O propósito de cada ano pode muito bem começar pelo ócio…

Mar de ano novo_Boa Viagem
A vida é como o mar, se faz e refaz à nossa revelia… e sem filtro – Foto: SEsteliam
por Sulamita Esteliam

Recomeçar. Eis o propósito a cada novo ano.

Neste 2016, decidi começar diferente: dei um tempo para mim e para o blogue; estiquei as férias da ‘dona Maria’ e arrastei com ela A Tal Mineira.

Os trabalhos da empresa, de assessoria e consultoria em comunicação, com que Euzinha busco acrescentar algum aos caramingás da aposentadoria – por tempo de serviço –  já estavam suspensos, desde o início de 2015. Condições de temperatura e pressão, pessoais e conjunturais.

Não me queixo. Sempre que me faço necessária o Universo conspira, e o trabalho aparece. Apenas não estou mais disposta a buscar sarna para me coçar.

Tenho crédito remoto. Comecei cedo, muito cedo, aos 11 anos, e tive a primeira assinatura na carteira profissional – de menor -, aos 15 anos. Fui mão de obra infanto-juvenil, trabalhei durante o dia e estudei à noite até passar no vestibular. Cursei faculdade já casada, e parindo, e pari um casal nos quatro anos de curso; sempre trabalhando.

Fiz muito trabalho temporário, antes mesmo de me formar jornalista. Os três primeiros anos como repórter se traduziram em freelas fixos e que tais.  O que seria meu primeiro contrato de trabalho como jornalista foi obtido na Justiça, retroativamente, quando já tinha garantido a primeira assinatura em carteira há alguns anos.

Trabalhei em jornal, local e dito nacional, revistas, TVs, assessorias. Completei 30 anos de rame-rame anotados aos 54 anos, 11 meses e 15 dias… Trabalhei mais dois anos até me desligarem a fórceps, em 2010. Para não perder o fôlego, criei este blogue.

E há quem diga que me aposentei cedo.

Contudo, aprendi que ninguém é indispensável, em quaisquer situações. Sem contar que a memória é curta, e conveniente. Entretanto, há coisas que estão reservadas para você; no meu caso, normalmente, é segurar rabo de foguete. Pois digo que cansei, e acionei o botão do foda-se.

Neste ponto do enredo entra o ócio. Ah, o ócio! Todavia, é preciso permitir-se.

Assemelha-se ao comer e ao coçar: é só começar, diz a sabedoria da nossa gente que vale à pena.

Cada vez mais me convenço de que mente quem diz que não consegue ficar à toa na vida. Mesmo uma pessoa do meu naipe e diapasão, ligada nos 220.

Difícil é retomar a rotina.

Até porque, tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. Basta uma rápida navegada pela blogosfera para constatar.

Então, deixo o cotidiano mal-ajambrado que o noticiário configura, e teima em tornar mais obscuro, e uso o último domingo do primeiro mês do ano para falar de contentamento. Aquele que traduz o que foram as mais longas férias dos meus últimos tempos…

Se você se entediar, passe amanhã, porque segunda é dia de retomar a vida real – quando a desídia favorece…

Niver 2015 Sula
Parte da galera no meu almoço de aniversário, clicada por Márcia Heilbuth: Rafael, Nati, Euzinha, Betinho e Lili, em primeiro plano;Carol, Dani, Zenaide, Elgui, Paola e Juliana

Pois bem. As festas de fim de ano, que incluem meu aniversário e outras tantas comemorações, você sabe, passei junto ao núcleo familiar da minha Macondo de origem, nas Gerais. O aniversário e a virada do ano foram na casa que minha filha-terceira, Carol, divide com amigas.

Ela e meu filho Elgui cozinharam para celebrarmos a nova idade. Minha irmã, Lili, com meu cunhado Betinho, minha sobrinha-afilhada Natália, e o marido Rafael me honraram com a presença. Também minhas filhas de coração, Juliana e Paola, do primeiro casamento do meu companheiro, a segunda de férias do trabalho nos States. Pequeno comitê, que incluiu minha nora, Daniela, a mãe dela, Zenaide e uma das amigas da minha filha, Márcia, anfitriã de primeira.

