Jô e Xuxa, e o preço da lealdade global

por Sulamita Esteliam

Dias atrás, o querido mestre Paulinho Saturnino Figueiredo, um provocador de primeira, saudou, no Facebook , a inusitada postura de Jô sobre o avanço nas políticas sociais. O humorista taxou como ridícula a comparação de tais ações com “bolivarismo”.

Lembro-me de ter comentado: “Sei não…”

E alguém curtiu e emendou: “Não confio no gordo”.

Houve um tempo em que não dormia sem ver o tête-a-tête televisado dele. Desde 2005, com a adesão incondicional à tentativa do PIG de desestabilizar o governo Lula, passei a desligar a TV, especialmente quando, sintonizada na Globo, anunciava-se o Programa do Jô.

A partir de 2010, passei a fazer o mesmo com certo programa matinal, cuja apresentadora vestiu luto pela vitória de Dilma Roussef no segundo turno eleitoral. Neste ano, definitivamente, risquei a Plim-plim.

Sem obrigação profissional que me obrigasse a ver noticiário televisivo, na sequência, deletei as demais emissoras da minha vida, do meu mapa de informação, ou mesmo de lazer. Exceto a TV Brasil, TV pública, ainda assim, eventualmente. A internet é o meio.

Pois bem. Minha navegada diária pela rede levou-me ao blogue do colega jornalista Luis Nassif. Na verdade, ao seu sitio jornalístico GGN – o jornal de todos os Brasis, como se autoproclama (ainda vou perguntar pra ele de onde tirou este nome…).

Transcrevo o que encontrei:

Xuxa, Jô e o fim das lealdades televisivas

Ao lado de Arnaldo Jabor, Jô Soares foi a primeira celebridade televisiva a explorar o sentimento de preconceito da classe média alta contra a democracia social que avançava.

Narro isso em minha série “O caso de Veja”, de 2008.

De repente, em seu programa Jô critica o ridículo de se tratar qualquer avanço social como “boliviarismo”, refere-se de forma simpática a Fidel Castro e ao próprio Evo Morales. Na sequência, a Globo anuncia o fim do público e do conjunto musical em seu programa, como parte de uma estratégia de controle de custos.

Imediatamente, na blogosfera, Jô torna-se um herói da resistência e a redução do seu programa é atribuído a represálias da Globo.

***

Volte-se a cena e recomece-se na ordem correta:

1.    A Globo decide reduzir os custos do programa de Jô e comunica a ele.

2.    Jô rebela-se e, no seu próprio programa, emite opiniões contrárias ao padrão Globo.

3.    A notícia torna-se pública.

Há alguns meses, a Globo enviou uma comitiva para percorrer os principais grupos de mídia do mundo e definir uma estratégia para ela. As recomendações foram na linha da redução drástica de custos, para enfrentar os novos tempos.

***

Até então, o enorme poder de monopólio da Globo permitia-lhe pagar um cast de artistas não aproveitados, apenas para impedir que fossem para a concorrência. Do mesmo modo, comprava campeonatos esportivos que não transmitia como filmes que não passava.

Esse mundo acabou. Ontem, foi anunciado o final do contrato com Xuxa. Outros destratos se seguirão. Jornais e revistas passaram a abrir mão de seu elenco de jornalistas, substituindo-os por uma infinidade de colunistas ou de jovens repórteres.

***

Historicamente, o maior investimento dos grupos de mídia era no seu cast. A imagem de atores, jornalistas, colunistas, cantores, era construída como celebridade. Seu perfil não era de mortais comuns. Habitavam um Olimpo e de vez em quando desciam à terra para palestras e confraternizações rápidas com os humanos.

É verdade que, de manhã, tinham que pagar as contas, brigar com os vizinhos, encrencar com as sogras como qualquer humano. Mas o modelo era suficientemente restrito para ser seletivo: poucos deuses jornalistas, poucos deuses atores.

De repente, chega a Internet não apenas colocando em xeque a fórmula financeira dos grupos de mídia, mas explodindo com seu universo de celebridades. Redes sociais, blogs dos mais variados, passam a construir seu próprio Olimpo, banalizando o modelo, que sempre foi peça chave do alcance e da influência dos grupos de mídia.

***

Décadas de investimento em colunistas, correspondentes, atores, celebridades estão sendo jogadas fora devido ao esgotamento financeiro do modelo tradicional de mídia.

Alguns jornalistas estão indo para a Internet, seguindo o caminho dos pioneiros. Outros, buscando as assessorias de imprensa – algumas delas com muito mais jornalistas do que as maiores redações.

Dia desses houve uma bela cerimônia de premiação de jornalistas que reuniu várias gerações, dos anos 70 até os dias de hoje.

Tinha todo o ar de último baile da Ilha Fiscal. Alguns dos premiados ousaram gritos de guerra contra as ameaças à liberdade de imprensa.

Deve ter sido um dos últimos episódios de solidariedade entre jornalistas e empresas.


2 comentários sobre “Jô e Xuxa, e o preço da lealdade global

  1. Em primeiro lugar, já aboli a rede globo da minha vida desde que aqui cheguei (lisboa ) haja visto que todos ou quase todos nós Brasileiros, que residimos aqui temos interesses por noticias de nosso país de origem, no entanto temos TV BRASIL, REDE RECORD, e se pagarmos mais (dez euros ) temos o desprazer de ver a GLOBO. Ou seja cobram a mais pelo pacote da Tv cabo………..
    A SULAMITA, PARABENS E AQUELE ABRAÇO…….

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