A resistência ao arbítrio está nas ruas, na solidariedade e na palavra

#DesligaOGolpe, #OcupeaRedeEsgoto, palavras de ordem da manifestação de domingo em frente à Globo, no Rio - Foto: Mídia Ninja
#DesligaOGolpe, #OcupeaRedeEsgoto, palavras de ordem da manifestação de domingo em frente à Globo, no Rio – Foto: Mídia Ninja
por Sulamita Esteliam

Não, ainda não acabou. A semana começa onde parou a anterior. Ninguém mais tem dúvidas de que há um golpe em marcha, e ele se baseia, sobretudo, no achincalhamento do Estado Democrático de Direito, e está colocado em curso, não só pelos maus-perdedores nas urnas e pela midia venal, mas por gente que é parte das instituições que deveriam zelar pela ordem constitucional, pela proteção da cidadania, da sociedade. Gente pronta a fazer o serviço sujo para os senhores da casa-grande, sob o manto falso do moralismo.

Ainda não se sabe o que deu errado no meio do caminho, que limitou  a “condução coercitiva” ao Aeroporto de Congonhas. Nessas circunstâncias, não há vazamento. E a “culpa” é dos blogueiros.

Farofa-fá da indignação, em frente ao triplex de Paraty - Foto: M[idia Ninja
Farofa-fá da indignação, em frente ao triplex de Paraty – Foto: M[idia Ninja

O primeiro domingo de março foi de manifestações em frente à Globo, que apoiou a ditadura e sonega impostos, e informação. Houve também rolezinho em frente ao triplex de Paraty, praia privada que os Marinhos juram que não é deles, e que não é de ninguém. A TV dos filhos do doutor Roberto é a principal difusora dos espetáculos armados pelo circo do Moro, o czar da República de Curitiba, operador da Lava Jato.

Domingo foi também dia de proliferação de boatos, aliás desde o sábado, e desde sempre.

Um procurador do Ministério Público teria entregue ao ex-presidente Lula, em sua casa em São Bernardo do Campo, uma intimação para depor na sede da Polícia Federal, em São Paulo. Mais uma, e em pleno domingo.

Claro, a ordem teria partido do juiz de primeira instância, palmatória do mundo. Detalhe, o mandado era datado de 1º de março, três dias antes do sequestro do ex-presidente Lula pela Polícia Federal, em cumprimento de ordem do juiz Sérgio Moro.

O Valor Econômico publicou, depois tirou a nota. O Conversa Afiada recuperou a imagem e postou.  O Tijolaço também. Seria mais uma da escancarada prática do vazamento seletivo, conluio da Justiça, da Polícia Federal e/ou do Ministério Público com o PIG. No meio da tarde, Brito esclareceu: era uma “barriga” – fora, no jargão das redações. “O que não significa que não possa haver surpresas amanhã (segunda)”, emendou.

Ninguém está imune. Ontem, mesmo, escapei de um, que me chegou pelo zap-zap, de mais de uma fonte. Assegurava-se, com imagem do TSE e tudo, que Sérgio Moro seria filiado ao PSDB, desde 1999. Juízes são impedidos por lei de ter filiação partidária, e em 99 Moro já era juiz na capital do Paraná, e o homem pode ser incauto, menos burro.

A primeira checagem não confirmou a informação. Avisei ao grupo. Insistiram, me mandaram link e reprodução da página de registro. Estavam lá, todos os dados: Sérgio Roberto Moro. Chamei o maridão, que voltou a conferir a planilha que havia baixado do TSE, selecionou por município e por ordem alfabética, bingo!

Moro_filiados PSDB PR2_06.03.2016Juizes trf4-PR_Moro 13 varaSó que o nome do juiz em pauta é Sérgio Fernando Moro, conforme consta da lista de magistrados do TRF da 4ª Região (imagens). E também na página da Faculdade de Direito da UFPR, onde é docente. Resumo da ópera: o homem só tem as práticas.

Estamos todos de sobreaviso, é verdade. Os fantasmas se foram, os meus pelo menos, com o 04 de março. Agora é real. É preciso coragem, mas é preciso ter cuidado.

É como na canção de Caetano e Gil, gravada por Gal em fim dos anos 60, é preciso estar atento e forte…(Divino Maravilhoso)

A pergunta básica, não obstante, se mantém: quem é que vai parar com isso?

Cadê o STF, o guardião da Constituição?

Onde estão os órgãos de controle externo, os conselhos nacionais da Justiça e do Ministério Público, que devem zelar pelo bem-fazer das instituições que deveriam ser a guardiãs dos direitos individuais e coletivos?

Recadinho de Brecht, a calhar - Imagem capturada no FB de uma amiga
Recadinho de Brecht, a calhar – Imagem capturada no FB de uma amiga

E o Ministério da Justiça, não vai exigir do comando da Polícia Federal investigação e breque no desvirtuamento de conduta de seus membros. A PF tem o papel constitucional de polícia judiciária, não pode negar-se a cumprir ordem do MPF nem de um juiz federal, nem o governo pode impedir, nem deve interferir em investigações desta natureza, ou quaisquer outras.

