Golpe sanfona: Dilma resiste com o povo nas ruas

“Quando você não souber aonde ir, lembre-se de onde você veio, e você encontrará o caminho.”

                                                                                                                                                 Sábio africano

 

A presidenta Dilma foi recebida com afagos e palavra de ordens de apoio pelas mulheres - Foto: Roberto Stuckert Filho/PR/Fotos Públicas
A presidenta Dilma foi recebida com afagos e palavra de ordens de apoio pelas mulheres – Foto: Roberto Stuckert Filho/PR/Fotos Públicas
por Sulamita Esteliam
Tico Santa Cruz, em Beagá, lembra Cazuza:"Vamos pedir piedade, senhor, piedade,para essa gente golpista e covarde..."
Tico Santa Cruz, em Beagá, lembra Cazuza:”Vamos pedir piedade, senhor, piedade,para essa gente golpista e covarde…” – Foto: SEsteliam
Ato em São Paulo, ao lado da Praça da Bandeira - Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil/Fotos Públicas
Ato em São Paulo, ao lado da Praça da Bandeira – Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil/Fotos Públicas

Na noite de ontem, fui ao Acampamento da Democracia, na Praça da Liberdade. Ver de perto o ato contra o golpe na capital mineira, a exemplo do que ocorreu em outras cidades brasileiras.

Lá também estavam Tico Santa Cruz e Flávio Renegado, dentre outros artistas da terra, engajados na resistência à marcha da insensatez.

Uma noite emocionante, em mais um dia em que o povo representado pelos movimentos sociais, com a força de uma juventude cada vez mais presente, trouxe para as ruas sua disposição em resistir à usurpação do Poder Executivo do País.

Esta sexta, nos sete cantos do Brasil, repetiu-se o que se tem assistido nos últimos meses, e é apenas um aperitivo do que vem por aí – para o bem e para o mal.

De um lado, o povo na rua em defesa da democracia e dos seus direitos ameaçados. De outro o Estado de exceção, que vigora, e que tende a agravar-se, caso se confirme o afastamento da presidenta Dilma.

Na segunda, o ex-ministro Guido Mantega foi conduzido coercitivamente para depor na Polícia Federal, a mando de juiz encarregado da Operação Zelotes, exorbitando, mais uma vez, os limites legais.

E o que dizer da detenção, ainda que temporária, pela PF de 73 mulheres, todas delegadas da Bahia a 4ª Conferência Nacional de Políticas para Mulheres, num voo da TAM?

As representantes dos movimentos feministas em seu estado usaram palavras de ordem para manifestar-se contra uma dupla que votou pelo impeachment na Câmara. Os deputados se queixaram ao comandante, que chamou a polícia, que as conduziu coercitivamente à sala da PF no Aeroporto de Brasília. Só foram liberadas após interferência de três parlamentares acionadas.

Pergunto-me aonde vão parar nossas instituições.

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Na Liberdade, encontrei vários amigos e amigas, parceiros e parceiras de longa data nas lutas pela cidadania plena, indissociável do respeito às regras democráticas. A despeito da determinação em seguir mobilizados, em cada semblante a angústia de estarmos assistindo à derrocada de tudo pelo que brigamos anos a fio.

Mostra indefectível do quanto é frágil a nossa democracia. Somos uma republiqueta de bananas, porque é nesse papel que nossas elites, que inclui a classe média que almeja ascender à casa-grande, se sentem confortáveis.

Nilmário Miranda, deputado federal pelo PT e secretário de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania de Minas, ministro da Secretaria de Direitos Humanos do primeiro governo Lula, é prova viva disso: “Estou vivendo meu quarto golpe”, lembrou com sorriso amargo.

Estávamos numa conversa informal, e não lhe pedi para nomear sua experiência com os golpes. Até porque, suponho conhecer bem sua biografia, pois tive o privilégio de assessorar seu mandato durante breve tempo, em Brasília.

Nilmário era um jovem quando estourou o golpe civil-militar de 64, e estava na resistência quando se deu o recrudescimento do golpe em 1968, com a edição do Ai-5. Foi capturado pela repressão no início dos anos 70, junto com Dilma Rousseff, que militava com ele na Polop, e de quem é amigo pessoal. Como ela cumpriu cadeia, sofreu tortura, teve seus direitos políticos suspensos.

Mas era uma criança quando Getúlio Vargas foi levado ao suicídio pela pressão impiedosa de seus opositores. Contudo, estava em pleno ativismo quando as forças conservadoras manipularam para derrotar na Câmara dos Deputados a vontade popular manifesta na campanha das Diretas-Já.

Pois estamos na véspera da confirmação do que parece inevitável, pela trama golpista, à revelia do povo nas ruas. E se a História se repete como farsa, que nome dar ao espetáculo de inconsistência e de insensatez a que vimos assistindo há, pelo menos, um ano e meio?

Então, não há porque se surpreender com a atitude do presidente interino da Câmara, deputado Waldir Maranhão de revogar a revogação da sessão que aprovou a admissibilidade do impeachment, que ele votou contra. Pois o fez, pouco mais de seis horas após confirmar a primeira medida em pronunciamento “ao povo brasileiro”.

E o destino na Democracia passou a ser brincadeira neste país, e não é de agora, por obra e graça da interinidade decisória do presidente em exercício da Câmara.

Pode-se imaginar o tipo e a intensidade da pressão por ele sofrida. Mas, repito aqui o que comentei nas redes sociais durante o dia: chega a dar pena tanto despreparo emocional. E indigna ver do que são capazes os predadores da Nação.

Daí que é de se reconhecer a fibra da mulher que sustenta Dilma Rousseff. Nem um exército de oito mil homens, como no provérbio africano, é capaz de dobrar. Claro que isso incomoda os usurpadores, machistas empedernidos.

Aliás, nesta quarta, a presidenta da República voltou a dar provas de sua firmeza de caráter ao abrir a Conferência de Políticas para Mulheres, em Brasília. Ela assinalou que não se cansa da luta, mas está “cansada dos desleais e dos traidores”. E deu nome aos bois-condutores do golpe: o vice Michel Temer e o presidente-afastado da Câmara, Eduardo Cunha.

“Eu sou uma figura incômoda. Eu me mantenho de pé, de cabeça erguida, honrando as mulheres. [Com isso], ficará claro que cometeram contra mim uma inominável, uma enorme injustiça. Eu vou lutar com todas minhas forças usando todos os meios disponíveis e legais de luta. Vou participar de todos atos e ações que me chamarem.”

Isso na véspera da votação do Senado que pode decidir seu afastamento do cargo, ato contra o qual a Advogacia Geral da União, dado os acontecimentos recentes, ingressou com mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal.

Dilma não deve e não vai renunciar, e vai seguir denunciando o golpe aos quatro ventos.

“A História vai mostrar como o fato de eu ser mulher me tornou mais resiliente, mais lutadora. A renúncia jamais passou pela minha cabeça”.

Os golpistas que arquem com as consequências de seus atos diante da comunidade internacional e perante a História. Esta parece ser a linha de raciocínio da presidenta, que tem consciência do ingrediente machista e misógino que envolve a sabotagem ao seu governo, em afronta à Constituição e à vontade popular.

“Para mim é um momento decisivo para a democracia brasileira que estamos vivendo hoje. A História ainda vai dizer o quanto de violência contra a mulher, de preconceito contra mulher tem nesse processo de impeachment golpista.”

Mais aqui e aqui.

 

 

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Postagem revista e atualizada às 16:55h: correção de erros de digitação, e tbm de concordância, em diferentes parágrafos.


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