Dilma ousa na escolha de novos ministros

Edinho e Dilnma
Dilma escolheu Edinho Silva para substituir Thomas Traumann – Foto capturada no Brasil 247
por Sulamita Esteliam
Renato Janine_Conversa Afiada
Renato Janine preenche a vaga deixada por Cid Gomes – Foto capturada no Conversa Afiada

Cumpro agora a ideia de celebrar a escolha dos novos ministros do governo Dilma, anunciada na sexta, 27. Sobretudo o novo titular da Educação: o filósofo Renato Ribeiro Janine. Um homem sensato, que gosta da boa polêmica sem perder o equilíbrio. Melhor, é do ramo.

Euzinha, que tenho sido crítica ferrenha à comunicação das gestões da presidenta, devo cumprimentá-la pela ousadia de escolher um político para a Secom – Secretaria de Comunicação. Quem sabe um sociólogo, com cintura ajustada à política, consiga dar um jeito no que jornalistas profissionais falharam?

Concordo com Fernando Brito, do Tijolaço: certamente terá habilidade para lidar com a resistência previsível dos coleguinhas, já que o corporativismo é a tônica nos meios profissionais – quaisquer uns. Mas nada que o andar da carruagem não acomode.

Edinho Silva é sociólogo e professor. Foi tesoureiro da campanha da presidenta Dilma Roussef à reeleição, e goza de sua estrita confiança.  Político habilidoso, foi ex-deputado estadual em São Paulo (PT) e ex-prefeito de Araraquara, onde cresceu e se graduou. É paulista de Pontes de Gestal.

De volta ao novo ministro da Educação, devo confessar: sou fã de Janine, desde os tempos de sua curadoria no Café Filosófico, creio que em 2003/2004, programa da TV Cultura – nos bons tempos da TV cultura. Não perdia o programa, mesmo quando eram outros os curadores e/ou convidados. Vida inteligente na TV aberta, coisa rara.

Boa sorte para os dois novos ministros, em áreas tão sensíveis, vitais para nosso Brasil.

Compartilho um texto e um acesso a outro artigo do filósofo e professor, antes do convite para assumir o MEC. Encontrei-os no curso da navegação vespertina pela blogosfera – no jornal GGN e no Twitter, via o amigo mineiro Beto Mafra .

São amostras do pensamento do novo ministro, para quem não conhece familiarizar-se, e para quem conhece relembrar. Não obstante, expõem, também, de certa forma, um traço do caráter da presidenta da República, a contrariar a visão que dela se espalha – a de ser avessa a críticas:

O pensamento do novo Ministro da Educação, Renato Janine

O artigo abaixo foi escrito para o Valor Econômico, antes da crise que derrubou o Ministro Cid Gomes.

Será que desejamos o impossível?

Por Renato Janine Ribeiro

Um principio básico da ciência e que, quando uma hipótese não explica os fenômenos, devemos procurar outra que de melhor conta deles. Este principio me ocorreu ha poucos dias. Afinal, quase todos os analistas, eu inclusive, temos criticado a presidente da Republica por seu estilo de pouca negociação. Ate ficamos espantados: como sobe a presidência alguém que ignora princípios tão elementares? Mas ai parei. Nunca e bom apostar na ignorância ou inépcia daquele a quem criticamos. Pode ser que Dilma Rousseff erre sim ao não negociar, ao não fazer politica. Só que…

Se isso não for obvio? Se nosso ponto de partida estiver errado?

Durante milênios, os homens acreditaram que os astros, inclusive o sol, giram em torno da Terra. Só que, desse jeito, alguns astros têm um movimento estranho, irregular, e ate mesmo retrogradam. Já com a astronomia moderna, heliocêntrica, os movimentos dos planetas – inclusive a Terra – em torno do Sol descrevem orbitas mais regulares. Essa, a lipao cientifica: se os resultados soam absurdos, devemos questionar a hipótese de que partimos. No caso, em vez de pensar que Dilma ignora o mais elementar da razão e da politica, indagar o que ela efetivamente pretende.

Da para governar bem e ser honesto no Brasil?

No seu primeiro ano de governo, Dilma demitiu todos os auxiliares acusados de corrupção. Foi aplaudida. Mas logo começaram a questiona-la: por que não fazia alianças? Porque não gostava dos políticos? ou, sei lá, da própria politica? Só que, num Pais em que tantos políticos importantes são suspeitos de corrupção, negociar com eles o que significa? Podemos ter decência no exercício do poder e, ao mesmo tempo, transito livre pelo mundo dos políticos?

Essa e a realidade atual, que precisa mudar, mas isso não será fácil. E se Dilma for representativa de nosso desejo difuso de uma politica competente e sem corrupção? Ela se irrita, sim, com quem esta a sua volta, o que politicamente e inábil, mas isso porque cobra eficiência. E isolou a família da politica. Nem ela nem os familiares despertam suspeitas de favorecimento pessoal. Pode ate governar mal, só que detestando a corrupção e a ineficiência. Mas basta detesta-las para supera-las?