Não é disso que se trata. Trata-se de botar ordem no furdunço, coibir os abusos, porque a PF, embora autônoma, está sob a batuta administrativa do Executivo. Não são apenas os vazamentos. Por exemplo, o uniforme camuflado da sexta-feira é provocação ou fantasia?

Seremos todos reféns do estado policialesco, de justiçamento, de seletividade, onde a exceção é regra?

Já na sexta-feira, o ministro do STF, Marco Aurélio de Mello foi enfático ao manifestar-se sobre a postura de Sérgio Moro, do Ministério Público e da Polícia Federal na condução coercitiva de Lula:

“ (…) Precisamos colocar os pingos nos ‘is’. Vamos consertar o Brasil. Mas não vamos atropelar. O atropelamento não conduz a coisa alguma. Só gera incerteza jurídica para todos os cidadãos. Amanhã constroem um paredão na Praça dos Três Poderes.”

É o cipó da aroeira a que já me referi em postagem anterior. Se nos olhos do Lula, da “petralhada” é refresco, não se esqueça que seu pai, sua mãe, seu irmão, seu tio, sua filha também têm olhos.

Na declaração à coluna da jornalista Mônica Bergamo, na Folha, Mello ironiza o argumento dos procuradores federais, em coletiva de imprensa, de que a medida seria para “proteger Lula” – soltaram uma nota no sábado. Perguntaram ao Lula?, questiona; e define as operações como “atos de força”, (…) retrocesso, não avanço”.

Jânio de Freitas, jornalista de larga experiência, também colunista da folha, aponta o crescente e incessante excesso de poder dos condutores da Lava Jato. E avalia as declarações de Marco Aurélio como uma “mega-advertência” à operação. Tomara.

Por seu lado, as vivandeiras clamam pelos militares, penas de aluguel a desserviço da Nação, a pregar a ordem, e a negar o progresso. Ignoram, propositalmente, que as armas, em toda democracia que se preza, e nos ditames da Constituição Cidadã deste país, devem prestar tributo à Presidência da República. Acreditam que o Brasil ainda é uma republiqueta de bananas.

Não é mais, gostem ou não.

A resistência ao avanço contra o Estado de Direito, contra a democracia, está nas ruas, desde a sexta-feira, 04. As manifestações de apoio aconteceram em cerca de 1500 cidades Brasil afora, ainda na sexta.  E vão continuar, até que cessem as arbitrariedades.

Os vândalos da esquina substituem os guardas, estimulados pelos arautos do caos. Atacaram as sedes do Instituto Lula, e do PT em várias capitais. Não é a primeira vez. Isso não é incitação à violência, segundo os capatazes da casa-grande. De fato, é a violência em estado de apodrecimento de uma sociedade carcomida pelo ódio de classe.

Não passarão.

Tornam-se adubo da solidariedade, ao contrário. Venham de onde vierem, e da forma que vierem. É o refulgir da consciência de que é preciso recomeçar, como bem disse Luiz Inácio; para manter acesa a chama de que “a luta continua”.

Assista ao vídeo sobre o trabalho de grafite de um grupo de jovens, lição de cidadania para cobrir a vergonha da intolerância:

 

 

O Fórum 21, que réune gente disposta a pensar o Brasil e a defender a legalidade, reage ao arbítrio cometido contra Lula com uma Petição Pública em defesa da democracia. Recebi de amigos jornalistas das Gerais, e assinei mas está também em Carta Maior. Para assinar também, e passar adiante clique:

Lula devolta a São Bernardo - Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula
Lula devolta a São Bernardo – Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

 Ao Povo Brasileiro

Democratas reagem com Petição Pública contra o arbítrio cometido pela PF, nesta sexta-feira, em São Paulo, quando o ex-presidente Lula foi objetivamente sequestrado, para prestar esclarecimentos aos quais nunca se negou, a uma Justiça que sempre fortaleceu.

A partidarização de uma parte do judiciário, a obscena sintonia de véspera da mídia conservadora na lubrificação da opinião pública, bem como o desrespeito às urnas, condensados neste episódio, infestam o ar de qualquer democracia com a carniça inconfundível do velho golpe de Estado.

Contra ele –e contra os que os que o apoiam– as forças democráticas da sociedade brasileira manifestam a sua indignação e o seu repúdio. E se colocam em vigília permanente para rechaça-lo.

Fórum 21 convoca a intelectualidade brasileira à defesa da democracia, contra o golpe

A democracia vive horas decisivas em nosso país.

O ar empesteado de avisos da véspera, lubrificados pelo Jornal Nacional, e pelas manchetes desta fatídica 6ª feira, 4 de março de 2016, desdobrou-se na ruptura longamente cevada, desde outubro de 2014.

