Carta à minha mãe, onde estiver

por Sulamita Esteliam
Mãe na falésia
Passeio nas falésias da Praia das Fontes, Morro Branco, Ceará – 1995

Ontem passei o dia celebrando seu aniversário, mãe. Não sei se onde você está se comemora aniversários. Creio que, se existir efeméride, teria que ser assim, no plural. Se vida outra houver, há de ter vidas passadas. Quais dos aniversários celebrar? E o tempo da derradeira chegada nesse outro mundo, também se comemora?

Sei, mãe, que bateu uma saudade imensa, maior do que sempre. Até comi banana assada no almoço, em sua homenagem. Creio ter sonhado com você, noite passada. Talvez, porque tenha ido à praia no domingo. Além da longa caminhada rotineira, com os pés na areia e na água, tomei banho de mar.

E lembrei-me o quanto você amava esse contato com a natureza. Ou seu nome não seria Dirce, que é fonte, nascente – significante e significado, no grego e latim.

Talvez porque domingo fosse Dia de Finados – e nunca mais pus os pés no seu túmulo, mesmo quando visito nossa Beagá. Pensei nisso enquanto deixava as ondas cobrirem meu corpo.

Não há mais você lá, mãe, bem sei. Nem mesmo havia quando lá depositaram o corpo que sobrou de você.  O corpo que esgotou-se em si mesmo depois de longo sofrimento. A alma, que sempre se manteve inteira, busco-a, amiúde, e a encontro dentro do meu ser.

Mãe 1990
Dona Dirce, minha mãe, em festa na nossa casa em Beagá – 1990

Mas hoje, acordei com a sensação do seu abraço, caloroso, desajeitado e raro. E como é bom…  Fazia tempo não sentia sua presença, assim, tão junto a mim. Talvez porque você tenha me sentido aflita com todos os recentes acontecimentos equizofrênicos em nosso país. Você, que sempre prezou a justiça, ficaria indignada.

É mãe, reelegemos Dilma presidenta da República. Sim, ela é do PT. Ah, claro que você sabe: Lula conseguiu ser eleito, governou para os pobres, e também para os ricos, e foi reeleito. E conseguiu fazer sua sucessora, que continuou e aprofundou a obra, e agora foi reconduzida pelo voto popular, para mais quatro anos. Apesar da campanha sangrenta.

É óbvio que ainda há muito o que fazer, e também há o que corrigir. Mas ela é capaz de fazê-lo, e o povo há de lhe dar respaldo para seguir adiante. É mulher de fibra.

A eleição foi muito disputada, mãe, talvez a mais reenhida que eu já vi. Até a tal da  “providência divina” resolveu comparecer. Travestida em acidente de avião, resultou na morte de um candidato, um certo Eduardo, pouco cotado nacionalmente, mas muito querido por essas plagas. Neto de Miguel Arraes, que governava Pernambuco quando você esteve por aqui.

E olha que estranho: tudo aconteceu no dia 13, de agosto. Sei o que está pensando, 13 é o número do PT, e agosto é tido como azarento… Mas não não é só isso, não: o avô do falecido, também se foi num 13 de agosto, há nove anos. Acho até que ele pode ter dado uma mãozinha, e levado o neto antes que ele fizesse besteira irreparável… Sabe-se lá!

Então, veio o golpe de luto, com direito a velóriomício e tudo, e a ascensão da vice dele, uma certa Marina Silva. Pois é, veja só, outra mulher… Uma dublê de ninfa da floresta, que já implodiu dois partidos e uma tentativa de rede, tudo depois que saiu do PT – com síndrome de preterida.

Sim, ela queria ter sido a ungida por Lula, na conta de “herdeira” de Chico Mendes – o líder seringueiro, você conheceu – e do passado comum de gente humilde, muito no passado, aliás. Não tendo sido a escolhida, arrasta sua burca inconformada para lá e para cá. Sabe como são essas coisas, né mãe?

Aí, com o auxílio luxuoso da família do defunto, o ópio da “nova política” e  fundos da banca – isso mesmo, banqueiros, tudo a ver com o novo – se enrolou nas próprias contradições. Tropeçou nas mentiras, posou de coitadinha, e dançou.

Quem foi para o segundo turno com Dilma? O 1º Neto, sim ele mesmo, o Aecim, herdeiro do Tancredo Neves. Não, não é boa gente não senhora. Um arremedo, mãe, daqueles de fazer o avô – que podia ser um dissimulado, mas se manteve democrata – se revirar no túmulo cada vez que a cria abre a boca.