A hipótese passa a ser: e se o “momentum” Dilma for exatamente a tragédia mais representativa daquilo que desejamos? Se o problema não estiver nela, mas em nos? Em nos, analistas da politica e cidadãos, que pretendemos o melhor de dois mundos: eficiência e honestidade.

Pode haver governabilidade, no Brasil de hoje, sem corrupção? Podemos ter governabilidade sem negociações e alianças, que vão ao limite de nossa irresponsabilidade?

Para não ficarmos num só partido, lembremos a rebelião do PCC em São Paulo em 2006, quando a quadrilha paralisou a cidade por alguns dias. A situação só foi resolvida quando 0 governo estadual – que e do PSDB – negociou com 0 PCC e cedeu. Meticulosamente, deletamos este passado (embora ainda presente) de nossa memoria.

E ouvi de Dráuzio Varella que desde o massacre do Carandiru em 1992, ocorrido no governo do PMDB, a policia não entra nos presídios do Estado. São geridos pelo crime. Isso e inadmissível. Mas assim baixa a violência nas cadeias e mesmo 0 crime fora delas.

Essa mistura de bem e mal, de resultados positivos e meios obscuros para consegui-los, merece atenção. Porque lavamos as mãos. Denunciamos a corrupção e queremos que as leis passem no Congresso. Mesmo na ditadura, isto e, num regime em que 0 Congresso pouco decidia, 0 assessor presidencial Heitor de Aquino dizia, quando ia negociar a aprovação de decretos-leis pelos parlamentares, que ia abrir o “barril de peixe podre”. Imagina-se 0 odor. Fingimos que ele não existe, ou que nasceu ontem.

Uma vez, estive na antessala de uma pessoa com certo poder. Faltava agua no seu prédio. Ouvi a secretaria telefonar a alguém: “Não quero saber como, mas você terá que resolver 0 problema em duas horas”. Pensei que era uma forma de exigir eficiência e presteza. Mas depois entendi que esse bordão serve para colocar 0 encarregado a margem da lei. Vire-se. Se violar a lei, viole. Mas eu lavo as mãos. “Não quero nem saber!”

E se Dilma tiver a mesma convicção que 0 povo brasileiro? Se também quiser 0 fim da corrupção e, ao mesmo tempo, um governo eficiente? Se sua aversão aos políticos for porque não ere na sua honestidade, nem competência? Neste caso, não a estaremos condenando, exatamente porque tem os mesmos propósitos da maioria da sociedade?

Esta e uma hipótese. Não justifica a presidente, no sentido de aprova-la e apoia-la. Ela deveria dialogar, se não com a categoria politica, certamente com a sociedade. Mas a hipótese talvez explique os fenômenos, isto e, a ação – e inação – de Dilma, melhor do que a suposição de que ela e inepta politicamente. E cabe perguntar se a psicanalise não ajuda a entender 0 ódio crescente a ela. Ódio ao outro e projeção de ódio a si mesmo (simplifico, claro). Talvez ela cause tanta rejeição porque nos mostra, as escancaras, um dilema que queremos esconder de nos. Queremos a honestidade sem pagar 0 prego por ela. Pensamos que a honestidade dos políticos, quando vier, vai nos cumular de bênçãos. O dinheiro que e roubado da sociedade vira a nos como as fontes de leite e mel da Terra Prometida. Esquecemos que chegar a isso da trabalho, e que também terão que acabar muitas condutas nossas, “informais” dizemos as vezes, imorais ou ilegais. Mas, sobretudo, esquecemos que reformar a politica não e só dos políticos. Demanda esforço de quem os elege, e esse esforço não se resume em raiva, menos ainda, insultos.

Renato Janine Ribeiro e professor titular de ética e filosofia politica na Universidade de São Paulo. Escreve as segundas-feira

 

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PS: Ontem fui vencida pelo cansaço e não consegui escrever nem postar nadica. Compenso a ausência rompendo a minha folga de sábado. É da lei.

 


2 comentários sobre “Dilma ousa na escolha de novos ministros

  1. Amei o texto do Janine reproduzido aqui! Vez por outra quando estou entrevistando advogad@s, no Programa Ouvir Direito da nossa rádio local, indago sempre sobre a nossa conduta política… quem sabe a responsável maior pela desarticulação governamental, não seja mesmo a sociedade brasileira?
    As redes sociais mostram claramente, que cultura absorvemos! O povo não busca conhecimento nem informação… pergunte a alguem no”face” se sabe sobre as novas medidas previdenciárias? E se conhecem o novo CPC? Se já foi, mesmo desinteressadamente, ao Fórum de sua comarca para entender melhor como funcionam os processos e por quê demoram tanto?
    Alguém visita regularmente os portais de transparência, ou mesmo os sites de editais públicos?
    Pois é… conhecer, avaliar, analisar pra poder mudar, ninguém quer né?

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