A diferença que faz um líder e o caráter

por Sulamita Esteliam

Se é uma coisa quem enche de orgulho alheio é gente que cultiva a dignidade. Se existe algo que eu admiro nas pessoas, é a capacidade de construir, transformar, fazer acontecer. Ousadia com generosidade e princípio.  Boa conjugação para firmeza de caráter, atributo cada vez mais raro.

Não, não falo de heróis ou heroínas. Esses e essas costumam morrer de overdose ególatra. Falo de coragem para se dizer aquilo que pensa, e para fazer o que é necessário. Coragem para, simplesmente, ser. Apesar de.

Coragem. É “o que a vida quer da gente”, disse por esses dias a presidenta Dilma Roussef, citando nosso conterrâneo, Guimarães Rosa.

capa Dilma aberta fim.inddE por falar em Minas, a Minas de fibra, sem perder a gentileza, irretocável o artigo do jornalista mineiro Ricardo Amaral, que transcrevo mais abaixo.

Ele é autor do livro A Vida quer é Coragem, Sextante, 2011. Conta os bastidores da trajetória de Dilma Vana Roussef, da infância classe média, a juventude militante em Belo Horizonte, a prisão e tortura pelo regime militar, a aproximação com Lula, o ministério, até tornar-se a primeira mulher presidenta da República.

Ricardo Amaral
Ricardo Amaral

Ricardo vive em Brasília há décadas, onde passou pelos principais veículos de imprensa, sem jamais ter perdido o rumo. Também foi assessor de Imprensa da Casa Civil, enquanto Dilma foi ministra.

É um amigo querido de longa data, desde os tempos do velho Diário do Comércio. Militamos juntos na capital mineira, inclusive no Sindicato dos Jornalistas, de onde foi o primeiro asssessor de Imprensa.

Não me esqueço do casamento dele com a também jornalista mineira, na época de TV, Malu Baldoni. Foi na igrejinha do Ó, em Sabará – puro romantismo e muita alegria.

Da mesma forma, serei sempre grata pelo carinho com que o casal me recebia, e hospedava, no apartamento deles em Brasília, já com as crianças. Antes de eu também ir morar na capital federal.

Não o vejo desde 1999 – a Malu há mais tempo -, quando prestigiou o lançamento de meu livro Estação Ferrugem, Vozes, 1998, em Brasília. Mas acompanho e aplaudo seus sucessos.

Mantém-se pena firme, como é o seu caráter. Que orgulho.

Eis o artigo, transcrito do sítio do Jornal GGN, do Luis Nassif:

Exclusivo: por que Lula não aceitou ser ministro

Por Ricardo Amaral

Ao recusar um posto no ministério da presidenta Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula produziu um raro momento de grandeza na cena política brasileira. Lula considera indigno de sua história buscar, no foro privilegiado, o salvo-conduto contra as arbitrariedades da hora. Virar ministro seria criar um constrangimento para o governo e para a presidenta. E isso Lula não fará jamais. É assim que se comporta um líder, que não precisa de cargos para exercer a política e dispensa refúgio para a dignidade afrontada.

Na plena vigência do estado de direito, Lula não teria nada a temer. Não cometeu nenhum crime, antes, durante ou depois de governar o País. Sua atividade como palestrante é o resultado da projeção internacional que conquistou. Recolhe impostos pelo que ganha licitamente. Não faz lobby, consultoria nem intermediação de negócios. O Instituto Lula não recebe dinheiro público, nem direta nem indiretamente. Mas, e daí?

No ambiente de terror policial insuflado pela oposição e pela mídia, Lula tornou-se alvo de toda sorte de violência. Agentes do terror lançaram uma bomba na sede do Instituto Lula. Agentes do Estado, que deveriam estar submetidos à Lei e à hierarquia, quebraram ilegalmente o sigilo bancário do ex-presidente e de um de seus filhos. As pegadas sujas do crime estão nas páginas de uma revista sórdida esta semana. Quebraram o sigilo de suas comunicações e, ao invés de denunciá-la, parte da imprensa associou-se à meganha bandida.

Há fortes motivos para crer que o próximo passo seja submeter Lula aos métodos parajudiciais da República de Curitiba: o mandado cego de busca; a condução coercitiva para mero depoimento; a prisão “preventiva” pela simples razão de que o sujeito está solto. Os vazamentos seletivos dos últimos dias desmoralizaram as negativas formais do juiz e dos promotores da Lava Jato: Lula é, sim, o alvo cobiçado da operação. Não para ser processado, pois não há acusação contra ele, mas para ser humilhado diante das câmeras.

