do Vinícius de Morais, perdeu o pouco que tinha, está impossibilitada de trabalhar e muitas ainda choram seus mortos. 

A ligeira estiada na manhã de domingo, quando o sol voltou a dar as cartas, timidamente, ajudou a baixar os alagamentos, mas não foi o suficiente para reduzir o risco de mais desmoramentos.

Nem deu tempo de secar as roupas de quem faz da rua sua morada porque essa é a situação de centenas aqui nesta terra das águas, sob risco permanente e exacerbado, como atesta a ONU.

As muretas dos canais, as grades do comércio fechado, a grama da Pracinha de Boa Viagem se coloriram de roupas e andrajos da Maria e do Zé Povinho que não têm com quem contar.

Voltou a chover no início da tarde, e assim foi noite e madrugada adentro, e segunda-feira afora. E vai continuar chovendo ao menos até a madrugada deste 31.

Seguem alternativas para quem queira ou possa ajudar o povo sobrevivente do Recife e entorno. Começo pelo Instagram da vereadora Dani Portela (PSol):

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