Os agentes da PF chegaram a residência do ex-presidente Lula e o levaram sob condução coercitiva. Praticamente sequestrado: durante horas não havia notícia oficial de seu paradeiro, com a desculpa de se evitar manifestações, ou seja, parecem temer o povo ou a democracia.

A revanche dos interesses derrotados nas eleições presidenciais do ano passado desfechou assim seu bote final contra a soberania das urnas.

Dê-se a isso o nome que se quiser dar.

Os acontecimentos das últimas horas, a obscena sintonia entre a mídia e a polícia partidarizada, falam por si.

O pudor e as aparências foram sacrificados em nome do que importa: a caça implacável à Lula, apontado pelo Datafolha, no início desta semana, o melhor presidente da história deste país, por 37% dos brasileiros

É impossível levar a cabo o projeto de restauração neoliberal preconizado pelos grandes interesses do dinheiro local e estrangeiro, com um estorvo que detém esse trunfo na urna.

Não se trata da pessoa do ex-presidente.

O que foi sequestrado neste 4 de março de 2016 é o que ele representa em carne e osso – com todas virtudes e limitações da carne e do osso humanos.

Os pilares erguidos desde 2003, na construção da grande ponte de acesso dos brasileiros aos direitos da civilização e da democracia social, estão sendo demolidos.

A caça a Lula, consumada agora, é a parte mais explosiva dessa faina demolidora, edulcorada de cruzada ética pela narrativa dominante.

O Fórum 21 nasceu como um espaço ecumênico de aglutinação da inteligência brasileira.

Reúne todos aqueles empenhados em contribuir para a construção da frente democrática e progressista em formação no país.

Não podemos subestimar o que temos pela frente a partir de agora.

O assalto em curso visa a democracia, as lideranças que dificultam a subordinação radical do país aos interesses rentistas e, em última instancia, sonegar um futuro melhor ao povo brasileiro.

O ataque desfechado por José Serra esta semana às maiores reservas de petróleo descobertas no século XXI ilustra a força motriz desse mutirão.

Dilapidar o pré-sal e o potencial que ele representa em direitos e autonomia econômica simboliza o modelo que eles querem vestir a fórceps no país.

Isso não se faz sem o uso da força.

Reacende-se a velha fornalha que incinerou ou tentou incinerar governos, soberania e direitos em 1932, 1954, 1962, 1964, 1989 …

Hoje, como das vezes anteriores, vivemos uma transição de ciclo de desenvolvimento.

Esgotou-se um capítulo do crescimento brasileiro.

Outro precisa ser construído.

A complexidade da travessia consiste no fato de que o velho já não atende às necessidades nacionais, mas o novo ainda não se estruturou para servi-las.

Estamos na soleira de escolhas cruciais na vida de uma nação.

O passo seguinte terá como bússola a solidez econômica voltada para atender as necessidades e urgências do nosso povo? Ou o país, seu parque fabril, seus recursos e seu gigantesco mercado de massa serão reduzidos a um anexo de interesses dissociados das urgências nacionais?

É isso que está em jogo nas horas que rugem.

Para resistir não basta a emoção.

É preciso organização –local, regional, nacional.

É preciso impulsionar uma espiral ascendente de mobilizações, consistentemente preparadas.

O Fórum 21 conclama seus integrantes, o mundo acadêmico e todos os intelectuais brasileiros a cerrarem fileira ao lado da democracia.

Não apenas para resistir.

Mas para fazer dessa resistência uma ponte de repactuação da nossa riqueza e do nosso potencial, com o potencial e a riqueza do nosso povo.

Esse é o sentido das reuniões que o Fórum 21 convocará em seguida, para discutir o novo degrau do golpe, a crise econômica, a partidarização da justiça e a manipulação do discernimento social pela mídia.

Essa maratona não se confunde com uma tertúlia acadêmica.

Trata-se de aglutinar a inteligência brasileira para refletir e agir.

E isso significa, entre outras coisas, levar a círculos amplos da população a verdadeira natureza do embate que se acirra e se acelera.

O embate entre um projeto de sociedade para 30% de sua elite; ou a árdua luta pela construção de uma verdadeira democracia social no Brasil.

Em breve, a agenda de encontros do Fórum 21 nas universidades e capitas brasileiras será divulgada.

Todos nós sabemos de que lado devemos marchar.

Trata-se agora de exercer integralmente esse discernimento juntando forças na trincheira ecumênica do Fórum 21 e de outras iniciativas democráticas em curso.

Resistir ao golpe para construir um Brasil mais justo e soberano: essa é a tarefa para a qual a História nos convoca nesse momento.

Só podemos cumpri-la juntando forças em torno da nossa maior arma: a palavra engajada.

 

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Postagem revisa e atualizada às 11:42: inclusão de parágrafo antes do vídeo da TVT, editado novamente às 12:11 horas; deu a louca nas configurações, mas parece que agora está tudo ok.


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