Nos 50 anos do golpe, há quem queira reedição

Mulheres-artistas encabeçam protesto contra a censura, na Cinelândia, Rio de Janeiro - 12 de fevereiro de 1968 - Foto: Agência JB, capturada na página Nunca Mais - Brasilientag no FB
Mulheres-artistas encabeçam protesto contra a censura, na Cinelândia, Rio de Janeiro – 12 de fevereiro de 1968 – Foto: Agência JB, capturada na página Nunca Mais – Brasilientag no FB
por Sulamita Esteliam

Na Alemanha, grupo teuto-brasileiro Nunca Mais – Nie Wieder organiza uma série de eventos para lembrar os 50 anos do golpe cívico-militar no Brasil, com exposições fotográficas, debates, ciclos de palestras, lançamentos de livros como K do jornalista e escritor, Bernardo Kucinski, que versa sobre o período de chumbo. Informa o Correio do Brasil.

Haverá, também,  mostras de filmes e documentários, como A memória que me contam, de Lúcia Murat, e Marighella, de Isa Grinspum Ferraz. A programação segue até o fim de novembro, em Berlim, Bielefeld, Bonn, Colônia, Frankfurt, Hamburgo e Leipzig, na Alemanha. E também no Brasil: em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Ativistas políticos foram caçados como terroristas, capturados, torturados, exilados ou "desaparecidos"
Ativistas políticos foram caçados como terroristas, capturados, torturados, exilados ou “desaparecidos”

Enquanto isso, no Brasil, um segmento da sociedade teima em desconhecer a herança maldita do golpe cívico-militar que nos impingiu 21 anos de circo dos horrores, com tortura, assassinato e desaparecimento de centenas de militantes, a maioria jovens com menos de 25 anos. Implantou a censura, suprimiu direitos, massacrou consciências, consagrou a barbárie.

Não sei se rio ou se choro.

A contribuição religiosa - Foto capturada na rede
A contribuição religiosa – Foto capturada na rede

Acompanho, entre incrédula, estupefata e indignada, as mobilizações, via redes sociais, para a reedição da malfadada Marcha da Família em Deus pela Liberdade, cujo ponto de partida completa 50 anos neste 19 de março, dia de São José, no calendário religioso católico.

Para quem não sabe, ele é padroeiro da família e o “santo da chuva”, e, por este último motivo, venerado particularmente no Nordeste.

Começou em São Paulo e se alastrou por todo o Brasil, servindo como lastro aos golpistas que apearam Jango/João Goulart do poder.

Euzinha acabara de fazer 10 anos, mas me lembro muito bem. Da marcha e do golpe. Minha mãe nos levou, eu meu irmão e minhas irmãs para orar a Deus pela liberdade, na missa campal na Praça da Rodoviária, em Belo Horizonte. Não sabia da missa o roteiro, como a maioria dos milhares que lá compareceram. Deu no que deu.

Uma semana depois, fomos todos, novamente, para o terreno vago em frente ao bar do seu João, assistir pela TV o discurso de Magalhães Pinto, governador de Minas Gerais e golpista de primeira hora, conclamando “os patriotas” a apoiarem a marcha militar sobre Brasília.

A versão século 21 da marcha, está marcada para o sábado, 22, na Praça da República, na capital paulista. E  há versões clonadas em Campinas, Curitiba, Blumenau, Florianópolis, Rio de Janeiro, Brasília e Fortaleza. Na cabeça dos organizadores e acólitos, o Brasil estaria sob a “ameaça comunista promovida pelo PT e partidos corruptos, a invasão externa” e que tais…

Pedem “intervenção militar, já”, e querem crer que “intervenção não é ditadura, mas colocar a casa em ordem”. E misturam outras pautas conservadoras, que envolvem direitos civis como liberdade religiosa e contra a livre orientação sexual e de concepção.

Quer dizer, baboseiras e fantasmas que assombram, à falta de informação ou à manipulação desvairada. Mas, também, credos e fundamentalismos que habitam o seio de boa parte da nossa sociedade.

Não se pode olvidar, como já observei acima, que em 64, as famílias, a partir das mulheres – sobretudo as de classe média, mas não só – se permitiram ser massa de manobra a serviço da tomada do poder pela direita civil e militar. O blogue Território da Maíra tem crônica interessante sob e sobre esse aspecto da manifestação.

A militarização da polícia e a violência policial são heranças da ditadura - Foto capturada no sítio Nunca mais - Nie Wider
A militarização da polícia e a violência policial são heranças da ditadura – Foto capturada no sítio Nunca mais – Nie Wider

Tudo, naturalmente, com o beneplácito da mídia nativa convencional,  que publica o que convém aos interesses de determinados grupos, e se omite quando se dá o contrário. Hoje como dantes. Aqui, até a TV pública, a Cultura de São Paulo, de onde escrevo estas mal-traçadas,  entrou na roda com empenho.

Vale a leitura do artigo do professor Laurindo Lalo Leal, em Carta Maior: O Brasil da mídia e o país real.

Claro, a democracia tem que conviver com tais aberrações de pensamentos e atitudes, que são parte do livre elucubrar e se manifestar, tão caros. Obviamente que nos limites da lei. Só que essa gente não raciocina, ou omite deliberadamente, o fato de que essa tal liberdade nos foi tomada por duas décadas, enquanto vigiu o regime de triste memória.

Se vigorasse ainda hoje, até eles teriam que se calar, pois apenas a uma determinada casta é dado manifestar-se sob o arbítrio. Certamente não têm memória. Ou, bem provável, ouviram o galo cantar e não sabem onde, nem distinguem a nota.

A propósito, o sítio de Carta Capital publica um Especial – 50 Anos do Golpe, com boa análise sobre o processo. Clique para ler.

Bom, certamente e felizmente, há contrapontos. Em São Paulo, pelo menos, haverá ato simbólico contra o golpe de 64 e em repúdio à reedição da Marcha da Família. A concentração é as 15:30, na Praça da Sé, no mesmo sábado 22.

No dia 31, véspera do golpe perpetrado em 1º de abril, haverá ato unificado no prédio da Rua Tutoia, a partir das 10:00 horas. A convocação é da Comissão da Verdade Rubens Paiva, da Assembleia Legislativa de São Paulo. Leia a íntegra no blogue da Maria Frô.

cartaz recifeAtualizo, com informações do Recife, que não poderia faltar nessa hora: a concentração da Marcha Antifacista na capital pernambucana é na Praça do Derby, a partir das 14:00 horas, do sábado 22.

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Postagem revista e atualizada às 15:17 horas do dia 19.03.2014 e às 16:53 horas do dia 20.03.2014.


2 comentários sobre “Nos 50 anos do golpe, há quem queira reedição

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