Típico filho de avô, mimado e birrento. Além de ser mal educado, machista e, claro, mentiroso e canastrão. Do tipo que não pode ser contrariado, que gosta de levantar o dedo para, e não apenas, mas tão somente, para mulher. Chamou a presidenta da República de “leviana e mentirosa”, acredita, mãe? Subiu no salto e achou que poderia ganhar a eleição no grito.

Até foi ao túmulo do avô pedir a benção. Teve ajuda dos de sempre.

Mamãe e Euzinha, em 1970
Mamãe e Euzinha, em 1970

Lembra do que aconteceu com Lula na disputa com Collor de Mello, em 1989? Pois é, aconteceu de novo, mãe. Só que desta vez não houve manipulação do noticiário sobre o debate. Houve, sim, antecipação da edição, e distribuição da capa, do panfleto chamado Veja – que eu chamo de Óia! – repercutido por toda a mídia, inclusive a Globo  – ela outra vez – que se quer fatal.

Acusações, sem provas, da conivência de Dilma e Lula sobre malfeitos na Petrobras. Isso a três dias do pleito no segundo turno, mãe. Uma história comprida, que vem se arrastando desde o ano passado, não para defender a empresa-símbolo nacional, mas com claros fins eleitorais e privatistas, bote fé.

Pois lhe digo, mãe, que Dilma partiu pra cima, pediu e obteve direito de resposta na Justiça. Usou o último dia do horário eleitoral para dizer que vai processar seus difamadores. E, apesar de tudo, ganhou a eleição. Com margem apertada, mais ganhou, mãe. Igual o que acontece nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra. Foram três milhões e meio de votos a mais; se fosse por um voto teria ganhado do mesmo jeito.

Mamãe com Carol, na formatura da pré-escola
Mamãe com Carol, na formatura da pré-escola – 1990

E o Brasil que quer que o Brasil continue dando certo está feliz. Todavia, preocupado, sabe por que, mãe? Essa gente abusou do ódio e do preconceito contra pobre e nordestino, por conta do resultado do primeiro turno,  com Dilma à frente. E viu seus planos rasteiros irem urna abaixo no segundo turno. Agora, mostra que não sabe perder. Quer forçar o terceiro turno.

Isso mesmo, mãe! Entrou com pedido de “auditoria especial” – tucanaram a recontagem, diria o Zé Simão – do resultado no TSE. Mal terminada a eleição, parte dos seus seguidores, está nas ruas, e nos jornais, clamando por impeachment. Pior, quer retorno dos militares ao poder. Você pode acreditar numa postura mais totalitária e irresponsável?

Sei que, à essa altura, você está pasma, roxa de indignação. Não é para menos, mãe. Pois saiba que o simulacro de grande líder sequer piou até a hora em que escrevo. Nem uma palavra de constrangimento pelos ataques recentes de seus bate-paus e asseclas à democracia.

É sorrateiro e covarde, mãe. Por isso foi defenestrado nos dois turnos pela Minas Gerais que simulou governar durante 12 anos – quem sempre mandou é a irmã dele, mesmo nos quatro que teve à frente seu ex-vice.

Não respeita o eleitorado que depositou nele sua confiança. Porque, quem está na rua a brandir o ódio e a inconsequência não representa um milésimo dos que votaram nele, mãe. O brasileiro, mesmo que não comungue com o projeto de país defendido pelo PT, não é partidário da intolerância nem quer o pior para o Brasil, você não acha?

É, mãe, você pode imaginar o tamanho da minha agonia. Talvez por isso, tenha vindo visitar meus sonhos noite passada.  Mas não se avexe, que estou com a esperança da maioria, bem guardada dentro de mim. Não passarão.

Mamãe com Babih - 1993
Mamãe com Babih – Brasília, 1993

Daí onde você está, qualquer que seja o lugar, torça para que o bom senso, a temperança e o direito prevaleçam por aqui. Embora nunca dantes tenha ouvido falar em Dilma. Mas lembra-se como você torcia para que um dia o Brasil fosse dirigido por uma mulher?