No reveillon, segurei a onda da cozinha. No grupo de 12 pessoas, Euzinha fui a única com mais de 40 anos – e ponha mais nisso… A despeito, fui a penúltima a ir para a cama. Às onze da matina já estava do outro lado da cidade, convocada pela mana para fazer uma carne de sol para o primeiro almoço do ano, que reuniu primas e primos.

De Beagá para Sete Lagoas é um pulo, e foi numa igrejinha e chácara nos arredores que celebramos, no domingo 03, os 80 anos da nossa queridíssima tia Maria da Glória.

É a caçula da prole de oito que nossos avós Mãe Ceição e João pariram – literalmente, pois ele, além de fertilizar a Conceição, foi o único ajudante nos partos.  E dona Maria, a última, quedou-se única. Sobrevivente de quatro mulheres e quatro homens.

Os machos partiram cedo. Dois deles, pouco depois dos 40, levados pelo Mal de Chagas.  Os outros, pouco além dos 50, de aneurisma e infarto. Dentre as fêmeas, minha mãe, a penúltima do time, também chagásica, se encantou a dois anos e sete meses dos 70. As tias mais velhas viveram mais do que a mãe, que sobreviveu 30 anos ao marido: chegaram à casa dos 90.

Por óbvio, justeza e prazer, tinha que ter festa o aniversário da caçula.

E lá estávamos, pelo menos um terço das quatro gerações dos Gonçalves Coelho – e seus desdobramentos em mais de uma dezena de sobrenomes, alguns sobrepostos em ramos de árvores diferentes, naturais ou por imposição das circunstâncias: o adotado por Maria da Glória Ribeiro, e mais: Dias dos Anjos, Gonçalves Pinto, Souza Ramos, Almeida, Castro, Costa, Lopes, Malaco, Nadu, Pinto Pereira, além do Esteliam, inventado por meu pai – e que transmito a filho, filhas, neta e netos, com variações na grafia .

Definitivamente, pai e escrivães não, ou raramente, conjugam o verbo prestar atenção …

Juntaram-se oito dos nove filhos e filhas que minha tia trouxe ao mundo – o antepenúltimo tornou-se estrelinha ainda bebê – e a maioria de suas respectivas proles: um dos três homens e dez das doze mulheres, e mais uma bisneta.

A sobrinharada veio de diferentes cantos do planeta Brasil, carregando suas crias e agregados. Praticamente, pelo menos um representante de cada galho da árvore familiar que frutificou.

Claro, todas as ausências sentidas, particularmente minha irmã caçula, Zeíca, impossibilitada de mover-se, ainda; esteve representada pelo marido, Osmane e pela filha, Marina.

Foi uma festa e tanto. Como deve ser, quando a mineirada se encontra. Uma energia desmedida, certamente partilhada pelos ancestrais.

Tia Maria e parte da sobrinharada, clicadas pela neta Clarice Malaco
Tia Maria, a filha Raquel (sentada à esquerda) e parte da sobrinharada, clicados pela neta Clarice Malaco

Bom demais rever o povo todo. Melhor ainda partilhar a emoção e a alegria de Maria da Glória. Como boa capricorniana que é, gosta de sentir-se querida e ama reunir toda a gente em torno de uma boa mesa.

Até cantar ela cantou, com um vozeirão que surpreendeu muita gente. Saber a letra é detalhe, rima jamais foi problema. Certos dotes são carregados no DNA.

Exigiu discurso e ganhou, vários. Terminou por ganhar um beijo na boca, premeditado – de um sobrinho-torto gaiato, célebre em suas aprontações familiares; sempre divertidas, aliás.

Pena que o tempo voa, especialmente quando a gente se deleita.

E assim foram os últimos dez dias em Belo Horizonte. Multipliquei-me, em vão; tive que abortar parte da agenda prévia.

Teve o rolezinho de desagravo ao Chico Buarque na quadra da Escola de Samba Cidade Jardim. Combinei com Eneida da Costa, mas tive direito a reencontro com amigos e conhecidos de antanho, gente da militância política e dos movimentos sociais que permeia toda minha/nossa vida: Nilmário Miranda e a companheira Stael Santana, Mércia Vasconcelos e Cia, Ângela Carrato, Virgínia Castro…

No palco, uma sucessão de músicos, dentre os quais Celso Adolfo, a tocar e a cantar o homenageado, mas também composições próprias. Chico ganhou um marchinha, especialidade mineira: Não enche o saco do Chico, dos mineiros Marcos Frederico e Victor Veloso, os mesmos autores da Marcha do Pó Royal, de outros carnavais (segue o vídeo do lançamento no Circo Voador, no Rio, pela qualidade do som).

