Dores e odores da pátria amada, Brasil

por Sulamita Esteliam
O Metrô parou, em BH - e no Recife também - Foto: Rogério Hilário/CUT-MG
O Metrô parou, em BH – e no Recife também – Foto: Rogério Hilário/CUT-MG

Sexta-feira fria, chuvosa, com manifestação de rua e paralisação do transporte coletivo em Beagá. Receita perfeita para o caos, numa cidade que simplesmente trava toda manhã, fim de tarde e início de noite. Dá saudades do Recife, onde também tudo parou – por conta da greve e da chuva.

Paralisação Nacional convocada, no 1º de Maio, pela CUT, demais centrais sindicais e pelos movimentos sociais, se não foi greve geral, deixou muita gente em casa. Senão pela causa, pela impossibilidade de locomover por grandes distâncias.

No hospital onde acompanho minha irmã, a quebra na escala foi tal – o pessoal que pega no pesado e depende de transporte coletivo – que plantonista da noite foi convocado para dobrar o dia. Até porque, não conseguiria voltar pra casa mesmo.

Ainda assim, e apesar do esforço da equipe, o atendimento virou de ponta-cabeça. É o que dá economizar na contratação de pessoal, padrão-saúde mesmo em hospitais particulares como o que estamos.

Haja desdobramento, e sangue frio.

Inevitável, contudo.

Povo na rua é o antídoto mais adequado ao veneno do conservadorismo, profundamente inoculado na agenda político-econômica brasileira.

É preciso reconhecer, a mobilização tem bons motivos: a defesa dos direitos do trabalho – contra o PL da Terceirização e o ajuste fiscal. Portanto, em defesa da democracia e do Brasil, que se continuar nesse diapasão, corre o risco de não sair do trote.

No entanto, perguntar não ofende: quantos de nós, cidadãs e cidadãos conseguem traduzir isto naquilo?

Se depender da mídia venal, será no dia de São Nunca, de madrugada, muito provavelmente.

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Sim, mas como hoje é sexta, compartilho deliciosa crônica do amigo Xico Sá, cearense-pernambucano-carioca no El País/Brasil. O tema é nossa pátria-canarinha, onde o dito amor pelo país se confunde com, e mistura, chuteiras, oportunismo e golpismo – a despeito de odores e malfeitos irrestritos.

Bom fim de semana.

 

A pátria em chuteiras e algemas

Os dirigentes da CBF, acostumados a uma marcação frouxa das autoridades brasileiras, agora enfrentaram os beques carniceiros do FBI. Jogo bruto.

Xico Sá

 

José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, na Copa do Mundo do Brasil. / RICARDO STUCKERT/FOTOS PÚBLICAS/CBF
José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, na Copa do Mundo do Brasil. / RICARDO STUCKERT/FOTOS PÚBLICAS/CBF

 

futebol no Brasil já foi tão importante ao ponto do nosso principal cronista, Nelson Rodrigues, ter definido a seleção nacional como a “Pátria em chuteiras”.

Para o estrangeiro ou desavisado conterrâneo da “Pátria Educadora” que ainda desconhece o tio Nelson, deixo uma comparação bem à maneira da pegada hiperbólica rodrigueana: este monstruoso escritor nascido no Recife e criado no Rio de Janeiro é o Shakespeare dos trópicos. No mínimo.

Muita gente se aproveitou do mote do cronista nos últimos 50 anos. Generais da Ditadura Militar, o governo federal do PT/aliados durante a Copa 2014 e, óbvio, a oposição chefiada pelo tucano Aécio Neves e seus célebres amigos futebolistas, como Ronaldo e o seu então agenciado e subalterno Neymar Jr.

A camisa amarela do escrete também virou fardamento oficial das recentes manifestações que clamavam aos céus pelo impeachment da presidenta Dilma, pediam o golpe dos milicos e o fim da corrupção. Por cima daqueles corações exaltados, em uma espécie de taquicardia cívica e moral, havia o escudo da CBF, a Casa Bandida do Futebol, para usar a sigla na versão do jornalista Juca Kfouri(Folha de S. Paulo e ESPN), um Quixote pioneiro nas denúncias das tenebrosas transações da tal confederação.

Em todos os casos de uso e abuso da “Pátria em chuteiras”, vale a versão verde e amarela do filósofo carioca Millôr Fernandes para uma frase famosa do velho mr. Johnson: “O patriotismo é o último refúgio do canalha. No Brasil, é o primeiro”.

Ricardo Teixeira passa a bola para José Maria Marin, que mata no peito patriótico —o do lado do bolso e do coração— e solta a pelota para Marco Polo Del Nero… Eis o trio de atacantes das últimas três décadas na presidência da CBF. Acostumados a uma marcação frouxa e relaxada por parte das autoridades brasileiras, agora enfrentaram os beques carniceiros do FBI. Jogo bruto. Marin está preso na Suíça, Teixeira e Del Nero, os boas vidas, são citados, nas figuras de “co-conspiradores”, no relatório da investigação americana. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos do seriado.