Pois é, não é a sua filha, mas bem que poderia ser sua irmã caçula ou sua sobrinha mais velha. Lembro-me bem da sua decepção, quando descobriu que esta sua filha não podia se candidatar a vereadora, como a senhora queria e até, de certa modo, exigia…

Não, mãe, eu continuo gostando de política, e me metendo até onde não sou chamada, mas até hoje não me filiei – nem ao PT nem a partido algum. E você sabe muito bem por quê. Meu nariz é meu guia. A maturescência não me tirou o traço independente, e libertário. Luto pelo que acredito, e não aceito cabresto. Simples assim.

Suas netas e neto também não são filiados. Mas sabem muito bem fazer campanha, ô se sabem! Claro, ainda há tempo, mas duvido que haja disposição para mais do que isso. Não, não me esqueci de seus desejos, mãe …

Ainda tenho o guardanapo de papel no qual você escreveu, enquanto aguardava nos corredores da maternidade o nascimento da Carol. Entregou-me quando cheguei ao quarto: eram versos, quase uma oração, na qual agradecia a dádiva de mais uma neta, e prenunciava que ela seria “a primeira mulher presidente do Brasil…”

Ri muito, e tive que segurar o ventre por conta dos pontos da cesária. É que eu ia parir sem ter ideia do sexo da criança, mas na sala de parto os médicos diziam: “Vem aí a futura deputada do PT…” Sintonia fina a de vocês. Mas se esqueceram de combinar com a borboleta…

Mas não se aperreie, mãe. Às vezes a intuição dá xabu.

Mãe e eu
Mamãe e eu, Pátio de São Pedro em frente à igreja de mesmo nome – Bairro de São José, Recife – 1999

Já me alonguei por demais. Vou ficando por aqui. Antes, quero dizer que mergulhei fundo no baú, atrás de materializar as lembranças de você, todas as possíveis. Passei o dia nisso, e entrei noite afora, pois sempre esqueço o quanto sou capaz de acumular. Mas isso também não é novidade para você.

Sorte que minha bagunça é mais ou menos organizada, e não preciso chegar ao ponto de botar casa inteira de pernas para o ar para localizar o que eu quero. Sorte também que hoje é uma segunda tranquila, e pude me dar ao luxo de entregar-me às reminiscências…

Daqui a pouco vou postar nas redes sociais. Assim, suas crias, e os frutos do ventre delas, e as sementes que estes já espalharam, vicejaram e colheram podem delas partilhar.

Com amor de alma cheia.

Sua primogênita – que é como você costumava me apresentar.

Recife 03-04 de novembro de 2014

Mamãe com Babih em Boa Viagem - 1999
Mamãe e sua despedida do mar – Boa Viagem, Recife, 1999

 

***************

Postagem revista e atualizada às 11:43, hora do Recife: correção de erros de digitação e substituição de palavras repetidas em alguns parágrafo; acréscimo da frase “É mulher de fibra”, no oitavo parágrafo e da palavra “…e libertária” no parágrafo 28.


4 comentários sobre “Carta à minha mãe, onde estiver

  1. Na manhã de uma terça-feira de enfrentar demandas que enlouquecem, quando, por exemplo, a gente tem que enviar – com um mínimo de segurança institucional, uma família para não-sei-onde, fugindo desesperada da parcela ácida dessa nossa sociedade civil ; ou escovar e lustrar a mente para extrair um lume pelo menos inteligível para aquela entrevista à tarde, de alcance vital – público vital, na tentativa sôfrega de salvar uma Etnia cujo Futuro de seus filhos escorre diariamente pelos ralos da cruel exclusão, deparo-me com seu texto-crônica-poesia. Que me remete à minha mãe. Que me endorfina e enche de força. Adelante!
    Um beijo Companheira.
    Bernadete Lage,
    Na luta por Inclusão ampla, geral e irrestrita. Libertação para a Etnia Cigana.

  2. Minha Amiga-Ídolo (0u é Ídola?) Mineiribucana Sulamita Esteliam,
    Depois de uma saudação tão longa (que alguns poderão dizer: Quanta frescura!), vou direto ao assunto.
    Que maravilha, esta carta-poesia-crônica à sua Mãe, Dona Dirce.
    Lógico, que o seu talento para escrevinhar recebeu DNA de Dona Dirce, que possuía a sensibilidade para a vida e para o mundo de uma mulher guerreira, como você sempre se refere a ela.
    Pode ter certeza, Sulamita, Dona Dirce está feliz com o seu presente-homenagem postado no seu Blogue.
    Um abraço, Ruy Sarinho

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