No estado de exceção a que se encontra sujeita uma parte do País, ninguém poderia negar razão a Lula caso aceitasse a oferta solidária e leal da presidenta Dilma. Ministro, ele estaria a salvo das arbitrariedades da primeira instância e do terror policial-midiático. Mas Lula não é um ex-presidente qualquer – e nisso é preciso concordar, por razões opostas, com o autor original da frase: Merval Pereira.

(A Tal Mineira: leia, também, do mesmo autor: O Medo que eles têm do Lula)

O imortal do Globo sustenta que Lula não pode ser tratado como um cidadão de pleno direito, porque continua sendo um líder muito influente cinco anos depois de ter deixado o Planalto. Trapaça da história: o promotor que denunciou Lula na LSN por um discurso contra a ditadura, em 1980, também sustentou que a ameaça à segurança nacional não estava exatamente nas palavras do metalúrgico, mas na influência que ele exercia sobre as plateias.

De volta ao imortal: Lula não pode fazer palestras para empresas contratadas pelo governo (Merval talvez ignore que seu patrão, o Infoglobo, que tem contratos milionários com o governo, já contratou palestra de Lula). O Instituto Lula não pode receber doações empresariais (só o Instituto FHC pode, e pode até receber doação da estatal tucana Sabesp). Lula não pode encontrar governantes estrangeiros (embora seja o brasileiro mais respeitado ao redor do mundo). E, se isso fosse possível, Lula não poderia fazer política.

Este raciocínio autoritário, parcial e preconceituoso sustenta as torpezas cometidas contra Lula (e contra a verdade) pelos veículos e colunistas amestrados sob influência do sub lacerdismo tosco e tardio que emana da rua Irineu Marinho. É o que explica as manchetes mentirosas atribuindo a Lula a propriedade de um apartamento que ele não tem, os “voos sigilosos” (em aviões invisíveis?), as “reuniões secretas” (em auditórios públicos, com cobertura da imprensa), os telegramas oficiais grosseiramente manipulados para virar notícia.

Lula é atacado justamente por ser o mais influente líder popular que o Brasil já conheceu. E por ser o maior obstáculo ao projeto regressista e conversador que, frustrada a aventura golpista, por suas contradições políticas e econômicas, precisa eliminar a liderança de Lula antes das eleições de 2018. A Pax Marinho, que ninguém se engane, é um movimento das elites econômicas para garantir a estabilidade necessária ao ambiente de negócios. Não é um pacto para preservar Dilma. E muito menos, para preservar Lula.

O que preserva Lula é sua liderança, sua coerência e seu caráter. Ao recusar o ministério, Lula promoveu um magnífico contraste com personagens políticos, institucionais e midiáticos nesta que é a mais rebaixada quadra da disputa política desde a redemocratização. Enquanto alguns ousam sequestrar instituições, para salvar a pele ou perseguir adversários, e outros se omitem de suas responsabilidades republicanas, por covardia ou conveniência, Lula decidiu simplesmente portar-se com dignidade.

A recusa de Lula é um gesto fundamentalmente moral. É corajoso, porque arrosta a arbitrariedade, e desprendido, porque preserva a presidenta. É mais uma lição do ex-retirante, ex-engraxate, ex-metalúrgico, ex-sindicalista para a educação política desta e de outras gerações. Isso é incompreensível para os abutres que tentam medi-lo pela régua de seu próprio e mesquinho caráter. Lula não é mesmo um ex-presidente qualquer. Lula é um líder.

*************

Em tempo:

  1. O Instituto Lula publica a lista das empresas que pagaram para ter palestras do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O ex-presidente e a empresa LILS solicitaram ao Ministério da Fazenda e à Procuradoria Geral da República, dentro das respectivas competências, que apurem a violação criminosa do sigilo bancário de Lula.
  2. O presidente ingressou com ação de reparo a danos morais contra O Globo por conta de mentiras sobre apartamento no Guarujá.

É assim que se faz.


2 comentários sobre “A diferença que faz um líder e o caráter

  1. Sulamita, muito bom seu comentário sobre caráter e coragem. Aplausos.
    Por acaso o Ricardo Amaral é o Ricardo Batata, da Fafich? Nosso conterrâneo de escola?
    Estudei com ele – ou ele comigo, não sei bem, fizemos poucas matérias juntos, mas se for ele mesmo, desde aquela época, ele dava importância ao que de fato valia a pena.
    Abrs, amiga, que vc esteja feliz sempre.

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