A certeza absoluta da impunidade foi definida por essa turma da pesada em todos os modos possíveis. Principalmente no “estou cagando e andando” de Teixeira, como disse na histórica entrevista à repórter Daniela Pinheiro (revista Piauí, 2011). Falava sobre as denúncias, as mesmíssimas de hoje, que já borravam a sua ficha corrida. “Só vou ficar preocupado, meu amor, quando sair no Jornal Nacional”, desdenhou. E saiu na noite de ontem, vamos ver os desdobramentos. “Deu até no New York Times”, como a gente costuma se expressar na língua provinciana da taba Tupi desde os tempos do Henfil.

Dinheiro e fase anal

O “cagando e andando”, segundo a teoria da fase anal de Sigmund Freud, significa esbanjamento de grana. Simbolicamente, se meu freudianismo de botequim estiver em dia, Teixeira esnobava sem economizar no verbo ou na gastança, sem qualquer contenção (enfezamento), o seu pecado capital sem origem muito bem resolvida. A merda ou o dinheiro, mesmo de maneira simbólica, sempre deixam rastros. Siga o cacau, digo, a grana, reza o manual do cão farejador de mutretas.

Em crise de qualidade técnica e de moral, o mais correto, caríssimo Nelson Rodrigues, seria dizer que estamos em uma fase da Pátria em sandálias da humildade. Descemos do salto alto. Como repetem por aqui: 7×1 foi pouco. Infelizmente não consigo pensar assim de forma tão fria. Aquela tarde-noite do Mineirão ainda me humilha profundamente. Por mais que eu politize a minha dor, minha dor não cai no conto. Algumas dores dos homens, mesmo as mais bestas, são à prova de analgésicos ideológicos. A dor do futebol principalmente.

Falar neste imoral placar de 7×1, mal o José Maria Marin foi para o xilindró “padrão Fifa” de Zurique e o pipoqueiro cearense aqui da esquina da Miguel Lemos com Nossa Senhora de Copacabana já possuía sua teoria da conspiração mais do que fundamentada: a CBF vendeu a Copa. Tudo armação ilimitada. Pego o metrô Cantagalo/Uruguaiana e o papo é o mesmo. No táxi do flamenguista, idem. No bar Papillon, naturalmente.

No Galeto Sat’s, uns amigos do PSOL, ligados na TV Câmera, vibravam com aquele primeiro gol contra do Eduardo Cunha, na derrota do mafioso peemedebista na votação do chamado votodistritão. No dia seguinte, o mesmo 7×1 de sempre contra uma possível ideia de reforma política, como já previa, distraída no ambiente luxuoso, a nada enigmática Valquíria, a mais cool das damas da noite carioca: “Sou puta velha, entregue às evidências, o contrário de qualquer dissimulada Capitu de araque”.

Capitu, para o amigo que não teve chance ou sede de leitura na “Pátria Educadora”, vem a ser um personagem machadiano sobre quem pairavam algumas dúvidas de conduta amorosa. Deixo o Marechal, meu amigo Álvaro Costa e Silva, em colóquio ilustrado com Valquíria, e sigo no jogo sujo e enigmático da existência até a porta de casa.

“O Brasil vendeu a Copa, hein, seu Xico!”, diz o porteiro Juju, outro nobre cearense. “Será?”, indago. “Quando eu tenho certeza né pouca certeza não”, diz ele, convicto. “É certo como boca de padre, justo como boca de bode”, manda o mantra nordestino.

(…) E coube a este noctívago cronista ficar esperando, agora, a chegada do presidente da CBF, Del Nero, até essa hora da madruga, 05h e alguma coisa. Como sabemos, ele fugiu do Congresso da FIFA, em Zurique, e chegaria hoje ao Brasil. Crente em uma prisão espetacular do folgado cartola, algemas assim que soltar o cinto de segurança, aqui aguardo, dedos coçando sobre a máquina de escrever, para concluir essa crônica…

Quem sabe, né?

Esperei, esperei…

Vixe, ilusões perdidas, como naquele velho e lindo romance francês. Esperei até a chegada de Del Nero no aeroporto de Guarulhos.

O homem segue na sua vida boa, a Polícia Federal não inventou um daqueles nomes espetaculares para suas operações, a Pátria em chuteiras espera mais uma rodada do Campeonato Brasileiro.

Bom final de semana.

Xico Sá, escritor e jornalista, é comentarista esportivo dos programas “Redação SporTv” e “Extra-Ordinários”.

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Postagem revista e atualizada dia 30.05.2015, às 7;30: correções de erros de digitação em diferentes parágrafos da primeira parte; alteração da [ultima frase da introdução do blogue à crônica do Xico Sá: “(…)se confunde com, e mistura, chuteiras, oportunismo e golpismo”.


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