A bateria da  Cidade Jardim fez a apoteose numa tarde-noite inesquecível. Sem contar o cenário que se descortina para a Serra do Curral, um espetáculo à parte.

 

 

Visitei, praticamente todos os dias, minha irmã que se recupera em internação domiciliar. Terminamos o livro Manuscritos de Felipa, da mineira Adélia Prado, que eu começara a ler para ela ainda no Recife, via zap-zap. Dá gosto ver as expressões que ela externa durante a leitura.

Acompanhei-a num exame externo, pré-requisito para a retirada da traqueostomia. Deu zebra.

Mas nesta segunda, 1º de fevereiro, Zeíca passa por breve cirurgia para retirada de calo na traqueia, passo essencial para descartar a cânula que carrega desde a cirurgia que a trouxe de volta à vida, faz quase um ano. Tudo há de ficar bem, pois tudo está sob controle de Quem pode.

Passei dois dias com meu irmão, desta vez, no espaço onde crescemos. Ele e a Zeíca moram no Ferrugem, ou Bairro das Indústrias, cada qual no seu quadrado. Foi regenerador respirar o clima do recanto onde nos fizemos, embora bastante modificado pelo tempo. Fez-me um bem enorme rever a vizinhança de antanho.

Antes, também dormi uma noite em casa do meu afilhado, filho da minha amiga-irmã Dora, que já é estrela, há 15 anos. Dela herdei um trio de netos do coração: Rodolfo e a irmã Isadora, do filho mais velho, e Lucca, cria do mais novo. Os meninos me chamam “vovó”; a menina, “tia Sula” – como a avó.

E aí, quando vi, já era hora de regressar.

Eneida_MLourdes e Aracele na Casa de Banho-Sula
Na despedida da Eneida (D), almoçamos no restaurante Casa de Banho, no estuário do Recife. Na foto, Maria de Lourdes e Aracelle. Euzinha clicou

Na bagagem, trouxe bem precioso para contrabalançar a saudade: minha amiga-irmã, Eneida. Veio curtir as delícias da minha Macondo de escolha. No final da primeira semana, Rachel, minha sobrinha e filha dela, também jornalista, de passagem a trabalho, nos brindou com sua presença, que estimula, no fim de semana.

No domingo seguinte, chegou Maria de Lourdes, irmã de Dora, minha amiga-irmã desde a infância. Trouxe a filha, e coleguinha de profissão, Aracelle.

Como se vê, entre incursões prazerosas na cozinha, um ou outro xêro no maridão e obrigações domésticas inadiáveis, levei a segunda quinzena de janeiro no papel de anfitriã-cicerone.

Diverti-me a valer. Pagar de turista onde se mora é oportunidade rara, que nos permite curtir com vagar o que a cidade tem de melhor, e observar como a terra recebe seus visitantes.

Férias, hospitalidade, carinho, amizade: não tem preço.

***************

Postagem revista e atualizada em 02.02.2016, à 00:39 hora do Recife: substituição de palavras repetidas em diferentes parágrafos; inclusão da última  frase do sétimo parágrafo, e correção de erros de digitação aqui e acolá.

 

 

 

 

 


2 comentários sobre “O propósito de cada ano pode muito bem começar pelo ócio…

  1. Que beleza Sulamita!!!! Adorei teu artigo/família!!! São relatos assim, que nos perpetuam, né não?

    Que bom que a mana Zeíca tá em processo de recuperação, ainda que com alguns ajustes cirúrgicos… mas, ela conseguirá, se precisar da energia Reiki, na coadjuvância é só sinalizar Ok?

    Muitas boas vibrações pra você e família!

    Obs: não vejo de chegar meu ócio rs rs rs

    beijo

    Célia Frente de Mulheres do Cariri Rede de Mulheres em Comunicação Rede Mulher e Mídia Rede Mulheres Amarc/Brasil 88 – 99635 1560 (tim)

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